[Resenha] Cassandra

capacassSinopse:

Prisioneira de Agamenon frente aos portões de Micenas, Cassandra só tem algumas horas de vida antes que os guardas de Clitemnestra cheguem para levá-la. Começa, então, a repassar o que foi sua vida e seu destino. O monólogo criado pela escritora alemã Christa Wolf coloca em cena os conflitos interiores vividos por esta bela dramática personagem, figura mitológica da Guerra de Troia. Após a narrativa, a autora apresenta quatro conferências, nas quais conta como a figura de Cassandra se apossou inteiramente de sua mente e do seu dia a dia.

Fonte: Livraria Cultura

Na mitologia grega, Cassandra era uma das filhas do rei Príamo de Troia e tinha o poder da profecia, mas foi amaldiçoada pelo deus Apolo: ninguém jamais acreditaria em suas previsões. Quando Troia cai nas mãos dos aqueus, ela é levada por Agamêmnon para Micenas. Lá, a esposa de Agamêmnon (que o odiava por ter sacrificado a filha deles antes da guerra) assassina o marido e a profetisa.

Era isso que eu conhecia sobre essa figura. Sabendo que eu adoro tudo relacionado aos gregos antigos, a Gi descobriu e me presenteou este livro de Christa Wolf. Além da história em si – um relato dos acontecimentos da guerra de Troia em primeira pessoa por Cassandra, enquanto relembra os acontecimentos a poucos momentos da própria morte, prevista por ela –, a edição inclui quatro conferências da autora que abordam a pesquisa que empreendeu sobre a personagem e outros tópicos relacionados.

A narrativa de Cassandra ocupa cerca de 140 páginas em um fluxo de consciência que começa em frente à famosa “porta dos leões” da cidadela de Micenas, quando a personagem sabe que está prestes a ser assassinada. Eu li toda essa parte de uma sentada só: é muito difícil parar uma vez que você entra no discurso fragmentado e cheio de urgência da profetisa, que sabe que está prestes a morrer e está desesperada para reviver os acontecimentos e tentar entender as coisas. Com idas e vindas temporais que fazem o leitor demorar algumas páginas para se situar, Cassandra fala sobre a guerra e seus antecedentes. E a guerra que narra é muito diferente daquela de que leitores de Homero se recordarão: a autora realiza uma releitura dos eventos que muda diversos fatos canônicos (inclusive um que não mencionarei por ser um ponto-chave, mas que é bem interessante e original).

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Micenas, a cidade de Agamêmnon! Ela dominaria o período entre 1600 e 1100 a.C. ─ justamente chamado de micênico. Existem fotos mais bonitas por aí, mas estas do post foram tiradas por mim num dia chuvoso e memorável, então gosto delas!

A questão da obra (o que fica claro na leitura da história e ainda mais quando se lê as conferências) é que esta é uma leitura feminina de uma das histórias fundadoras de toda a cultura ocidental. Cassandra deseja fazer o seu relato sobre os eventos, “um minúsculo regato” ao lado do “rio das epopeias” que serão cantadas sobre eles. E esse regato é uma história de mulheres, contada por uma mulher e com a presença de muitas outras, em que os homens – aqueles heróis nossos conhecidos – aparecem majoritariamente como seres brutais, estúpidos, gananciosos e/ou egoístas. Enéias e Heitor são exceções até certo ponto, enquanto o pai de Enéias, Anquises, é a maior dela: ele faz parte da sociedade feminina que surge no meio da desgraça e é como um porto seguro para a protagonista. E uma figura certamente mais paterna que o próprio pai de Cassandra, Príamo, que chega a encarcerá-la por discordar dos planos de usar a irmã como isca para matar Aquiles. Outro antagonista é Eumelo, um soldado que cria uma espécie de facção própria em Troia e se aproveita da guerra para controlar a política da cidade e submeter o rei ao seu controle.

Mas o principal inimigo e foco de ódio da narradora é Aquiles, que ela chama constantemente de “Aquiles, o animal”. E, de fato, o Aquiles de Christa Wolf é nada menos do que um monstro sem piedade, cometendo atos violentos e doentios. Tenho que admitir esse foi o aspecto do livro que mais desagradou, porque, como talvez vocês saibam, eu gosto muito de Aquiles ─ e achei esse retrato do personagem bastante exagerado, considerando o que sabemos dele. Ele é violento, claro, mas não horrível (especialmente com as mulheres) como Wolf o descreve.

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A porta dos leões e as pedras “ciclópicas” (os gregos mais tardios achavam que ciclopes tinham construído a cidade, de tão impressionante!), em frente à qual Cassandra começa seu monólogo.

De todo modo, Wolf cria uma protagonista complexa, com motivações às vezes secretas para si mesma, que passou por sofrimentos inimagináveis ao longo dos dez anos da guerra e tinha relações complicadas com a família e o mundo ao redor. Cassandra, que diz ter desejado o dom da profecia, viveria para se arrepender dele – mas não é apenas seu dom que a aparta de todos os outros ao seu redor. A personagem parece ter dificuldade em encontrar seu lugar no mundo, e demora para entender a realidade fora dos confins do palácio em que foi criada. A filha preferida de seu pai, torna-se profetisa no lugar da irmã, criando uma barreira instransponível entre elas; é perdidamente apaixonada por Eneias (aquele que fugiria para fundar Roma), embora se relacione com outras pessoas; e tem uma relação difícil com a mãe e a ama. Essa complexidade da personagem e a visão feminina de uma história essencialmente masculina faz a leitura valer muito a pena ─ assim como a belíssima prosa de Wolf. Foi difícil escolher poucas citações; o texto inteiro é maravilhoso, envolvente e instigante. (E, embora eu não fale alemão, ouso dizer que a tradução está impecável.)

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Tumbas reais, vistas lá de cima. Pena que a neblina escondeu o horizonte…

Quanto às conferências, são ainda mais instigantes. Na verdade, são um tipo de diário escrito durante e depois de uma viagem da autora à Grécia, durante o período de germinação desta história. Wolf, estudiosa de história antiga e do papel da mulher nela, fica um tanto obcecada com a figura de Cassandra. Acha-a fascinante e tenta entendê-la, o que a leva a questionar uma realidade maior: “Por que ela escolheu uma profissão masculina, ao seguir a formação de profetisa? Por que desejava ser como um homem? Será que o ofício de profeta era masculino, de fato? Desde sempre? Ou desde quando? E são estas as perguntas que realmente podem libertar Cassandra do mito e da literatura?”. Nesse processo, ela tenta entender não só a personagem, mas a literatura antiga e a moderna, o que é uma literatura feminina e por que ela existe, entre outras questões, completando suas divagações com citações do teatro grego e de obras teóricas sobre antropologia e história. É interessante ver como ela reconhece que sua pesquisa e suas interpretações da antiguidade têm um viés feminista ─ assim como todas as leituras do passado são feitas a partir de algum ponto de vista. Isso não invalida, no entanto, sua leitura da personagem, sendo apenas um reconhecimento do que interessa a ela.

Wolf também apresenta suas impressões sobre a Grécia moderna ─ que visitou em 1980, incluindo a ilha de Creta e Micenas ─ e sobre a situação do mundo em plena Guerra Fria (ela vivia na Alemanha Oriental). Era uma época de tensão, em que a ameaça nuclear era extremamente vívida. Embora alguns trechos sejam um pouco cansativos, gostei de ler sobre o período pelos olhos de alguém que o estava vivendo (e que não sabia que o mundo não ia acabar, como nós, trinta anos depois, sabemos). Mais legal ainda é como Wolf estabelece uma miríade de conexões entre a antiguidade e a sua realidade, deixando evidente a relevância do estudo do passado. Para mim, que adoro a literatura grega e visitei alguns dos mesmos lugares que a autora, a leitura foi um grande diálogo louco ao longo do tempo e do espaço. E as considerações sobre o papel da mulher nas sociedades antigas e sua perda posterior de autonomia me deixaram com vontade de pegar uns textos de antropologia e investigar mais o assunto.

É uma obra interessante em muitos níveis ─ fãs dos épicos homéricos e da antiguidade clássica, assim como leitores e leitoras interessados em autoras feministas: considerem lê-la.

*

Cassandra
Autora: Christa Wolf
Tradutora: Marijane Vieira Lisboa
Editora: Estação Liberdade
Ano de publicação: 1983
Ano desta edição: 2007
312 páginas

 

Citações preferidas

Com esta narrativa, caminho para a morte.

Aqui chego ao fim, impotente. E nada, nada que fizesse ou deixasse de fazer, que quisesse ou pensasse, teria me conduzido a outro destino. Mais forte que qualquer outra emoção, mais forte mesmo que meu medo, me impregna, me corrói e me envenena a indiferença dos deuses a nosso respeito, os mortais.

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Faço a prova da dor. Como o médico que pinça um músculo para saber se está anestesiado, pinço minha memória.

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Agora necessito daquilo que durante toda a minha vida exercitei: vencer meus sentimentos através do pensamento. Antes o amor, agora o medo.

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Durante todo o inverno me mantive indiferente e mergulhada no silêncio. Já que não podia falar o essencial, não me ocorria mais nada a dizer.

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Coisas assim importantes, sobre nós, nunca se saberão. As tabuletas de argila dos escribas, endurecidas pelas chamas de Troia, preservarão a contabilidade do palácio, cereais, ânforas, armas, prisioneiros. Mas não existem sinais para a dor, a felicidade e o amor. E isso me parece uma desgraça encomendada.

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Na manhã seguinte […], comecei a ler a Oresteia de Ésquilo. […] Eu acreditava em cada palavra de Cassandra, ainda me era possível experimentar uma confiança incondicional na personagem. Três mil anos se dissolviam. (Primeira conferência)

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[…] nossas viagens de um lado para o outro apontam para uma curiosidade, uma falta. De quê? O que nos falta? Que estamos buscando, nós que viemos de direções tão diferentes, neste lugar isolado, nesta ilha? Que significa essa paixão para mergulhar numa cultura desaparecida há mais de dois mil anos […]? (Segunda conferência)

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Aprender a ler um mito é uma arte à parte. Essa arte pressupõe uma transformação paulatina, uma disposição para aceitar as ligações, aparentemente fáceis, entre fatos fantásticos, tradições adaptadas às necessidades de grupos sociais que as alimentaram, desejos e esperanças, experiências e técnicas de magia, em suma, um conceito de “realidade” totalmente diferente. (Segunda conferência)

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Compreendi que meu recurso ao passado remoto (que quase se torna uma antecipação) era também uma fuga contra essa tristeza inextinguível, a fuga para trás como uma fuga para a frente. Curiosamente, observo que a constatação de que os homens e as sociedades não avançaram quase nada nesses três mil anos, em vez de desesperança, me traz serenidade. (Segunda conferência)

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Hipótese: em Cassandra temos uma das primeiras personagens femininas cujo destino prefigura o que ocorrerá com as mulheres por três mil anos: ser transformada em objeto. (Terceira conferência)

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Em que medida existe realmente uma escrita “feminina”? Na medida em que as mulheres, por motivos históricos e biológicos, vivenciaram uma realidade diferente da dos homens. Vivenciam a realidade diferentemente dos homens e assim a expressam. Na medida em que as mulheres não fazem parte dos membros dominantes da sociedade e sim dos dominados, durante séculos existindo como objetos dos objetos, como objetos de segundo grau, frequentemente sendo objetos de homens que também são objetos, o seja, sua situação social as faz membros obrigatórios de uma segunda cultura; na medida em que abandonam a tentativa de se integrar no sistema irracional dominante. Na medida em que buscam a autonomia através da escrita e da vida. (Terceira conferência)

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Uma resposta em “[Resenha] Cassandra

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