[Resenha] De quem é esta história?

Sinopse:

Quem escreve as narrativas de nossos tempos? Em cada debate, uma batalha está sendo travada: de um lado, mulheres e pessoas não brancas, não binárias e não heterossexuais finalmente podem contar a história com sua própria voz; de outro, pessoas brancas – sobretudo do gênero masculino – se apegam às versões de sempre, que contribuem para manter seu poder e status quo. Em vinte ensaios atualíssimos, a autora de Os homens explicam tudo para mim e A mãe de todas as perguntas avalia essas discussões, por que elas importam e quais são os desafios que temos pela frente.

Fonte: Companhia das Letras

“Who lives, who dies, who tells your story?” Quem assistiu (e se viciou em) Hamilton, o sucesso da Broadway de Lin Manuel Miranda, já foi introduzido a um questionamento intrigante e necessário para nossos tempos: quais vozes são ouvidas e quais pontos de vista são representados na narrativa da nossa história? É uma questão de extrema importância quando nos preocupamos com representatividade e equidade, e é dela que partem os ensaios reunidos em De quem é esta história?.

Neles, a historiadora e ativista Rebecca Solnit questiona a maneira como histórias são contadas, tanto na ficção como nos livros de história e até nos noticiários – por exemplo, como são retratados homens que assediam ou fazem tiroteios, em contraste com a representação de suas vítimas. Ou quais personagens históricos são homenageados e eternizados, e quais são deixados de lado.

Sempre com um ponto de vista feminista e bastante atual, os ensaios dessa coletânea têm temas diversos, desde a legislação americana sobre aborto até a Greve pelo Clima de 2019. Alguns dos textos conversam melhor com o público estadunidense (como é o caso do ensaio sobre os nomes de ruas de Nova York), mas a maioria deles é bastante proveitoso também para o leitor brasileiro. Mesmo quando a autora trata da corrida presidencial em seu país (numa denúncia a homens que pressionam e até ameaçam as esposas para que votem em candidatos republicanos), é impossível não traçar um paralelo com os conflitos políticos que temos por aqui. E, claro, muitos desses ensaios abordam temas bastante universais – um deles, intitulado Toda a raiva, fala da necessidade de nos preocuparmos com o sentimento de raiva que motiva as ações de tantos homens ao redor do mundo, especialmente os privilegiados, que já estão em posição de poder. “Poderíamos pensar que haveria mais literatura sobre o motivo que está deixando os homens tão zangados” é o contundente início desse texto.

Um dos meus ensaios favoritos foi Sobre o trabalho das mulheres e o mito do “monstro da arte”, que fala da necessidade de enxergar a produção da arte e da escrita como trabalho, e não como luxo. Solnit critica a visão de que a escrita é um trabalho egoísta, que faz com que uma pessoa se dedique menos à família e à sociedade (dado que outros trabalhos requerem sacrifícios similares) e que portanto não poderia ser feito por mulheres. É um texto bastante inspirador, em que a autora rejeita a ideia de associar esse tipo de trabalho ao ego.

“Escrever é um trabalho que pode andar de cabeça erguida lado a lado a todos os outros tipos de trabalho úteis que há no mundo; e é de fato um trabalho. Os bons escritores escrevem a partir do amor, por amor, e com frequência, seja diretamente ou não, pela libertação de todos os seres, e a bondade que há nisso é incomensurável.”

Também me encantei com Longa distância, um ensaio sobre histórias pessoais e coletivas, legados e permanência. É um dos textos mais poéticos dessa coletânea, tratando de mudanças no mundo, no ecossistema e na sociedade que só seremos capazes de observar e analisar se tivermos registros, se pudermos contar com a história – e não apenas com aquela formalizada em livros, mas também com as histórias orais e as tradições familiares e comunitárias.

Mesmo denunciando as violências e os desafios enfrentados por mulheres e por grupos minoritários nos dias de hoje, Solnit sempre traz certo otimismo a seus textos. É o caso de O herói é um grande desastre: estereótipos versus força em números, sobre o que é necessário para causar grandes mudanças sociais – e como elas dependem muito mais de articulações coletivas do que de grandes atos de heroísmo. Como já tinha apontado em seu livro A mãe de todas as perguntas, a autora enxerga os movimentos sociais da atualidade como uma ferramenta de mudanças positivas e irreversíveis, mesmo com tanto esforço para que eles se calem. Solnit respeita e entende a verdadeira história e, em mais uma semelhança com o musical Hamilton, enxerga a partir dela uma realidade mais inclusiva e empoderada para os grupos que mais precisam e trabalham por um futuro melhor.

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De quem é esta história? Feminismos para os tempos atuais
Autora: Rebecca Solnit
Tradutora: Isa Mara Lando
Editora: Companhia das Letras
Ano desta edição: 2020
216 páginas

Exemplar cedido pela Companhia das Letras.

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Citações favoritas

Vivemos dentro das ideias. Algumas são abrigos, outras são observatórios, outras são prisões sem janelas. Estamos deixando algumas para trás e entrando em outras. Nos anos recentes isso vem sendo um processo colaborativo tão rápido e poderoso que quem estiver prestando bastante atenção consegue ver as portas se definindo, as torres se elevando, os espaços tomando forma, ali onde nossos pensamentos vão residir – e também consegue ver outras estruturas irem ao chão.

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O poder de ter credibilidade é distribuído de maneira tão desigual quanto todos os outros poderes que há por aí.

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A raiva masculina é uma questão de segurança pública, bem como uma força atuante nos movimentos políticos e sociais mais repugnantes do nosso tempo, da epidemia de violência doméstica aos tiroteios em massa, dos neonazistas aos incels. Como normalizamos o comportamento dos homens, e dos homens brancos em particular, raramente se observa o fato de que muitos movimentos de extrema direita […] são quase exclusivamente masculinos.

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Algumas das pessoas mais privilegiadas do mundo vivem em fúria e passam a vida rugindo de raiva, em especial o presidente e seus seguidores brancos mais velhos […]. Essa gente vive com raiva, talvez porque a alternativa seja refletir sobre a injustiça e a complexidade desta época e deste lugar e tudo que isso exige de nós.

* Os meninos podem ser estigmatizados como nerds e geeks, mas ninguém os censura por serem inteligentes demais. Já as meninas podem sofrer essa censura, e muitas aprendem a esconder sua inteligência, ou simplesmente abandoná-la, ou desvalorizá-la, ou duvidar dela. Ter opiniões fortes e ideias precisas é incompatível com adular e ser submissa.

Uma resposta em “[Resenha] De quem é esta história?

  1. O que esperar de uma resenha que já começa citando Hamilton? Hahaha Esse livro está na minha lista. Eu li o artigo da Solnit sobre o mito do monstro da arte (que acho que você mesma me recomendou) e achei muito interessante.

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