[Resenha] Sandman – Prelúdio (Volumes I – III)

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Sinopse:

Mais de 25 anos após revolucionar a cena dos quadrinhos, Neil Gaiman está de volta à série e ao personagem que o consagraram! Acompanhado pelo magistral J.H. Williams, que trouxe uma dimensão épica à saga com sua arte extremamente detalhada e grandiosa, Gaiman agora revela a história do que deixou Morfeus fraco a ponto de ter ficado vulnerável o suficiente para ser capturado na edição de estreia de The Sandman. Diversos coadjuvantes queridos pelos fãs farão aparições nas seis edições originais que compõem a minissérie, incluindo o Coríntio, Merv Cabeça-de-Abóbora e, é claro, os Perpétuos!

Fonte: Livraria Saraiva

Nos idos de 1989, quando Sandman estreou e Neil Gaiman não era um dos escritores mais importantes do mundo, a trama da série que se tornaria a matriz do selo Vertigo apresentava uma entidade – não um deus, notem bem, mas algo que precedia a própria ideia de divindade – que havia sido aprisionada por uma sociedade secreta desejosa de prender e controlar a própria Morte. No lugar dela, todavia, aprisionam um de seus irmãos, o próprio Sonho. Passados mais de vinte e cinco anos, Neil Gaiman juntou-se a J. H. Williams III, o fabuloso artista de Promethea, para finalmente responder a uma antiga pergunta: Se Morfeus – um dos muitos nomes do lorde do Sonhar, o espaço onírico no qual passamos um terço de nossas vidas – era tão poderoso, como foi aprisionado por meros mortais?

Foi com essa premissa que Sandman Prelúdio – ou Sandman Overture – nasceu. Nesse novo volume da série, o senhor dos sonhos parte, no ano de 1915, um pouco antes do início da série original, numa jornada em busca de respostas, salvação e – ironicamente – autocondenação, entre seres alienígenas, entidades cósmicas e parentes distantes, alguns bem familiares, outros nem um pouco. Com a edição da Panini Books em três volumes – que reúnem os seis capítulos da minissérie original –, o público brasileiro finalmente tem à sua disposição o final desta saga tão poética, complexa e intrincada. E neste caso, não uso esses três termos com chave totalmente elogiosa.

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Algumas das capas assinadas por J. H. Williams III e por Dave McKean

Se você ainda não leu Sandman – série que estou resenhando pouco a pouco aqui para o Sem Serifa –, um conselho: não comece por este “prelúdio”. Aos não iniciados na mitologia criada por Gaiman e que desconhecem os Perpétuos, a história pode parecer empolada, desconexa e repleta de perguntas sem resposta. Aos que conhecem a trama, por outro lado, reencontrar os integrantes desta família incomum é obviamente um prazer, além de uma surpresa bem interessante, entre outras que a série guarda, como por exemplo: se há nela uma família de sete irmãos, quem seriam seus progenitores?

Além disso, a narrativa gráfica de Williams III, que por si só é uma obra de arte – desafio você a abrir qualquer volume em qualquer página e não se encantar com os painéis fantásticos baseados em órbitas oculares dentadas, rubis mágicos e livros premonitórios! –, por vezes torna a leitura um tanto confusa, e o leitor fica sem saber se deve continuar a leitura dos balões para baixo, para cima ou para os lados. Num autor mais concreto como Moore, saltos experimentais com texto e imagem são sempre feitos com precisão, vide as dezenas de justaposições gráficas de Promethea. Já num autor mais sugestivo e abstrato como Gaiman, essas experimentações perdem impacto uma vez que mais desnorteiam o leitor do que o fazem mergulhar na história.

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A intrincada e genial narrativa gráfica de J. H. Williams III

E isso quer dizer então que eu não gostei da minissérie? A um escorpiano que adora os textos, contos, romances e quadrinhos deste outro escorpiano, é claro que adorei retornar ao universo de Sandman. Especialmente por amar a arte de Williams III. Apesar dos desafios apresentados acima, Gaiman nos oferta uma trama delicada e inspiradora, na qual vemos Morfeus no auge de sua crise shakespeariana, crise que norteará toda a série original. Ao confrontar seu orgulho, sua solidão e sua ignorância, Gaiman consegue nos fazer simpatizar ainda mais com seu problemático herói, algo que não é muito comum, especialmente pelo modo como o sujeito trata suas antigas namoradas. Numa trama de proporções cósmicas – que nos primeiros capítulos lembra estranhamente a saga “Crise nas Infinitas Terras” da DC Comics, com Morfeus encontrando milhares de versões suas em diferentes dimensões espaciais e temporais –, é um grande ganho que Gaiman apresente por contraponto uma delicada parábola sobre autoconhecimento, fragilidades emocionais e conflitos familiares. Afinal, quem nunca teve problemas com pais e irmãos, sendo humano, deus ou metáfora viva?

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A participação mais que especial de alguns velhos conhecidos de Sandman

Por fim, destaco além do texto de Gaiman – em bela tradução de Jotapê Martins e edição cuidadosa de Fabiano Denardin – e da arte deslumbrante de Williams, as capas alternativas do maravilhoso Dave McKean, as cores vibrantes de Dave Stewart e o letramento do mestre Todd Klein, recriadas aqui por Daniel de Rosa. A edição cuidadosa e em capa dura valoriza o conteúdo da série, que merece esse tratamento mais do que luxuoso. Agora, é esperar pelo volume único para colocar ao lado dos outros livros de Sandman que embelezam a estante de qualquer colecionador.

Apesar da promessa de Prelúdio de servir como prévia do que iremos ler nos dez volumes de Sandman, indico aos leitores e fãs da série que o leiam exatamente em sua data de publicação, ou seja, depois de todo o resto. O último quadrinho do último número desta exuberante minissérie apresenta uma rima visual e atmosférica com uma cena que se tornou clássica nos quadrinhos adultos da Vertigo. O desafio será não sair correndo e reler Sandman Volume I – Prelúdios e Noturnos, na esperança de, ao fugir da realidade, voltar a sonhar.

*

Sandman – Prelúdio – Mini-Série em 3 Edições
Roteiro de Neil Gaiman & Arte de J.H. Williams III

Tradutor: Jotapê Martins
Editora: Panini Books
Ano de publicação: 2015-2016

180 páginas

Citações favoritas:

Sou sempre assim? Cheio de si. Irritante. Ocupado apenas comigo mesmo e avesso a conceder a ribalta a qualquer um que não eu?

*

Eu fui o sonho das primeiras coisas criadas. Aquelas que dormem no espaço entre o espaço. Elas ainda dormem. No espaço entre o espaço, nas fissuras no real. Eu sou necessário e por isso permaneço. (…) Todas as suas perguntas têm apenas uma resposta. O universo viveu demais. É chegada a hora de que termine.

*

Não gosto que me digam o que fazer, ainda que quem diga seja o Universo. Eu sou o Sonho dos Gatos, e caminho sozinho.

*

Fisicamente, uma estrela é uma bola de gás, queimando e girando numa série de contínuos eventos termonucleares, inabitáveis por criaturas de carne e osso. Mas elas também são seres vivos. Têm mente. E, às vezes, essas mentes perambulam.

*

— Acho que você é muito sozinho.

— Eu sou Sonho dos Perpétuos. Sou perfeitamente autossuficiente. A solidão é uma condição mortal, e eu não sou mortal.

— Você é tão mentiroso.

*

É uma de suas histórias, não é? Na reunião do tempo e da noite, as estrelas insanas tornar-se-ão sãs e reinará novamente a paz, a sabedoria, a alegria e a beleza para todo o sempre e não haverá mais pesadelos.

*

Destino vê as coisas como elas são, não como desejamos que sejam. Ele sabe que não há histórias, apenas a ilusão delas: tramas e padrões que parecem surgir nas páginas da existência, acrescidos, pelo observador, de sentido e significado. Destino observa o mundo e as moléculas como se fossem grãos de pó pairando num raio de sol: cada movimento, cada inevitável momento. Vendo apenas o que realmente é, Destino percorre as alamedas de seu jardim, um lugar de bifurcações e de caminhos que se entrecruzam e divergem.

*

— Por que você fingiu que era eu?

— Porque você não aceitaria ajuda de ninguém além de si mesmo.

2 respostas em “[Resenha] Sandman – Prelúdio (Volumes I – III)

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