[Especial] O que muda quando você começa a trabalhar com livros

Um post escrito coletivamente pela equipe do Sem Serifa. ❤

 

A equipe do Sem Serifa é formada 80% por editoras e 40% por escritores (e 100% por pessoas de humanas). Alguns de nós fazem parte do mundo editorial há oito anos, outros há menos tempo, e o fato é que transformar um dos seus hobbies e paixões na sua profissão tem prós e contras, e também consequências aleatórias isentas do bem e do mal.

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Em homenagem ao dia mundial do livro, vamos contar a vocês exatamente o que muda na vida de quem trabalha com livros.

 

Você ganha livros, mesmo quando não está sendo pago para lê-los

Céus, muitos livros. Alguns dias, você volta para casa com três livros novos, sem ter comprado nenhum deles. A família para de te questionar sobre onde você vai guardar tudo isso, porque você tem uma desculpa para manter todos os livros: eles são seu trabalho! Ah, sim, e nunca passa aquela alegria de saber que às vezes até te pagam para ler.

 

Você compra livros sem ninguém ficar questionando o motivo ou cobrando a leitura deles

Você pode comprar vários livros, pois tem como desculpa o fato de eles serem seu objeto de trabalho, então é ok levar mais alguns pra casa. É permitido abrir a embalagem, folheá-los e não os ler com retidão, afinal “olha esse projeto gráfico que diferente! Tenho de estar a par do que está rolando no mercado editorial, e isso inclui a forma dos livros…”. Essa desculpa é aceita 100% das vezes em que é utilizada no círculo familiar. Em dado momento eles até param de questionar o porquê de você ter comprado mais livros.

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Visitas à livraria viram estudo de mercado

Principalmente quando você vai com amigos editores, você faz coisas esquisitas como pegar livros de assuntos que nem te interessam, só para mostrar para o seu amigo e comentar a fonte, a mancha de texto, o tipo de papel, o acabamento de capa — porque, de repente, você repara nessas escolhas em todo e qualquer livro que pegar.

As livrarias também parecem um grande portfolio coletivo de todos os seus conhecidos, e você começa a abrir os livros na página de créditos, só pra ver se encontra algum amigo lá. Isso acontece every fucking time. Lembrando que não basta ver o nome dos amigos na página de créditos: tem que mostrar para os amigos que não são da área, pra sua mãe, pra pessoa que sentou ao seu lado no ônibus, pra todo mundo!

 

Você se acostuma com o fato de que ninguém conhece sua profissão

As pessoas ficam extremamente confusas com a informação de que os livros não vão sozinhos do escritor para a livraria. Então, quando alguém te pergunta qual é o seu trabalho, você já se prepara para explicar tudinho…

 

Você começa a reparar na tradução

Fica impossível não pensar nas escolhas tradutórias, seja para discordar, seja para admirar. E você ainda fica se perguntando quem decidiu traduzir aquilo daquele jeito, se foi feito na revisão, se foi escolha do editor (ou seja, você para de achar que tudo é culpa/crédito especificamente do tradutor) – e quando vê, esqueceu o que estava lendo e precisa se focar na história de novo.

 

Você revisa tudo o que posta na internet…

Rola uma leve paranoia de confiabilidade. Mesmo sendo a internet, você não quer que um erro de digitação afete sua reputação impecável (especialmente se há possíveis empregadores adicionados nas redes sociais).

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…mas para de corrigir a escrita das pessoas na internet. E na vida.

Se você é revisor/preparador, já passou o dia inteiro fazendo isso mediante pagamento. Se você é editor, já lidou o suficiente com erros alheios. Se você faz Letras, aprende que esses erros não importam nem um pouquinho, inclusive eles têm grande importância no fato de a língua ser esse objeto tão curioso e diverso que nos estimula a querer ter milhares livros.

 

 

Você começa a pirar num negócio chamado “padronização”…

Além de enxergar os erros presentes em todo e qualquer texto, você começa a notar certas “características recorrentes” dos textos. Chamamos isso de padronização e isso é muito importante. Você nota se entre título e texto pula-se linha ou não; como são os parágrafos, se tem recuo ou não; se os itens usam bullets ou traço; se certas palavras são escritas em cA ou cb (tem também todo um vocabulário ao qual você se afeiçoa e usa com qualquer pessoa!); enfim, você repara em tudo!

… e anota os erros de tudo o que lê

De repente, você começa a sofrer da maldição do revisor de texto, que não consegue pegar um único livro na mão sem encontrar erros. E anota todos eles, seja para avisar os editores, seja simplesmente para deixar o seu exemplar corrigido.

 

 

Para de achar que livros são caros…

Quando trabalha no mercado, você aprende que o livro não chega pronto no e-mail do editor. O tempo e o cuidado de muitos profissionais envolvidos na produção de um livro têm um custo e um trabalho decente custa caro. Isso também começa a afetar bastante a sua visão sobre pirataria.
“Mas não é só imprimir?”

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…e que as editoras demoram demais para lançar o próximo da série

Você também adquire uma nova paciência para esperar o “próximo volume” daquela série adorada. Embora algumas vezes a editora possa demorar um pouco demais, você aprende que há bons motivos impedindo o lançamento de um volume por mês, incluindo a negociação de contrato, o tempo de produção (vide item acima), o cronograma da editora, o planejamento de marketing, a distribuição para as livrarias…

 

Você se aflige toda vez que um livro que você ama é reeditado

Será que escolheram um tradutor bom? Será que farão um projeto gráfico digno? Vão respeitar o desejo explícito do autor de não colocar uma menina sexualizada na capa? Tantas questões!

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Você se pergunta todos os dias como raios um editor sabia que a saga Crepúsculo faria tanto sucesso

Sem questionamentos da qualidade do livro: você apenas inveja a percepção mercadológica desse indivíduo.

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Não importa quantas horas você passe trabalhando com livros, você sempre quer ler mais

E ainda acaba escrevendo sobre as leituras num blog literário  ¯\_(ツ)_/¯

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Para saber mais sobre como é a formação e o dia a dia do editor, leia o guest post que a Bárbara e a Isa escreveram para o Sobre Livros e Traduções!

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5 respostas em “[Especial] O que muda quando você começa a trabalhar com livros

  1. Muito legal compartilhar a visão de vocês com nós leitores. As partes ruins que vejo no trabalho de quem revisa e edita é ler sobre temas que não são os preferidos e ganhar livros. Sim, é espantoso mas não gostaria de ficar ganhando vários livros. Leitor apaixonado gosta de ir à livraria namorar as obras, escolher com cuidado, ser surpreendido por uma capa maravilhosa etc. 😉

    • Oi, Maria! Que bom que gostou do post! Não mencionamos, mas um dos grandes prazeres de ser editor é quando um leitor escolhe na livraria um livro que você editou. E também gostamos de fuçar as livrarias, são tantos livros que também sempre encontramos surpresas. 😉

  2. Gostei muito de ver a perspectiva de vocês que estão “do lado de lá” da leitura. E me identifiquei com a coisa de procurar nomes conhecidos na ficha técnica. Até hoje me lembro da grata surpresa de ler o nome da Bárbara na ficha técnica do “Androides sonham com ovelhas elétricas?”. Fiz questão de mostrar para alguns amigos e dizer que era uma blogueira que acompanho e que acompanhava meu falecido blog literário.

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