[Com Pipoca] Da Rússia, com amor

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Capa_da_russia_com_amor_007.inddSinopse:

A SMERSH, agência letal de contraespionagem a serviço dos soviéticos, monta um plano audacioso para difamar e matar o mais importante agente do MI6, o serviço secreto britânico. Para isso, contarão com a frieza de um assassino irlandês e a beleza e ingenuidade de uma jovem espiã russa, Tatiana Romanova, ambos sob ordens da temida coronel Rosa Klebb. Da Turquia aos recantos mais sombrios por trás da cortina de ferro, no clássico Da Rússia, com amor, Ian Fleming traz o mais famoso agente secreto britânico em meio ao célebre conflito entre ocidente e oriente que marcou o pós-guerra.

Fonte: Objetiva

James Bond está prestes a embarcar no Expresso do Oriente. Ele lê a placa com os destinos do trem: Istanbul, Thessaloniki, Venezia… “As cidades todas estavam grafadas na língua original, exceto MILAN. Por que não MILANO?” Eis que descubro que James Bond é um revisor chato. Acrescente a isso o fato de que também é paranoico e pula para as piores conclusões possíveis, e o resultado é que nós temos mais em comum do que eu suspeitava.

Essa foi apenas uma entre as várias surpresas agradáveis que tive ao ler este livro, meu primeiro de 007. Já fiquei espantada pelo fato de o nosso herói só aparecer depois de umas cem páginas – uma decisão narrativa que acaba funcionando muito bem.

O livro é dividido em duas partes: a primeira, “O plano”, mostra as maquinações do Serviço Secreto soviético, que quer atingir a Inteligência britânica de alguma forma e decide assassinar Bond. Somos apresentados a Grant, o carrasco-chefe da SMERSH, a agência de contraespionagem; à coronel Klebb, uma mulher implacável; a Kronsteen, o mestre que arquiteta o plano; e a Tatiana Romanova – uma cabo escolhida por sua beleza para seduzir Bond e levá-lo para sua morte, causando uma derrota vergonhosa e escandalosa para os britânicos.

A segunda parte, “A execução”, é quando tudo isso é posto em prática. Encontramos 007 extremamente entediado – e “o tédio, especialmente a situação incrível de se acordar entediado, era o único vício que Bond desprezava por completo”. Assim, quando o chefe M lhe chama e diz que há uma espiã russa apaixonada por ele, e que está disposta a lhe entregar uma máquina decodificadora soviética contanto que ele a leve para a Inglaterra, ele fica intrigado. Todos concordam que parece uma armadilha, mas ninguém consegue adivinhar seu propósito. E, assim, a ambição do Serviço Secreto e o tédio e a vaidade de Bond o levam para Istambul para encontrar a misteriosa Tatiana.

Bond é ajudado por Darko Kerim, o chefe da Inteligência na Turquia, um homem um pouco brusco, extrovertido, um tanto racista e bastante machista, pelo qual o agente sente uma amizade genuína. Tatiana também é interessante: um tanto inocente e sonhadora, ela não sabe que o plano é matar Bond, e acredita que sua missão tem outra meta. Gostei muito das interações deles: ambos tentam não se apegar e manter a mente em suas respectivas missões, mas isso não dura muito tempo. Aliás, estava esperando um nível bem mais alto de sexismo, mas, apesar da fama de mulherengo, Bond só tem elogios para as mulheres à sua volta e sinceramente gosta da moça. Claro que Tatiana é um pouco a “donzela em perigo”, mas não é estúpida – pelo menos, não mais do que ele, que também se deixa levar pelas tramoias soviéticas.

Bond foi um protagonista melhor do que o esperado. Um homem de poucas palavras, ouve mais do que fala e, embora goste de Kerim, em nenhum momento mostra concordar com as opiniões do outro homem. Ele é esperto e analítico, além de disposto a reconhecer sua própria burrice. Tenta não se perder completamente em sonhos românticos, e falha um pouco. Achei-o bastante genuíno, na verdade; um pouco cínico, mas ainda disposto a se abrir com pessoas selecionadas, e com um instinto de proteger as pessoas ao seu redor, conhecendo-as ou não. Não que o livro seja muito introspectivo, mas aborda seus pensamentos o suficiente para ele não ser apenas uma caricatura.

Graças àquela primeira parte, o leitor entra na história tendo uma ideia geral do que vem por aí – mas sem saber detalhes pormenorizados, o que ajuda a manter a tensão ao longo do resto do livro, que fica cada vez mais emocionante (o começo é um tanto parado). Aliás, parabéns ao autor por me deixar realmente preocupada com Bond, embora obviamente ele fosse se safar de o que quer que acontecesse. O final é tenso – sem dar spoilers, só digo que, se tivesse lido o livro em 1957, teria ido atrás de Fleming para pedir satisfações.

A prosa é bem descritiva, mas, embora já tenha lido livros em que isso me incomodou (a trilogia Millenium é um exemplo), achei que esse tipo de narração funcionou bem aqui. Ian Fleming tem um olhar bastante cinematográfico, e evoca as cenas tão bem a partir de detalhes visuais, auditivos ou aromáticos que você consegue imaginá-las perfeitamente. As descrições dos personagens são bastante vívidas, e os diálogos são excelentes – alguns momentos me fizeram rir alto. As reuniões dos soviéticos e suas politicagens são especialmente divertidas.

Como se sabe, Ian Fleming de fato trabalhou para a Inteligência britânica durante a Segunda Guerra, de onde veio a inspiração e o conhecimento para escrever seus romances de espionagem. Na verdade, a introdução a este livro afirma, de modo um tanto quanto sensacionalista, que as pessoas e locais mencionados do Serviço Secreto soviético são reais (me parece que, se fossem mesmo, o autor teria ganhado um belo tiro na testa). De qualquer modo, é um daqueles detalhes extraliterários que dão um gostinho a mais para a leitura.

Cronologicamente, este não é o primeiro livro de 007, mas acredito que (como os filmes) você possa lê-los em qualquer ordem. Foi uma leitura rápida, emocionante e divertida, e me deixou com vontade de ler os outros. Super recomendado!

Livro x Filme

Moscou contra 007 (dir. Terence Young, 1953, 115 min.)

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A maior diferença entre livro e a adaptação de 1963 é que o filme complica a trama um pouco mais – em vez de um plano dos soviéticos, a história é toda arranjada por uma terceira organização, a SPECTRE, que quer jogar britânicos e soviéticos uns contra os outros. O filme também acrescenta algumas cenas de ação que não existem no livro (incluindo uma na basílica de Santa Sofia, em Istambul, só porque estavam lá, imagino), mas elas funcionam bem e se encaixam no espírito do livro, embora o longa tenha deixado os britânicos um pouco mais espertos do que eles eram no livro. Fora isso, a adaptação segue a trama de Fleming.

Infelizmente, o filme também acrescenta vários momentos sexistas que não estão no livro, tornando Bond muito mais canalha (e violento) do que ele é na obra. Além disso, enquanto no livro ele hesita em matar a sangue-frio, no filme ele não tem esse tipo de ressalva moral. De modo geral, o Bond do livro é bem mais complexo.

Quanto aos atores: nunca tinha visto Sean Connery como Bond, mas agora entendo por que muita gente diz que ele é o Bond perfeito. Gostei bastante da atriz que faz Tatiana, mas o destaque fica para Moneypenny, a secretária de Bond, que está exatamente como a imaginei: sarcástica e inteligente. Grant, o assassino, também segue exatamente sua descrição no livro. Só não achei Kerim muito impressionante; no livro ele tem uma presença mais impactante.

Em resumo, o filme é bem divertido e visualmente bonito, mas a motivação de alguns personagens se perde na tela (especialmente Tatiana, que se reduz à “donzela em perigo”). Apesar disso, não é um daqueles casos em que a adaptação “estraga” o livro, acho que eles se complementam bem. Quem ler o livro deve se divertir vendo as semelhanças e diferenças entre os dois.

*

Da Rússia, com amor
Autor: Ian Fleming
Tradutor: Roberto Grey
Editora: Alfaguara
Ano de publicação: 1957
Ano desta edição: 2013
264 páginas

Citações preferidas

Kronsteen não se interessava pelos seres humanos – nem sequer pelos filhos. Nem as categorias de “bom” e de “mau” pertenciam a seu vocabulário. Para ele todas as pessoas eram peças de xadrez. Só se interessava pelas reações que elas tinham aos movimentos das demais peças.

*

No âmago de Bond existia um abrigo de furação, o tipo de refúgio que se encontrava em casas antigas nos trópicos. Esses abrigos são pequenas celas construídas de modo resistente no centro das casas, no meio do térreo e às vezes escavadas entre as fundações. […] Bond só se recolhia ao seu abrigo de furação quando a situação escapava do controle e não havia alternativa possível. Mas agora ele se recolheu a este refúgio.

*

“Darko”, disse Bond, “tenho um amigo francês. […] Ele me disse uma vez: ‘J’aime les sensations fortes.’ Sou como ele.”

*

Bond desviou o olhar da figura estatelada na rua, a figura de alguém que já existira e não existia mais. Teve um instante de ressentimento contra sua vida, que o fazia testemunhar coisas assim. […] Bond jamais matara a sangue-frio e não gostara de ser testemunha, nem de ter ajudado outra pessoa a fazê-lo.

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