[Resenha] Welcome to Night Vale

Welcome to Night Vale - capa - FECHAMENTO.inddSinopse:

O podcast Welcome to Night Vale conta as histórias da cidade de Night Vale, uma amistosa comunidade no meio do deserto onde todas as teorias da conspiração são reais. No formato de um programa de rádio, Cecil Palmer, locutor da rádio comunitária, informa a todos as pequenas estranhezas dessa pacata cidadezinha – onde fantasmas, anjos, alienígenas e agências governamentais misteriosas e ameaçadoras fazem parte do cotidiano dos cidadãos. Desta vez, a chegada de um homem de paletó bege faz com que as vidas de duas mulheres, cada uma com seu mistério, virem de cabeça para baixo.

Fonte: Intrínseca

Uma amistosa comunidade do deserto, onde o sol é quente, a lua é bela e misteriosas luzes atravessam o céu enquanto todos fingem dormir. Bem-vindo a Night Vale.

Este livro é baseado em um podcast de mesmo nome e de gênero inclassificável (algo entre ficção científica, humor e dadaísmo). O podcast, que começou em 2012 e já tem mais de 80 episódios, é narrado na forma de um programa de rádio de uma cidade fictícia nos Estados Unidos em que coisas muito estranhas acontecem. Em Night Vale, o parque para cães é proibido para cães, figuras encapuzadas percorrem as ruas, a Polícia Secreta do Xerife está sempre vigiando e o tempo não funciona como esperado – entre outros fatos curiosos.

Eu e a Bárbara traduzimos os primeiros 30 episódios, que você pode acompanhar pelo tumblr Night Vale em Português. E recomendo que ouça pelo menos um ou dois antes de se comprometer com o livro – não porque a obra exija que o leitor conheça o podcast, mas porque o leitor desavisado pode ficar atordoado ao entrar em um universo tão insano. Não se deve esperar que as coisas façam sentido em Night Vale – é um negócio meio como Lost, em que o importante é aproveitar a jornada (embora, ao contrário da série, Night Vale deixe isso claro desde o começo!).

O livro não segue Cecil – o radialista e narrador do podcast – embora ele apareça em interlúdios. Acompanhamos, em vez disso, a história duas mulheres: Jackie Fierro, um garota que cuida da loja de penhores da cidade e que tem 19 anos desde que consegue se lembrar, e Diane Crayton, uma mulher cuja maior preocupação é seu filho adolescente Josh, que assume qualquer forma física possível (embora o maior problema de Josh não seja esse, mas o pai que o abandonou e a relação com a mãe). O caminho das duas se cruzam quando ambas começam a se envolver num mistério envolvendo o pai de Josh e um desconhecido misterioso que aparece em Night Vale e de cujas feições ninguém consegue se lembrar. Pra quem ouve o podcast: sim, é o homem de paletó bege com a pasta de couro de veado. O livro vai desvendar quem é esse personagem e o que quer na cidade!

Os ouvintes não vão se decepcionar com o humor do livro – ri alto várias vezes com a deliciosa arbitrariedade da cidade. Também é legal ver menções a eventos do podcast (como a proibição ao trigo e seus subprodutos) e alguns personagens célebres, como os bibliotecários, a velha Josie e os anjos (que não existem, é claro).

Assim como no podcast, em que momentos de pura hilaridade e nonsense se misturam com pensamentos profundos, o livro inclui frases do tipo:

A Câmara Municipal anunciou hoje que, além de história, outras coisas também são “balela”: memória, relógios, nozes, todos os falcões (óbvio!), a maior parte da matemática avançada (trigonometria para cima) e gatos.

Assim como:

Não são os outros que nos magoam, mas o que sentimos por eles.

A obra consegue equilibrar os dois extremos do podcast muito bem, e fiquei bem impressionada com o modo como descreve as emoções dos personagens. Também fazia tempo que não lia um livro sobre duas mulheres e as duas protagonistas são personagens ótimas – enquanto os dilemas de Jackie são mais distantes da realidade (como não ter lembranças e nunca envelhecer), o drama familiar de Diane soa muito verossímil. Achei a primeira metade do livro um pouco mais lenta e confusa, mas à medida que a trama se desenrola, a história fica mais envolvente, e o final – como o podcast em seus melhores momentos – deixa o leitor refletindo.

E um detalhe bacana: em Night Vale não existe esse negócio de homofobia, porque há coisas muito mais importantes acontecendo (como nuvens brilhantes sencientes dominando a cidade etc.). Não só isso como os autores especificamente inserem representatividade na história: Cecil tem um namorado – Carlos, o cientista, que também aparece aqui – e, no caso do livro, há várias menções casuais a relacionamentos entre pessoas do mesmo gênero.

Recomendo pra quem quer ler algo muito diferente: é impossível definir Night Vale; só conhecendo para entender. Mas primeiro abra sua mente e se liberte da busca de coisas como “sentido” ou “montanhas”. Todo mundo sabe que montanhas não existem.

*

Welcome to Night Vale
Autores: Joseph Fink e Jeffrey Cranor
Tradutora: Joana Faro
Editora: Intrínseca
Ano desta edição: 2016
336 páginas

+ Night Vale em Português

 

Citações preferidas

Josh tem várias aparências. Ele muda de forma constantemente. Nesse sentido, é diferente da maioria dos garotos de sua idade. Ele acha que é muitas coisas ao mesmo tempo, várias delas contraditórias. Nesse sentido, é igual à maioria dos garotos de sua idade.

*

— Você está indo muito bem — disse Diane a Josh certa vez, sem se referir a nada específico, apenas tentando preencher um silêncio.

Então não fui bem em nenhuma das outras vezes, pensou Josh, porque não entendeu o contexto da declaração.

— Obrigado — agradeceu em voz alta, tentando preencher o silêncio com educação.

— Você ainda precisa melhorar em vários aspectos — não disse Diane.

— Sinto muito por seu pai não estar aqui — também não disse. — Mas estou me esforçando muito. De verdade, Josh. Estou mesmo — não disse ela.

*

Veja bem, a vida é estressante. Isso vale para qualquer lugar. Mas a vida em Night Vale é ainda mais. Há coisas espreitando nas sombras. Não as projeções de uma mente aflita, mas coisas literais, espreitando, literalmente, nas sombras. Conspirações escondem-se nas vitrines de todas as lojas, sob cada viela, e pairam nos helicópteros lá em cima. Nascimentos e mortes, idas e vindas, o abismo de subjetividades e desafios entre nós e todos de quem gostamos. Tudo é tristeza, como disse certa vez um homem, sem fazer nada para mudar isso.

*

Depois do intervalo, clipes exclusivos da minha recente entrevista de três horas comigo mesmo, na qual me interroguei a respeito de minhas motivações, em que ponto estou na vida, por que não estou em um ponto diferente, quem é o culpado por isso, e por que falei aquele negócio constrangedor uma vez.

*

Não existe nada mais solitário que uma ação feita em silêncio por conta própria, e nada mais reconfortante que exercer essa ação silenciosa enquanto outros humanos desempenham a mesma ação, todos sozinhos na companhia uns dos outros.

*

— Eu e Troy nos amávamos. Chamávamos de “amor incondicional”, e era mesmo. Quando surgiram condições, o amor acabou.

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