[Resenha] Os portais de Anúbis

Esta resenha foi feita com base no e-book em inglês da Orion.

anubisSinopse:

Este romance clássico de viagem no tempo conquistou o mundo da fantasia 30 anos atrás. Só a imaginação deslumbrante de Tim Powers poderia ter reunido um elenco tão insano de personagens: um antigo mago egípcio, um milionário moderno, um lobisomem que troca de corpo, um palhaço horrivelmente deformado, uma jovem mulher disfarçada de garoto, um lorde Byron que sofreu lavagem cerebral e, finalmente, nosso herói, o professor Brendan Doyle.

Fonte: Livraria Cultura

 

Você já leu um livro que te fez parar no meio da leitura para gritar com os céus: “Meu Deus, que livro fantástico!”? Sintoma de insanidade ou não, foi o que fiz diversas vezes durante a leitura de Os portais de Anúbis. Meu primeiro instinto foi fazer a resenha toda em capslock, mas a Bárbara me proibiu. Então só deixo a recomendação: FÃS DE FANTASIA, PAREM O QUE ESTÃO FAZENDO E VÃO ATRÁS DESTE LIVRO.

A obra é de 1982 e merecidamente ganhou vários prêmios, sendo também considerada um dos precursores do gênero steampunk. O prólogo nos leva a um acampamento de ciganos em 1802, onde dois servos de um mago egípcio – Amenophis Fikee e o Doutor Romany – estão tentando realizar uma complexa magia que trará o deus Anúbis de volta. Eles falham e Fikee foge, mas alguma coisa acontece.

Capítulo 1: o ano é 1983, e o professor de literatura Brendan Doyle foi chamado por um magnata da indústria, J. Cochran Darrow, para um encontro urgente. Quando Brendan vai encontrar o velho, este – depois de testar seus conhecimentos sobre o século XIX – lhe revela que, após anos de pesquisa, descobriu lugares e momentos no mundo que são “janelas” para outras épocas, pontos específicos no “rio do tempo”. Só é possível entrar e sair do “rio” por essas janelas. Embora nem Darrow nem Brendan percebam, fica claro que esses pontos foram uma consequência não prevista do feitiço de 1802.

E o que Darrow vai fazer na primeira janela, que se abre para 1810? Ele levará dez convidados para assistir a uma palestra do poeta inglês Coleridge em Londres. Parece aleatório? Tudo se explica mais pra frente; por enquanto, o que interessa é que Doyle é um especialista em Coleridge, e foi chamado para fazer parte da “comitiva”, como um guia. Essa parte da missão dá certo, mas então começam as tribulações de Doyle quando ele é sequestrado pelo Doutor Romany, que quer saber como raios essas pessoas estão cientes das janelas no tempo.

Nem vou tentar descrever o que acontece em seguida. A versão impressa do livro, em inglês, tem 464 páginas, e o ritmo da história é alucinante. Doyle, aliás, se encontra em apuros pela maior parte dela. Sabe aquele clichê de que há coisas piores que a morte? Pois é, ele experimenta várias.

Entre os muitos personagens que cruzam com Doyle ao longo do livro, temos: Horrabin, um palhaço deformado e assustador, chefe de uma gangue de bandidos/pedintes em Londres, além de vários de seus capangas; Jack Copenhagen, chefe de outro grupo parecido, e Jacky, um garoto que trabalha para ele; “Joe Cara-de-Cão”, um assassino considerado um lobisomem por trocar de corpo com as vítimas e descartar os novos corpos toda semana, uma vez que eles se tornam peludos; a Irmandade de Antaeus, cujo objetivo é lutar contra o uso de magia; lorde Byron (mais especificamente, seu ka – algo como um clone criado por magia); o próprio Coleridge, e mais uma série de pessoas. Doyle também descobre o segredo sobre um poeta obscuro, William Ashbless, cuja biografia estava tentando escrever em 1983 – e que se prova essencial para a trama.

Doyle é um protagonista fantástico. No começo fiquei surpresa pelo fato de ele aceitar tão rápido ter ficado preso em 1810, mas logo percebi que essa é uma das características do personagem: ele se resigna, de forma meio irônica, a tudo o que lhe acontece, e já pensa na situação de modo prático, mesmo que esteja com medo. Doyle é um homem de meia-idade, e assistir a sua transformação de pacato professor de literatura a herói da história é extremamente satisfatório. Ele é inteligente, perseverante ao ponto de ser teimoso, e os problemas em que se encontra raramente são culpa sua: afinal, está numa época diferente sendo perseguido por criminosos e magos. Por outro lado, pensa logicamente e usa seu conhecimento do futuro a seu favor. Tudo isso, associado a um evento trágico no seu passado, fez com que eu logo me importasse com ele.

Outro destaque são os antagonistas, principalmente Horrabin e Romany. Ambos são verdadeiramente assustadores, e de modo original – Horrabin, por exemplo, costumava fazer “experimentos” com pessoas. Os experimentos falhos podem ser encontrados no subterrâneo de Londres, e são mais lovecraftianos do que o próprio Lovecraft. Aliás, partes do livro exploram o grotesco e são puro terror, descritas com uma maestria que faz o leitor realmente temer pelos personagens.

Um último comentário sobre os personagens (spoilers!): o autor inverte a trope “namorada do cara é assassinada e ele sai em busca de vingança”. Pontos pra ele.

Apesar dos personagens legais, o que mais impressionou foi a trama. Você acha que sabe o que é trama? Sabe de nada, inocente. Às vezes leio fantasia e vejo como o autor pode ter chegado a certo resultado, mas neste caso não tenho ideia de como alguém conseguiu inventar uma história dessas. Foi o uso mais insano de viagem no tempo que já encontrei: todos os pedaços se encaixam e, melhor ainda, o leitor consegue ver os pedaços se encaixando um segundo antes dos personagens, o que é extremamente difícil para o autor e muito satisfatório pra quem está lendo. Embora eu tenha adivinhado uma das revelações antes da hora, outras me pegaram inteiramente de surpresa, e o ritmo dos acontecimentos vai ficando simplesmente delirante.

A narrativa é em terceira pessoa, passando pela mente dos antagonistas e vários personagens secundários. Personagens novos são introduzidos até o final do livro, embora a maior parte da obra se foque em Doyle. O maior triunfo da narrativa é combinar elementos díspares de modo bem fluido: tragédia, horror, humor, aventura, ironia… tudo num equilíbrio perfeito, de alguma forma mantendo o tom da obra coerente.

E destaque também para as descrições: talvez cansem o leitor que goste de ler sem parar, mas formam um retrato fantástico da Londres do início do século XIX (assim como do Egito, para onde alguns personagens vão por motivos que não revelarei!). Os personagens históricos são inseridos com propósito e proporcionam alguns dos momentos mais hilários da narrativa, especialmente devido ao fato de Doyle conhecer tudo sobre a vida deles.

E o final? Mais perfeito, impossível. As surpresas continuam até a última página, e me emocionei bastante com o destino de Doyle.

Há alguns pontos negativos, claro: o livro é tão grande e são tantos personagens que às vezes eu me esquecia de alguns secundários que retornavam em outros pontos da história; há uma mensagem escrita numa língua desconhecida que nunca é revelada (embora o significado seja fácil de achar na internet); e às vezes eu queria que algumas cenas terminassem mais rápido, mas isso é parcialmente culpa minha por ter praticamente feito uma maratona de leitura no Carnaval. Também vale mencionar que a magia no livro é bem vaga e não tem uma explicação “lógica” – afinal, baseia-se na existência dos deuses egípcios. Você só tem que aceitar essa parte. Mas nada disso me impediria de te parar na rua pra recomendar o livro fortemente.

Há uma edição em português de 1995 da – pasmem – editora 34, que está esgotada. Mas dá pra achar em sebos (Estante Virtual/Livronauta). Se você lê em inglês, é bem mais fácil: na Kobo o original está R$ 19,90, e vale cada centavo – e você pode encomendar a edição impressa na língua original pela Livraria Cultura. A linguagem é bem elaborada, especialmente nas descrições, mas se você costuma ler em inglês não deve encontrar muitos problemas.

Independentemente de suporte ou língua, simplesmente leia esse livro. Sério. Você não vai se arrepender.

*

The Anubis Gates [e-book]
Autor: Tim Powers
Editora: Orion
Data de publicação: 1982
Data desta edição: 2010

12 respostas em “[Resenha] Os portais de Anúbis

    • Oiii Babi! Que bom que vc gostou! Olha, nos sebos parece estar baratinho. Tô até pensando em até comprar um exemplar pra mim, pq o e-book não é suficiente pra todo o amor que tenho por esse livro. Obrigada pela visita 🙂

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  2. Isa! Passando pra dizer que conheci o blog um dia desses e passei uma madrugada lendo resenhas e adicionando títulos à minha lista de leitura! Achei muitos em e-book, mas esse daqui não existia – acabei comprando meu exemplar na Estante Virtual mesmo. Ansiosa pra ler, quando eu terminar volto aqui pra contar!! Parabéns pelo blog, obrigada pela indicação indireta, e beijo!

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