[Com Pipoca] On Stranger Tides

Esta resenha foi feita com base no e-book em inglês da Corvus. A tradução de trechos foi feita por mim.

capatidesSinopse:

1718. O marionetista John Chandagnac está a caminho da Jamaica quando seu navio é tomado por piratas. Quando lhe oferecem a escolha de unir-se à tripulação ou morrer, ele decide que uma vida de pirata é melhor do que nenhuma. Agora conhecido como Jack Shandy, o aprendiz de bucaneiro descobre que é súdito de um império caribenho liderado por Edward Thatch, mais conhecido como Barba Negra. Usuário de vodun, Barba Negra está construindo um exército de vivos e mortos para sair em busca da lendária Fonte de Juventude.

Fonte: Livraria Cultura


Piratas, magia, marionetes: tudo de que um livro precisa. On Stranger Tides, romance histórico-fantástico de 1987, tem tudo isso e muito mais. E Tim Powers é tão bom que já me fez rir com a epígrafe do livro. Isso porque ela consiste em alguns versos do poeta William Ashbless, que – talvez você se lembre – é um personagem fictício do outro romance do autor que eu li, o maravilhoso Os portais de Anúbis. Gostei tanto daquele livro que deixei este aqui na fila desde fevereiro, e finalmente resolvi lê-lo. A leitura foi tão boa quanto eu esperava (embora Os portais ainda seja imbatível!).

Pois bem: John Chandagnac, ex-marionetista, está a bordo de um navio com destino à Jamaica, onde pretende confrontar um tio sobre uma questão de herança (sobre a qual não vou entrar em detalhes, pois é um ponto importante da trama). Em alto-mar, John entabula uma conversa com uma jovem chamada Beth Hurwood, filha de um famoso professor, que também está no navio. Mas ele mal tem tempo de se surpreender com o encontro fortuito antes que o navio seja abordado por piratas – que recebem a ajuda de ninguém menos que o pai de Beth e de seu suposto médico, um homem chamado Leo Friend.

John, atordoado com a reviravolta, ataca o capitão dos piratas, Phil Davies – e consegue ferir o ótimo espadachim graças a memória uma corporal: ele está acostumado a retratar lutas de espadas com marionetes (há!). Davies acaba dando-lhe uma oferta: juntar-se à tripulação ou ser morto imediatamente. Sem grandes opções, John – doravante chamado de “Jack Shandy”, mais pirático e fácil de pronunciar – se transforma em aprendiz de bucaneiro. Então descobre que Davies está a caminho de um encontro com Ed Thatch – vulgo Barba Negra – por motivos conhecidos apenas pelo famoso pirata e por Hurwood e Friend.

Ao longo da convivência com os piratas, Shandy não apenas se torna o cozinheiro oficial da tripulação como vai revendo seus conceitos sobre a realidade. No Caribe, a magia é rotineira: todos acreditam nos loas, espíritos do vodun, e todo navio tem o seu bokor para protegê-lo. Inicialmente cético, Shandy não demora muito a acreditar na magia – ainda mais quando conhece o poderoso Barba Negra e descobre a missão do pirata: encontrar a lendária Fonte da Juventude. Jack também vai intuindo os propósitos do pirado Hurwood e do ainda-mais-pirado Friend, que envolvem a pobre Beth. Ao mesmo tempo, estreita uma amizade com o capitão Davies, e os dois se envolvem nos rolês loucos que os usuários de vodun têm planejados.

O livro é dividido em três partes e, embora seja relativamente curto, muita coisa acontece – a própria ida à Fonte (um passeio tensíssimo) já ocorre na primeira parte, e as outras duas estão cheias de aventuras, como batalhas navais (incluindo, mas não limitadas a, navios fantasmas). O livro é narrado em terceira pessoa principalmente pelo ponto de vista de Shandy, mas também passa pelos antagonistas – mostrando seus objetivos, planos e, por vezes, a origem de suas perturbações.

E eles são muito perturbados. Da mesma forma que, em Os portais de Anúbis, Powers conseguiu criar um clima assustador com seus personagens excêntricos e deturpados, neste livro os objetivos de Hurwood e Friend fazem Barba Negra parecer um cara joinha. No fim, os três homens têm planos horripilantes para Beth – mas, enquanto o do pirata é pautado em motivos lógicos, Hurwood pretende sacrificar a própria filha por motivos pessoais, e Friend é um dos antagonistas mais medonhos sobre o qual li nos últimos tempos – um sociopata que quer nada menos do que se tornar um deus:

Pois afinal, não era o que ele podia tomar que tornava a magia maravilhosa, mas a tomada, a violação da vontade de outra pessoa, a posse da melhor jogada, a percepção de sua própria vontade manchando a paisagem em todas as direções […]. Ele podia forçar as pessoas a fazer o que queria, mas não podia forçá-las a querer fazê-lo. E enquanto houvesse o mais leve tremor de protesto ou revolta na mente das pessoas que ele usava, então sua dominação delas, sua absorção delas, não seria absoluta. Ele precisava que fosse absoluta…

Aliás, embora Beth seja a única mulher importante da história e tenha um papel de vítima pela maior parte dela (mesmo que mostrando sinais de autonomia e coragem), a narrativa deixa muito claro que as ações de todos esses homens são violações terríveis e execráveis. E, como um contraponto, temos a figura de Jack Shandy, que se apaixona pela mulher e tenta repetidamente salvá-la desses homens muito mais poderosos que ele.

Eu adorei Shandy. Ele tem ecos do Doyle de Os portais, no sentido de ser um cara normal que se encontra envolvido com uma magia que não entende bem, mas que vai aprendendo – até passar de um acompanhante passivo a um protagonista que toma iniciativa. Há arrependimentos e dores em seu passado que o tornam tridimensional, e achei fascinante a conexão que ele encontra com o Novo Mundo e o modo como se adapta à vida de pirataria, mesmo sendo um cara extremamente nobre. É essa nobreza de caráter que surpreende o capitão Davies e faz os dois se tornarem amigos, criando um dos relacionamentos mais legais do livro. E é a honestidade de Shandy que, inadvertidamente, o faz ganhar a confiança da tripulação, numa reviravolta cheia de mal-entendidos sobre a qual não darei spoilers. Também gosto dos personagens de Powers porque sentem medo: Shandy fica absolutamente apavorado em diversas situações e certamente fugiria delas se pudesse. O protagonista parece muito mais palpável por isso.

A magia do livro começa bem difusa, sem regras certas, e é possível que o leitor fique um pouco confuso com os termos desconhecidos que aparecem: mas essa confusão espelha a de Shandy, e à medida que o personagem vai se situando, as regras do jogo vão ficando mais claras. Ao final do livro, já temos uma noção do que pode ser feito ou não e por quê. É uma magia focada em lugares especiais do planeta, e as forças sobrenaturais que os personagens resolvem cutucar chegam a ser bem assustadoras. Mas Powers consegue contrapor essa tensão a momentos engraçados. Seu humor sutil se baseia nos personagens e suas idiossincrasias, assim como em situações insólitas, e é uma delícia de ler.

A trama em si é um emaranhado de pontas soltas que se juntam perfeitamente ao final, bem ao estilo d’Os portais. E, para complementar, a história se passa sobre o pano de fundo da era da pirataria no Caribe, e faz menção a fatos e personagens históricos: os planos de Barba Negra, por exemplo, estão ligados a ações coloniais britânicas para reprimir a ação dos piratas, como o perdão real oferecido pelo governador Woodes Rogers nas Bahamas. O cenário e os aspectos navais são muito bem descritos (ampliei consideravelmente meu vocabulário em inglês de partes de navios!). Resumindo: é uma leitura rápida, cheia de aventura, magia, mistério, piratas, navios fantasmas, vilões perturbados, e um romance fofo pra completar. Tá esperando o quê pra ler Tim Powers?

Livro x Filme

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O quarto filme de Piratas do Caribe adotou: o título do livro, e… não, só o título mesmo. Fora isso, a única relação com o romance é a meta de Barba Negra (atingir a Fonte de Juventude) e uma única frase que o pirata diz no livro: “Se eu não atirar em alguém de vez em quando, as pessoas esquecem quem eu sou”. Todo o resto é pura invenção da Disney (e não tinha como ser diferente, afinal, esse é um filme de Jack Sparrow. E nem é um filme de Jack Sparrow muito bom. Há sereias no meio!). Basicamente, fiquei bem confusa com por quê resolveram adotar o título do livro.

*

On Stranger Tides
Autor: Tim Powers
Editora: Corvus
Ano de publicação: 1987
E-book

Citações preferidas

O corpo de Chaworth, claramente morto, deslizava livremente para a frente e para trás sob o sol à medida que o navio se movia, e uma mão estendida virava de um lado para o outro, palma para cima, então para baixo, num gesto estranhamente filosófico. Tudo vem e vai, o movimento parecia indicar; o bem e o mal, a vida e a morte, a alegria e o horror, e nada deveria nos surpreender.

*

“E […]”, disse Davies, “pode ser que todos esses reis e mercadores do outro lado do Atlântico estejam prestes a ver o fim de seu envolvimento com essas novas terras. Para eles, a Europa e a Ásia são o tabuleiro que importa; eles não conseguem ver esse novo mundo exceto em termos de dois propósitos: como uma fonte de lucro rápido e imprudente, e como um depósito de criminosos. Pode ser uma… colheita surpreendente, a que venha dessa aragem e semeadura, e Rogers pode descobrir ao chegar que nenhum de nós precisa, nem poderia se beneficiar, do perdão de um homem que governa uma ilhazinha fria do outro lado do mundo.”

*

Fora um dia em julho, durante a equipagem do Carmichael; Beth tinha lhe mostrado como construir um abrigo mais estável, e houve um momento em que, ao ficar na ponta dos pés para enrolar o barbante sobre o topo de uma das varas, ela tinha caído contra ele, e por um momento estivera em seus braços, e seus olhos castanhos e cabelo acobreado o deixaram atordoado com uma emoção que incluía atração física só na medida em que uma orquestra incluía uma seção de sopro. Era uma lembrança que frequentemente aparecia em seus sonhos.

*

“Você se lembra de Ló?”

“Perdão?”

“Ló – o camarada com a mulher feita de sal.”

“Ah, esse Ló.” Shandy assentiu. “Claro.”

“Lembra quando Yahweh foi à casa dele?”

Shandy franziu a testa em concentração. “Não.”

“Bem, Yahweh disse pra ele que ia amassar a cidade, porque eram todos um bando de bastardos. Então Ló diz, espera aí, se eu achar dez rapazes decentes você deixa a cidade em paz? Yahweh bufa um pouco, mas finalmente concorda que, tudo bem, se houver dez homens bons ele não vai despedaçar o lugar. Daí Ló, que era esperto, sabe, diz: bem, e se eu achar três? Yahweh levanta e dá uma andada, pensando sobre isso, então diz, tudo bem, aceito três. Então Ló diz: e só um? Yahweh está todo confuso a essa altura, porque estava animado para destruir a cidade, mas finalmente diz: tudo bem, um homem decente que seja. E então é claro que Ló não conseguiu achar nem um, e Yahweh pôde tacar fogo na cidade de qualquer jeito.” Davies acenou para os homens no barco, um gesto que conseguiu abarcar o Charmichael também, e a ilha de Nova Providência, e talvez todo o Caribe. “Nunca, Jack, nunca cometa o erro de pensar que ele encontraria um entre esses homens.”

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