[Resenha] Leonardo da Vinci

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Com base em milhares de páginas dos impressionantes cadernos que Leonardo manteve ao longo de boa parte da vida e nas mais recentes descobertas sobre sua obra e sua trajetória, Walter Isaacson, biógrafo de Einstein e Steve Jobs, tece uma narrativa que conecta arte e ciência, revelando faces inéditas da história de Leonardo. Desfazendo-se da aura de super-humano muitas vezes atribuída ao artista, Isaacson mostra que a genialidade de Leonardo estava fundamentada em características bastante palpáveis, como a curiosidade, uma enorme capacidade de observação e uma imaginação tão fértil que flertava com a fantasia.

Fonte: Intrínseca

 

Pintor. Arquiteto. Engenheiro. Uma das mentes mais brilhantes da humanidade, autor do retrato mais emblemático da história da arte e cientista muito à frente do seu tempo.

Ele também tinha certa dificuldade com raízes quadradas. Raízes cúbicas, então, nem se fala.

Em Leonardo da Vinci, de Walter Isaacson (biógrafo de Albert Einstein e Steve Jobs), a mente de uma das figuras mais misteriosas e fascinantes da história é destrinchada — e sua aura divina, desmistificada — a partir de suas anotações. Muito já foi escrito sobre Leonardo, mas Isaacson baseou sua pesquisa nos cadernos do artista: mais de 7 mil páginas remanescentes (provavelmente um quarto do total produzido) nas quais ilustrações, pesquisas e anotações aleatórias se encontram lado a lado, revelando um pouco dos processos mentais desse homem extraordinário.

Extraordinário, mas não um gênio, como diz Isaacson. Pois resumir as realizações de Da Vinci a um dom divino seria minimizar o esforço contínuo que ele fez durante a vida para questionar o mundo que o cercava e investigá-lo de modo científico. Curiosidade: essa é a palavra-chave que aparece continuamente ao longo da biografia (qualidade que seria qualificada em certo momento como “fanática”). Não só uma visão eternamente questionadora, mas também a habilidade de jogar fora teorias que não se adequavam à realidade, permitiram a Leonardo ir além dos contemporâneos em diversos campos.

No entanto, como nos conta o biógrafo, ele não era infalível nem sobre-humano. Nem sempre era bem-sucedido no que se propunha: não só tinha dificuldade com a matemática (quem se identifica?) como nunca conseguiu aprender latim (por ser um filho bastardo, não teve educação formal). Muitas de suas ideias mirabolantes jamais saíram do papel, enquanto outras fracassaram (a deterioração de A última ceia, por exemplo, é consequência da técnica que ele criou para substituir o afresco). Sua vida era baseada na experimentação: e essa, muitas vezes, falha.

O livro segue uma linha temporal, mas os capítulos focam-se em fases de pesquisa e de produção de determinadas obras (culminando com a Mona Lisa, uma encomenda jamais entregue que o artista retocou por dezesseis anos e a qual ainda possuía ao morrer). A vida pessoal de Leonardo não é o foco de Isaacson, embora naturalmente seja mencionada, em especial no que se refere a suas mudanças de cidade e de patronos. Nesse sentido, o contexto político da época é explorado, e figuras de peso como os Médici, os Sforza, reis franceses e ninguém menos que Maquiavel pontuam as páginas. Também adorei rever Michelangelo, que, como conta a biografia dele que resenhei em outro momento, tinha uma personalidade muito difícil e oposta à de Leonardo em vários sentidos (incluindo o modo como lidavam com a homossexualidade). Os dois tinham uma famosa rivalidade, mas cada um à sua forma contribuiu para tornar a arte uma ocupação de prestígio.

Conhecendo o básico sobre Leonardo e sabendo que sua fama vinha justamente da pintura, minha maior surpresa ao ler a obra foi quão pouco tempo Leonardo passou pintando de fato. Começou várias obras que jamais terminou (isso, ele e Michelangelo tinham em comum), e por um longo período não quis nem ver um pincel. Grande parte de seu tempo em Milão foi passado, na verdade, orquestrando peças teatrais, e ele tinha maior interesse em ser engenheiro hidráulico do que qualquer outra coisa. A sua curiosidade era de fato fanática, e se estendia por muitos campos.

Alguns assuntos, como a água, a geometria e a anatomia, foram obsessões de toda a vida. Seus desenhos anatômicos (feitos a partir da dissecação de dezenas de cadáveres) eram de precisão e beleza incomparáveis, e até da odontologia ele foi pioneiro. Mas também desenhou mapas inovadores para a cartografia da época; analisou o voo dos pássaros; estudou fósseis e a estratificação de rochas (chegando a conclusões heréticas sobre a falsidade do Dilúvio); interessou-se por astronomia. Seu estudo profundo de perspectiva e óptica o levou à técnica de sfumato, que borrava as bordas das figuras para se aproximar às imagens que vemos na vida real, e que torna excepcionais as suas obras mais famosas. Suas investigações científicas o levaram a deduzir as leis de Newton e fatos sobre fluidos que só seriam “descobertos” duzentos ou trezentos anos depois. Leonardo chegou até a descrever o funcionamento da aorta, algo que os médicos só entenderiam corretamente em 1960 (!).

Mas, como nunca reuniu suas observações e as publicou, muito desse conhecimento se perdeu e precisaria ser redescoberto nos séculos seguintes. De fato, como aponta Isaacson, Leonardo estudava pelo prazer da descoberta — não tanto pela vontade de avançar o conhecimento da humanidade.

No entanto, enquanto outros estudiosos e biógrafos viram esses múltiplos interesses como distrações de sua obra pictórica, Isaacson os vê como essenciais a ela. Assim, por exemplo, nos mostra como o estudo da óptica e da anatomia foram fundamentais para tornar a Mona Lisa o que é (em uma página de seus cadernos, Leonardo desenha os músculos da boca, tentando entender como se compõe um sorriso). Sua curiosidade estava associada a uma fantasia que lhe permitia ter ideias que só seriam realizáveis centenas de anos depois, ou nem isso. Ele via padrões entre as coisas e fazia analogias (entre o ser humano e as plantas, ou o ser humano e o próprio mundo) que o permitiam unir ciência, arte e até filosofia de um modo absolutamente único. Mesmo assim, e ao contrário de Michelangelo, Leonardo era uma pessoa extremamente colaborativa: o trabalho em ateliê na juventude e depois na vida adulta, assim como a amizade com outros estudiosos de áreas diversas, o auxiliou a chegar a várias conclusões.

A bela edição da Intrínseca apresenta imagens de todas as obras mais famosas, úteis para acompanhar as análises do autor, além de possíveis retratos feitos de Leonardo e muitas páginas de seus cadernos, mais raramente reproduzidas e que contêm ilustrações incríveis, especialmente as anatômicas. Apesar de eu ter sentido falta de uma capa dura, o trabalho gráfico está excelente, assim como a tradução.

Ao final da leitura, o que resta é mais do que um relato biográfico de uma figura histórica, mais do que um recorte da Renascença italiana, mais do que uma análise de obras de arte: Isaacson nos apresenta uma maneira inspiradora de ver o mundo que, por sua integralidade, criatividade, curiosidade e eterna busca por compreensão, torna Leonardo — com o perdão da palavra — genial.

*

Leonardo da Vinci
Autor: Walter Isaacson
Tradutor: André Czarnobai
Editora: Intrínseca
Ano desta edição: 2017
640 páginas

Exemplar cedido em parceria com a Intrínseca.

[bônus] recomendado: AntiCast 314 – Leonardo da Vinci

2 respostas em “[Resenha] Leonardo da Vinci

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