[Resenha] Le Chevalier e a exposição universal

le chevalierSinopse:

O ano é o de 1867 e Paris prepara-se para celebrar a Exposição Universal, consolidando-se como a capital do mundo moderno! Impulsionada pela tecnologia a vapor do professeur Verne, Paris se tornou o epicentro de uma renovada Europa. Ferro, fumaça e óleo lubrificam o caminho do Império Francês enquanto drozdes mecânicos saltitam entre a multidão. Mas uma ameaça paira sobre a cabeça de Napoleão! Em uma guerra de apenas sete semanas, a Prússia derrota a Áustria e lança seus olhos cobiçosos sobre a rica e aristocrática França. Mergulhado nas trevas, o Bureau convoca o seu melhor homem: Um espião sem passado. Sem nome. A serviço da sua Majestade, ele é conhecido apenas como: Le Chevalier!

Fonte: Editora Avec

Já está estabelecido que amo ficção especulativa, em especial o steampunk. Então, quando eu soube do lançamento de Le Chevalier e a exposição universal, fiquei imediatamente ansiosa para conhecer mais um steampunk nacional. Curiosamente, assim como Enéias Tavares e Nikelen Witter, André Cordenonsi também é de Santa Maria – o que me faz suspeitar que há alguma coisa vaporosa na água de lá.

Santa Maria

Cordenonzi, Witter, Tavares e esta que vos fala com o braço em uma posição esquisitinha, na Gare de Santa Maria.

Do começo ao fim, o clima de espionagem e investigação transborda das páginas deste livro. Le Chevalier, o protagonista, possui um ar astuto de Shelock Holmes, contando com um assistente de ares cômicos e codinome “O Persa”. Embora estivesse afastado do serviço, foi reconvocado pelo Bureau Central de Inteligência e Operações após a morte de um agente que investigava o Conde Dempewolf, anonimamente acusado de provocar um incêndio e suspeito de ligações com a Confederação da Alemanha do Norte.

A dimensão política é muito importante para a trama: o imperador e o Império correm perigo, e é preciso evitar que qualquer imprevisto aconteça na Exposição Universal, evento que naturalmente já depende de um delicado equilíbrio de diplomacias. Além disso, a ameaça prussiana paira sobre Paris, se efetivando em diversas sabotagens.

Achei muito bacana que os elementos steampunk não ficam pendurados na história, mas se mostram mais e mais intrínsecos a ela conforme avançamos. Passei a encarar os drozdes – robôs particulares cheios de personalidade –como animais-espírito mecânicos de seus donos, pelo fato de os acompanharem e ajudarem, e durante a leitura me peguei imaginando algumas vezes como seriam os drozdes de pessoas ao meu redor.

O ponto mais fraco para mim foi o desenvolvimento dos personagens, que depois de algum tempo da leitura, vão perdendo seus contornos definidores e ficaram em minha memória como “Watson glutão”, “a espiã russa sedutora”, “a menininha órfã esperta”. Por outro lado, a linguagem de Cordenonsi é bem característica e faz descrições bem-humoradas, mantendo o ritmo da narrativa muito agradável.

Le Chevalier e Persa entram em confronto algumas vezes durante a investigação – em um deles com uma menina que tenta roubá-los em um barco. Juliette, minha personagem preferida do livro, é sobrinha de um relojoeiro talentoso, que a ensinou habilidades mecânicas. Após a morte suspeita do tio, sem direito à herança, ela foge do orfanato e vai para as ruas.

A ambientação parisiense também veio como uma boa surpresa: a pesquisa do autor é perceptível nos cenários em que insere sua história. Apenas pecou no francês, que teve um uso um pouco inconsistente.

Achei o projeto gráfico dessa edição caprichado. Ele começa com um mapa e termina com uma galeria de personagens, com ilustrações que atiçam a imaginação. E vale mencionar que a abertura dos capítulos é maravilhosa, como vocês podem ver aqui.

Para quem deseja conhecer mais da “Paris que nunca existiu”, Le Chevalier possui um universo multimídia, e você pode conferir no site do autor conteúdos diversos sobre a obra, além de contos e alguns vídeos.

*

Le Chevalier e a exposição universal
Autores: Andra Zanki Cordenonsi
Editora: Avec
Ano de publicação: 2015
192 páginas

 

Citações favoritas

A máquina infernal fez jorrar setas de ponta quadrada que escapuliam de vários canos, estilhaçando a antepara de vidro do Fleché, enquanto os seus dois ocupantes encolhiam-se no chão. Felizmente, o casco fora reforçado segundo as especificações do próprio Le Chevalier, e as setas ricocheteavam como aves contra um muro.

Mesmo assim, a situação era instável  muito perigosa.

“Fique abaixado!” gritou Le Chevalier.

“Excelente conselho” desdenhou Persa, irritado. “Não tinha pensado nele sozinho!”

*

“Nossas leis são extremamente… conservadoras em vários aspectos” disse, com os dentes fechados como se tivesse acabado de engolir o que realmente lhe passava pela cabeça. “Mulheres não têm direito à herança. O dinheiro público vai para o erário público, e as moças que não têm uma família que possa ampará-las são levadas para alguma instituição de caridade.”

“Deplorável!” rosnou Persa, com uma expressão incrédula. “Mas, então, o que a senhorita…”

“Eu fugi” respondeu ela em um tom de desafio. “Elas tiraram as minhas ferramentas e meus livros. Queriam que eu aprendesse a bordar” resmungou, fazendo uma careta de quem parecia prestes a vomitar.

 

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