[Resenha] Sandman – Volume 5: Um jogo de você

Esta resenha foi feita com base na edição em inglês da Vertigo. Todas as traduções, porém, correspondem à edição da Panini Books, cuja tradução é assinada por Jotapê Martins.

Figura 00 CapaSinopse:

Em Um jogo de você, Neil Gaiman leva ao limite a frágil fronteira entre sonho e realidade. Quando acordada, Barbie (de A casa de bonecas) mora em um apartamento minúsculo e vive sem dinheiro. Quando dorme, porém, ela é a esperança de um mundo imerso em guerra. Nesse mundo, ela lidera uma missão sem esperança contra um ser conhecido apenas como o Cuco. Para enfrentá-lo, dependerá de um grupo que inclui animais falantes, um travesti, um casal de lésbicas, uma pedinte urbana, uma cabeça decapitada falante e uma bruxa. O livro mistura realidade, sonho, bruxaria e questões de identidade sexual para mostrar que poucas coisas podem ser tão perigosas quanto uma poderosa fantasia de infância.

Fonte: Livraria Cultura

Um jogo de identidade. Um jogo de personalidade. Um jogo de sexualidade. Um jogo sobre ela, sobre ele, sobre nós. Em Um jogo de você, o quinto volume de Sandman, Gaiman adensa o quanto pode a sua já desafiadora e poética magna opus quadrinística. Se nos volumes anteriores o exercício metatextual dialogava com psicanálise, literatura, quadrinhos e música, entre outros campos culturais onipresentes na contemporaneidade, agora a temática é dupla: não apenas a frágil diferença entre ficção e realidade ou entre sonho e consciência, como também a ainda mais delicada diferenciação que envolve gêneros e orientações sexuais.

O enredo parece simples e promete repetir a jornada intimista – e feminina – de Casa de bonecas: Barbie, que era uma coadjuvante no segundo volume da série, agora é a protagonista, tentando recolher os pedaços de sua vida depois da separação traumática com Ken, seu parceiro anterior. Se antes os dois formavam um casal idealizado e entediante ao figurarem como estereótipos de um defasado “american way of life”, agora Barbie vive uma vida solitária e um tanto caótica enquanto tenta compreender os sonhos que a atormentavam na paisagem onírica que havia criado ainda na infância e o porquê de esses sonhos terem desaparecido.

Se em Casa de bonecas temos Rose Walker e uma coleção de coadjuvantes memoráveis, o mesmo acontece aqui, uma vez que Barbie mora num prédio nova-iorquino que tem por vizinho o esquisito e ameaçador George – cuja face irá protagonizar uma das cenas de horror mais bizarras da história dos quadrinhos –, o casal de lésbicas Hazel e Foxglove, a transexual Wanda (sem sombra de dúvida uma das personagens mais interessantes concebidas em toda a série) e a misteriosa Tess.

Some a eles os coadjuvantes da paisagem onírica de Barbie: o papagaio Luz, a ratazana Wilkinson, o macaquinho Prinado, o amigável monstro Martin Tenbones e o grande vilão da história, o temível Cuco, além, é claro, dos personagens já conhecidos do Sonhar, como Luala e Lucien e do seu Rei, Morfeus. Porém, se estruturalmente podemos encontrar ecos entre os volumes 2 e 5, as comparações param por aqui, pois nesta nova incursão pelo mundo onírico através do mundo real, Gaiman parece estar bem mais seguro do que deseja comunicar e também problematizar.

Primeiramente, o autor inglês enfatiza uma necessária revisão dos principais estereótipos dos quadrinhos ao a) novamente criar uma história protagonizada por personagens femininas críveis e bem construídas; b) elevar o seu grande protagonista, Sandman, a mero coadjuvante; e c) criticar a objetificação de heroínas femininas nos quadrinhos e os preconceitos decorrentes nas lojas especializadas do gênero.

Figura 01.png

Capa de Sandman 32, 33 & 34 – Arte de Dave McKean.

Em segundo lugar, o rico elenco coadjuvante de Um jogo de você ilustra a artesania narrativa de Gaiman, que não compreende apenas os arcos fechados como também as relações entre eles. Foxglove, ou Donna, por exemplo, é a namorada de Judy Talbot, que conhecemos na assustadora “24 Horas”, do primeiro volume de Sandman. Naquela história, ela conversava com sua então namorada depois de uma briga. Hazel e Donna futuramente protagonizarão uma das minisséries da Morte, O grande momento da vida. Já Barbie voltará para uma pequena participação no penúltimo volume da série, o qual amarra e aproxima outros personagens de Gaiman.

Outra personagem que ganha destaque é Tess, a bruxa que empreende com as personagens femininas uma jornada pelo Caminho da Lua, deixando Wanda para trás, numa cena bem interessante na qual orientação e identidade de gênero são relegadas duramente à genética. Ela terá papel fundamental nos volumes seguintes de Sandman, inclusive em seu trágico desfecho no nono volume. Essa rica construção interconectada não apenas enriquece a experiência de leitura como também evidencia o tratamento cuidadoso que Gaiman dá às vidas de suas personagens.

Por fim, como já evidenciado na trama, no título e nas personagens supracitadas, o criador de Sandman parece refletir, no decorrer de todo o arco de seis capítulos, a respeito dos limites psicológicos e sociais entre aquilo que somos, aquilo que queremos ser e o que as pessoas ao nosso redor desejam que sejamos. Obviamente, o desencontro de identidades no que concerne ao gênero – tema recorrente da série, mas enfatizado especialmente aqui – serve muito bem a esse propósito. O capítulo final que mostra a reação da família de Wanda ao insistir em usar seu nome de batismo, Alvin, para defini-la é ao mesmo tempo comovente e revoltante.

Infelizmente, destacamos que todos esses temas – mais do que válidos e ainda importantes para reflexão e debate, mesmo vinte anos depois de sua publicação – e personagens memoráveis estão inseridos numa trama muitas vezes confusa e pouco interessante. Se todos os dramas do “mundo real” são complexos e instigantes, a trama que se passa no mundo onírico e infantil de Barbie é cansativa e nem mesmo a típica jornada do herói – neste caso, da heroína – consegue engrenar. A presença do Porpentine, um amuleto de poder, e a necessidade de levá-lo à Ilha de Espinhos através da “trilha”, enquanto são perseguidos pela Guarda Escura, soam artificiais e pouco convidativos, sobretudo pela desconfortável sensação de estarmos mais lendo um enredo simbólico ou alegórico cifrado e menos um conflito verossímil e real.

Figura 02

Capas de Sandman 35, 36 & 37 – Arte de Dave McKean

 

Obviamente há também qualidades narrativas interessantes em Um jogo de você, como a revelação da identidade do Cuco, as alusões ao Mágico de Oz, a associação com o deus do universo onírico Murphy, bem como os costumeiros solilóquios gaimanianos, alguns dos quais estão no final desta resenha. Porém, mesmo com esses momentos, o todo parece desarmônico e desencontrando, figurando como um dos poucos volumes de Sandman cuja leitura exige esforço. Uma pena, sendo que a série é justamente conhecida por sua fluidez, quer textual quer narrativa.

Talvez por todas essas razões, Um jogo de você seja o volume menos popular entre os leitores e o favorito do autor. Em The Sandman Companion, Gaiman afirma que, diferente de Estação de brumas, Um jogo de você leva os leitores a lugares e temas que não são desejados e confortáveis. Ademais, é uma história que revisa tanto as típicas histórias de fãs como também os comuns enredos que diferenciam histórias para meninas de histórias para meninos. “É uma história triste e engraçada ao mesmo tempo; em suma, é a história que eu queria contar… e contei”, conclui ele.

É também uma história de identidades e dos nomes que nós criamos para nós mesmos. É recorrente na trama personagens que adotam outros nomes: Barbie sonha ser Bárbara; Alvin recria sua vida como Wanda; Donna se apresenta como Foxglove; Morpheus é conhecido como Murphy e a bruxa grega Tessaly como a “vizinha esquisita” Tess. Diante de tantas identidades relidas, recriadas e alteradas, é muito difícil não nos perguntamos sobre os nomes que criamos para nós mesmos ou quão confortáveis passamos a vida de acordo com os nomes que nos foram dados.

Eu particularmente adoro Um jogo de você, como adoro todas as histórias de Sandman. Deixando de lado minha única crítica à trama, trata-se de uma história que coloca um espelho diante dos nossos olhos e que nos obriga a questionar nossas ideias, valores e sentimentos. Além disso, ela apresenta personagens que saltam das páginas, não por corresponderem aos nossos gostos ou predileções e sim por ofertarem aquele tipo de vivacidade que vemos apenas no mundo real: quando as pessoas fazem ou dizem justamente o que não desejávamos.

Na vida, demora um pouco para nos darmos conta de que as pessoas mais fundamentais são aquelas que nos dizem não o que queremos escutar e sim o que precisamos escutar. Em Um jogo de você, podemos não ter a história que queríamos mas certamente temos a história de que precisamos, sobretudo uma história que nos ajuda a evitar preconceitos, indiferenças e condenações. Além disso, nos ajuda a abraçar uma das experiências mais fundamentais da arte e da vida: a da alteridade.

*

Sandman – Volume 5: Um jogo de você
Em Sandman Edição Definitiva 2
Tradutor: Jotapê Martins
Editora: Panini Books
Ano de publicação: 2011
618 páginas

Já leu as outras resenhas de Enéias Tavares para Sandman?

Sandman – Prelúdio
Sandman I – Prelúdios e Noturnos
Sandman II – Casa de Bonecas
Sandman III – Terra dos Sonhos
Sandman IV – Estação das Brumas

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Citações favoritas:

– Alvin? Seu nome é Alvin?
– Meu nome verdadeiro é Wanda, Barbie. Alvin é só o nome com que nasci.

*

Meia-noite. Foxglove rolou na cama quando suas iniciativas foram repelids e agora ronca baixinho. Hazel tenta pegar no sono lendo O longo adeus, de Raymond Chandler. Toda noite, antes de dormir, Thessaly escova o cabelo 100 vezes. Ela conta cada escovadas. Wanda acorda com o zunido baixo das vozes na TV no apartamento ao lado. Barbie, ela pensa. Malditas paredes finas, pensa. Então, o calor das trevas a leva de volta… E Barbie? Barbie sonha.

*

– Sabe o que mais me assusta nos pesadelos?
– Você achar que estão mesmo acontecendo?
– Não. Não é isso. É ter algo acontecendo na sua cabeça, fora do seu controle. É como se mundos malignos existissem dentro de nós, mas é tudo você mesma… É como se você estivesse se traindo.

*

Há duas formas de entrar nos sonhos alheios: pedindo ao rei dos sonhos ou usando a estrada da lua. O rei dos sonhos não perde tempo com mulheres e muito menos com a minha raça. Mas a lua é sempre nossa.

*

– Meninos e meninas são diferentes, sabia? Meninos fantasiam que são mais rápidos, espertos ou capazes de voar. Escondem seus rostos com identidades secretas e escutam as pessoas que os desprezam elogiando seus feitos notáveis. (…) Meninas, por outro lado, tem fantasias diferentes, bem menos complicadas. Seu pais não são seus pais, suas não são suas vidas, elas princesas. Princesas perdidas de terras distantes. E um dia o rei e a rainha, seus pais verdadeiros, virão buscá-las e todos viverão felizes para sempre.

*

– Isso é real? Ou é só minha imaginação?
– Se me explicar a diferença, talvez eu consiga responder.

*

Bem, todos têm um mundo secreto dentro de si. Todo mundo mesmo. Todas as pessoas no mundo… por mais chatas e sem graça que sejam por fora. Por dentro, todas têm mundo inimagináveis, magníficos, fantásticos, estúpidos e maravilhosos… não é um mundo só. Centenas deles. Milhares, até. Não é uma ideia estranha?

 

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