[Resenha] Exorcismos, amores e uma dose de blues

exorcismosamoresSinopse:

Tiago Boanerges é um mago nada convencional. Responsável por exorcizar oníricos fugitivos do mundo dos sonhos, viu o sucesso escorrer pelos dedos ao cometer um erro em uma missão. Demitido, sem amigos e com uma doença misteriosa, descobriu que a sorte é uma amiga traiçoeira e fugaz. Agora, anos depois de recuperar a saúde e transformar a má fama em uma profissão lucrativa, a sorte parece ter se lembrado dele mais uma vez. Uma proposta de seu antigo chefe pode ser a chance que esperava para dar a volta por cima e colocar a vida nos eixos – mas também mergulhar novamente nas armadilhas de um amor que pode lhe custar a vida. Neste Exorcismos, amores e uma dose de blues, Eric Novello nos proporciona diálogos diretos e sarcásticos, num cenário fantástico que tem muitos ecos de realidade.

Fonte: Livraria Cultura

Em Libertà, algo como uma São Paulo alternativa em que humanos dividem espaço com feéricos e oníricos, Tiago Boanerges é um dos “despertos” – pessoas que possuem dons mágicos. Mais especificamente, ele é um mago que trabalhava como exorcista, expulsando seres etéreos que tomaram o corpo de humanos (não existem religiões monoteístas nesse universo, então não pense em demônios nem o diabo). Mas isso foi antes de se envolver romântica e sexualmente com uma musa, um onírico poderoso que invadiu o corpo de uma cantora e lhe dava inspiração, e resolver não exorcizá-la. Resumo da história: descobriram o caso, ele foi demitido, quase morreu de uma doença sobrenatural, e no começo do livro está fazendo servicinhos escusos para sobreviver.

Se as coisas parecem confusas… bem, elas são um pouco. Mas isso é parte da graça de ler esse romance de Eric Novello, que te joga de cara em um mundo no qual as relações entre pessoas e seres mágicos são complexas e onde há muita, mas muita coisa para ser descoberta. De fato, a construção de mundo desta fantasia urbana é um dos seus pontos mais altos e impressionantes: modernidade interage abertamente com magia, há universidades em que despertos aprendem a usar seus dons e prostíbulos em que pessoas se deixam ser possuídas por oníricos para ter um sexo mais intenso, e por aí vai. E isso só nesta realidade, pois existe ainda o Yume, o mundo dos sonhos, e o Entremundos, um tipo de parada entre mundos em que você passa para ir de um a outro. É verdade que o livro exige bastante atenção – os diferentes tipos de seres e suas características ficaram um pouco confusos para mim, às vezes – mas é um universo muito rico, que a cada página apresenta alguma nova maravilha.

A vida do protagonista começa a mudar quando um ex-chefe reaparece para lhe dizer que a sua musa pode estar de volta, afinal. Com isso, ele é jogado em uma investigação que começa a envolver vários outros mistérios, como o assassinato de um salvaxe (algo como um lobisomem, mas específico desse universo) e pinturas de relógios por toda a cidade…

Tiago é um personagem complexo e um protagonista que consegue segurar o livro. Ainda fragilizado por uma quase-morte horrível e tudo o que ocorreu com a musa, ele tem que enfrentar Eliza Goldin, a hospedeira da musa, uma mulher que ele quase deixou ser consumida. Sua jornada inclui tentar recuperar sua autoestima depois da demissão (assim como o tesão por humanos – tá foda transar quando ninguém se compara à musa). Mas, apesar dos problemas, ele é inteligente e experiente nesse universo, e tem vários contatos que vão ajudando-o ao longo da história.

Ele é acompanhado por Julia Yagami, sua aluna/melhor amiga, uma necromante que Tiago salvou no Entremundos em circunstâncias das quais nem ela lembra. A amizade dos dois foi uma das melhores partes do livro pra mim: adorei o carinho que têm um pelo outro, e a dinâmica ajuda a dar uma animada em cenas que ficariam meio entediantes se fosse apenas o Tiago. A relação com outros aliados (ou inimigos, ou ambíguos) também era envolvente; os únicos relacionamentos mais decepcionantes foram os amorosos – Liz, a cantora, não tem um desenvolvimento que te faça se importar muito com ela, e outra pessoa com quem Tiago se envolve, menos ainda. (Fica a nota de que há uma cena de sexo bem explícita no livro – que, por sinal, é muito bem integrada à trama, apesar do fato de eu não me importar com a maioria dos envolvidos.)

O livro é narrado em terceira pessoa onisciente, o que difere da maioria das coisas que ando lendo recentemente, que tendem para a terceira pessoa limitada. Acho a onisciente bem mais difícil de ser bem feita, mas o autor soube dosar as mudanças de ponto de vista. A investigação é bem intricada e vai unindo várias pontas soltas ao longo do livro, mas no final ainda sobram algumas coisas não explicadas (como [SPOILER] o que raios aconteceu na semana em que Julia perdeu a memória e qual é a do relógio mágico [FIM DOS SPOILERS]), que talvez apareçam em outros livros nesse universo, mas que eu gostaria de ter visto resolvidas neste. Também não é uma narrativa que te dê as respostas de bandeja: em vários trechos o autor tende para a ambiguidade, e algumas coisas (como o próprio final) ficam para a interpretação do leitor. Gostei disso em alguns pontos, em outros nem tanto, mas a questão é que o livro te obriga a pensar e teorizar, o que é sempre bom (e divertido) na literatura.

Resumindo, é uma fantasia nacional de altíssima qualidade, que eu não hesitaria em colocar ao lado de autores estrangeiros (então nada de “vamos prestigiar porque é nacional”, é mais “vamos prestigiar porque é bom pacas”). Vale a pena ler, mesmo para quem (como eu) não costuma se aventurar pela fantasia urbana. As ruas de Libertà me fascinaram e, se os personagens retornarem com mais histórias, com certeza me juntarei a eles.

*

Exorcismos, amores e uma dose de blues
Autor: Eric Novello
Editora: Gutenberg
Ano de publicação: 2014
336 páginas

 

Citações preferidas

Como podiam dizer que estava sendo manipulado sem terem a exata noção do que ele sentia? Ninguém estava em condição de julgá-lo. Nem ele mesmo.

*

“Hipsters zumbis,” falou a necromante. “Eu odeio hispters! Vamos cortar suas cabeças.”

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4 respostas em “[Resenha] Exorcismos, amores e uma dose de blues

  1. Parece bem legal, um assunto sombrio… mas com uma perspectiva divertida (em alguns momentos, certo?). Vou procurar este livro, fiquei interessada…. me remeteu a série da FX, que estou viciada. Você já viu? É uma releitura de O Exorcista 🙂

  2. Pingback: [Especial] Livros favoritos de 2016 | Sem Serifa

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