[Resenha] A Odisseia de Penélope

Esta resenha foi feita com base no e-book em inglês da Canongate Books. Todas as traduções de trechos foram feitas por mim.

penelopiadSinopse: Em A Odisseia de Penélope, Margaret Atwood subverte a narrativa original, centrada em Odisseu e suas peripécias ao longo dos vinte anos em que esteve ausente de Ítaca. A esposa Penélope, personagem emblemática da fidelidade e da obediência feminina, passa a ocupar o centro da história e a reconta de seu ponto de vista. Dona de uma astúcia comparável à de Odisseu, ela se vale de inúmeros expedientes para sobreviver com dignidade enquanto o marido não retorna. Mas seus pensamentos, desejos e paixões nem sempre são os mais apropriados a uma casta rainha.

Fonte: Livraria Cultura

Neste curto livro, a escritora canadense Margaret Atwood se propõe a recontar a Odisseia de Homero, deixando que Penélope narre em primeira pessoa a história de sua vida. Inicialmente inspirada por um momento específico da história, Atwood vai além do mito original, se apoiando em outras lendas que cercavam a personagem. Não à toa chamou a obra em inglês de Penelopiad ou “Penelopíada” (“Canção de Penélope”).

Pra quem não sabe ou não lembra, Ulisses, depois de dez anos de guerra e mais dez anos vagando pelo Mediterrâneo, chega à sua ilha natal, Ítaca, e encontra vários pretendentes comendo sua comida, bebendo seu vinho e cortejando sua esposa. Como bom herói que é, mata todos eles – assim como doze criadas de sua casa, que haviam dormido com os homens. “Eu sempre fui assombrada pelas criadas enforcadas”, diz Atwood na introdução, “e neste livro, Penélope também é.” Atwood propõe-se a responder ao mistério do enforcamento das criadas, aproveitando as lacunas deixadas por Homero.

Apesar do ponto de partida tenso, o livro é muito bem-humorado. A Penélope de Atwood narra do além, como uma Brás Cubas mitológica, e às vezes fala diretamente com o leitor contemporâneo, mostrando conhecimento dos últimos 3 mil anos de história. No mundo dos mortos também encontra conhecidos, como um dos pretendentes e também a prima Helena (de Troia) – a qual Penélope, por sinal, detesta e considera nada mais do que uma exibida, fútil e irresponsável.

Mas a verdadeira reviravolta com relação à obra original, assim como as maiores críticas de Penélope, refere-se ao marido. Todo o tom principal de ironia, que é muito forte na narrativa, recai sem misericórdia sobre o famoso personagem. O Ulisses de Atwood é um espertalhão (mais ainda que o de Homero), que não apenas não sente nenhum amor pela mulher como chega a ameaçá-la – pra não falar que parece ter uma quedinha por Helena. E mais, conforme sugere Penélope, quando fala dos relatos sobre o marido distante:

“Ulisses tivera uma briga com um ciclope gigante, diziam alguns; não, era só um taberneiro de um olho só, dizia outro, e a causa da briga era o não pagamento de uma conta. Alguns dos homens tinham sido comidos por canibais, diziam alguns; não, era só uma briga comum, diziam outros, com mordidas de orelhas e sangramentos de nariz e esfaqueamentos e eviscerações. […]”

A protagonista chega a duvidar até das boas intenções do filho, dizendo, em certo ponto, que ele provavelmente gostaria se ela morresse. Na verdade, sua narrativa é tão ácida em relação a todos ao seu redor que o leitor chega a duvidar do relato: não seria ela um pouco paranoica?

Em meio à história principal, Atwood brinca com o gênero teatro e insere alguns interlúdios, em que o coro de criadas assassinadas fala por si só. São partes bonitas, em que a autora dá voz a pessoas simples, que não têm vez nos mitos, e critica sua transformação em meros símbolos para futuros acadêmicos interpretarem. Também há uma ótima cena em que Ulisses é julgado em uma corte do século XXI, que termina com um juiz confuso enquanto Atena, as Fúrias, as criadas e Ulisses destroem o tribunal.

A obra pode ser lida por quem tem apenas um conhecimento básico da história original, mas não é tão fácil de compreender como A canção de Aquiles. Atwood não gasta muito tempo explicando as coisas, e quem tem mais conhecimento de Homero certamente vai entender melhor quem são as personagens e eventos.

Mas meu maior problema com o livro é outro. À parte o fato de eu achar que sua interpretação de todos os personagens, exceto Penélope, é desnecessariamente cínica (e ignora ainda alguns fatos estabelecidos por Homero), Atwood não me convenceu ao responder as questões propostas no início do livro. Sua explicação da morte das criadas não justifica o ódio que a protagonista tem pelo marido, de modo que é um tanto quanto gratuita a sua interpretação de que o casal tem um relacionamento inteiramente sem amor e afeto.

De qualquer modo, releituras são sempre interessantes, mesmo que não concordemos com elas. O livro é curto e divertido, mas faz o leitor refletir sobre a natureza dos mitos e as injustiças muitas vezes cometidas contra os menos poderosos.

*

A Odisseia de Penélope
Autora: Margaret Atwood
Tradutor: Celso Nogueira
Editora: Companhia das Letras
Ano de publicação: 2005
160 páginas

Citações preferidas

Imortalidade e mortalidade não se misturavam bem: eram como fogo e lama, mas o fogo sempre ganhava.

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Os vivos não visitavam mais o submundo, e nossa morada fora superada por um estabelecimento muito mais espetacular – poços de fogo, gemidos e dentes rangendo, vermes roendo, demônios com forcados – muitos efeitos especiais.

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Nós também nascemos dos pais errados. Pais pobres, pais escravos, pais camponeses, e pais servos; pais que nos venderam, pais de quem fomos roubadas. Esses pais não eram deuses, não eram semideuses, não eram ninfas ou náiades. Fomos postas para trabalhar no palácio, ainda crianças; trabalhávamos do amanhecer ao pôr do sol, ainda crianças. Se chorávamos, ninguém enxugava nossas lágrimas.

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