[Resenha] O circo da noite

circonoiteSinopse:

O circo chega sem aviso. Nenhum anúncio o precede. Simplesmente está lá, quando ontem não estava. Sob suas tendas listradas de preto e branco uma experiência única está prestes a acontecer, repleta de atrações impressionantes, de tirar o fôlego. O nome dele é Le Cirque dês Rêves, e só abre à noite.

Fonte: Intrínseca

 

De vez em quando, você pega um livro que acaba não sendo nada como você imaginou, simplesmente porque você jamais conseguiria imaginar aquilo. O circo da noite despedaçou todas as expectativas que eu tinha, começando pela ideia de que seria um livro mais juvenil. Ele se revelou uma obra refinada e me apresentou algo raríssimo: uma história profundamente original. Isso não deveria ser surpreendente, já que a fantasia abre espaço para tantas possibilidades, mas quem lê bastante o gênero já está acostumado com certas fórmulas. O livro pode não ter entrado para os meus favoritos de todos os tempos, mas certamente quebrou moldes e se aventurou a fazer algo diferente, o que deu muito certo.

A história gira em torno de dois homens: um conhecido como “Próspero, o Mágico” e outro por “A. H.”, embora estes não sejam seus nomes reais. Quando sua filha é entregue a ele após o suicídio da mãe, Próspero identifica uma aptidão nata na menina para “manipulações”, que é como chama, por falta de um nome melhor, a magia. Então convida A. H. (que supomos ser um velho conhecido ou rival) para um jogo – cuja natureza será um mistério até o fim do livro, inclusive para os jogadores. Estes são sua filha, Celia, e o escolhido por A. H.: Marco, um órfão que ele encontra em Londres e passa a treinar para o desafio. Os métodos dos dois treinadores são bem diferentes, mas ambos isolam as crianças de qualquer vida normal e as obrigam a dedicar todos os esforços à tal competição.

Celia e Marco são vinculados à tarefa por magia, mas só depois de muitos anos surgirá a arena da competição: Le Cirque dês Rêves, criado por um francês, Lefèvre, que não sabe nada nem sobre a competição nem sobre magia nenhuma. Os protagonistas, inicialmente sem saber a identidade um do outro, se insinuam na criação do circo e influenciam seu formato, além de usar a magia, cada um do seu jeito, para criar atrações e manter o circo funcionando.

Há uma série de outros personagens – pessoas envolvidas na criação do circo que não sabem sobre a competição nem a magia; pessoas que passam a trabalhar no circo e que têm relação com Celia ou Marco; e algumas que você sente que sabem mais do que revelam. Há também três personagens importantes: Poppet e Widget, gêmeos que nasceram na noite de estreia do circo (e que foram afetados pela magia que cerca o lugar), e Bailey, um garoto comum que por acaso conhece Poppet ao ser desafiado pelos amigos a entrar no circo durante o dia. Quando o circo reaparece em sua cidade anos depois, o menino se vê envolvido novamente com os gêmeos.

Já disse que a originalidade da obra me impressionou, mas a estrutura narrativa também: há vários pulos temporais, de modo que, por exemplo, acompanhamos a criação do circo, na década de 1880, ao mesmo tempo que Bailey o vê pela primeira vez, em 1902. E há alternâncias mais sutis também, o que exige que o leitor preste atenção nas datas, que não estão lá só para enfeite. O livro é longo mas os capítulos são curtos, e como cada um é meio episódico (a narrativa é em terceira pessoa, passando pelo ponto de vista de vários personagens), você não se sente tão impulsionado a continuar virando as páginas. Mas os mistérios são tão intrigantes que vale a pena ler com calma e ir tentando juntar as peças do quebra-cabeça.

A obra é bem escrita, mas nada de especial; o que adorei mesmo foram as descrições das tendas do circo, cheias de atrações oníricas e impossíveis. Mas meu aspecto preferido é o fato de que o circo, que parece tão mágico e encantador a princípio, começa a revelar um lado sombrio com o passar dos anos, afetando tanto quem está dentro dele como quem se envolveu com sua criação mas não faz parte da trupe.

Tive uma relação curiosa com os personagens, porque me importei muito mais com Poppet, Widget e Bailey (este, meu preferido!) do que com os protagonistas, Celia e Marco. É um pouco difícil explicar por quê, mas tentarei. Primeiro, apesar de as personagens em geral não acreditarem na magia (o que é uma questão importante da obra e dá uma sensação de que a história se passa no nosso mundo), a infância de Celia e Marco é bizarramente não questionada por eles, dando um ar de “conto de fadas” à vida dos dois. Me senti mal por essas crianças serem obrigadas a se preparar para um desafio que nem entendem, mas faltou um pouco de verossimilhança para que eu me identificasse com as personagens.

O segundo ponto é que o romance deles não me convenceu: achei genial a ideia de que a competição cria um companheirismo entre as pessoas – certa codependência –, mas o livro passa muito mais tempo com os dois apaixonados do que se apaixonando de fato. É bom notar que essa é uma opinião pessoal, mas gosto muito mais de ler sobre um romance se desenvolvendo do que longas declarações de amor. (Aliás, acho que o autor só deve inserir passagens melosas depois que os personagens passam algumas centenas de páginas tentando ficar juntos.) Isso me irritou um pouco e me fez preferir as cenas dos gêmeos e de Bailey às dos protagonistas. Mas, falando em romance, o livro ganha pontos por mencionar outras sexualidades de modo bem casual e natural.

Quanto à resolução (spoilers neste parágrafo!), devo dizer que não me fez cair da cadeira, embora a revelação da identidade de uma personagem tenha sido uma boa surpresa. Fiquei um tanto decepcionada com a falta de explicações quanto ao(s) sistema(s) de magia, uma vez que estavam no centro da competição e o livro nos deixa só com impressões gerais de como podem funcionar. Também não fiquei convencida de que o circo poderia sobreviver até a era digital – não sei se a magia seria mais poderosa que o Google.

Uma coisa que adorei, porém, foi a ideia de que surgiu um grupo de fãs que criaram uma rede de comunicação, promovendo encontros, escrevendo cartas e seguindo o circo pelo mundo: essencialmente, um fandom. Ótima ideia e bem realizada.

Em resumo, é um livro que deve ser apreciado com calma e que certamente vai ser diferente de tudo que você já leu. Apesar das críticas, fiquei contente por ter lido uma fantasia tão diferente – e o melhor de tudo, é um standalone. Sim, eles ainda existem!

*

O circo da noite
Autora: Erin Morgenstern
Tradutor: Claudio Carina
Editora: Intrínseca
Ano de publicação: 2012
368 páginas

Livro cedido em parceria com a Intrínseca.

SELO BLOG

8 respostas em “[Resenha] O circo da noite

  1. Adoro livro standalone. Poxa, agora tudo é trilogia ou série! Este livro “O circo da noite” não me interessou, acho que porque também achei que seria mais um livro juvenil, como você comenta na resenha. A história até parece ser interessante.

    • E se a série é boa, vc até lê rápido uns 3 livros, mas dá uma preguiça de começar, né? rs

      Não sei por que tive essa impressão – talvez a capa, que está bonitinha demais (achei linda, mas o livro é mais sombrio!).

  2. Oi Isa,
    Sabe que eu tbm tinha a impressao de q esse livro tendesse mais para o juvenil. Certamente n esperaria uma estória tão profunda e original.
    Complicado quando o leitor se identifica ou se apega mais aos personagens coadjuvantes do que com os protagonistas, né? Já aconteceu cmg e eu simplesmente n consigo me conectar com a estória.
    E esses romances que surgem do dia para a noite são mto forçados né? Realmente, a ideia de codependencia dos personagens é genial dada as circunstâncias, mas me parece que foi subaproveitada.
    Esses tempos eu fui contar qts séries pendentes eu tinha. 12, acredita? E o pior é que já tem mais tres na lista de espera. Então a partir de agora ou leio standalone, ou tenho q terminar uma série para poder começar a ler outra. Se não, vou ficar nesse loop infinito para sempre rsrsrs
    Abraço,
    Alê
    http://www.alemdacontracapa.blogspot.com

    • 12?! Hahaha eu tenho algumas, mas a maioria são livros ainda não publicados (ainda bem, dá tempo de ler umas outras coisas!). Mas é, também gosto quando aparece uns standalones. Vc sente que conseguiu terminar uma leitura.

      Obrigada pelo comentário! 🙂

  3. Isa! Eu estava dando uma olhada geral em resenhas desse livro, e já tinha me conformado com a ideia de que não valia a pena. Vi muita gente falando que é meio confuso e parado. Mas dai eu li essa sua agora e de outra blogueira que eu curto, falando bem, e eu acho que é justamente por sair dessa fórmula dos YAs que muita gente estranhou, né? Vou dar uma chance, ler com calma 😉

    • Oi, Sa! Não é exatamente confuso, mas nem tudo é muito bem explicado… mas com ctz é bem diferente mesmo, acho que vale a pena pra sair da mesmice. Obrigada pela visita! =)

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