[Resenha] Solaris

solarisssSinopse:

Quando o psicólogo Kris Kelvin chega em Solaris para estudar o oceano vivo – e possivelmente inteligente – que cobre a superfície do planeta, ele encontra colegas de trabalho hostis e amedrontados. Logo Kelvin descobre que esses respeitados cientistas estão sendo perturbados por estranhas aparições, que também começam a afetar sua própria percepção. O que ele vê são suas memórias mais obscuras e reprimidas, materializadas por obra de alguma misteriosa força atuante no planeta.

Fonte: Aleph

Você não odeia quando se prepara anos para uma viagem, e chegando lá a pessoa que ia te receber está morta, os outros habitantes do lugar estão pirados e um oceano insondável invade sua psique e recria mortos do passado para te assombrar?

É esse o cenário que o psicólogo Kris Kelvin encontra no planeta Solaris. No futuro no qual escreve Kelvin – que narra sua estadia no planeta em primeira pessoa –, a humanidade chegou a Solaris há cem anos e ao longo desse período se engajou em infinitas teorizações e embates acadêmicos quanto à natureza do misterioso oceano vivo que cobre a maior parte do planeta. Ainda não se sabe se é uma formação senciente ou não, nem quais os seus propósitos, uma vez que nenhuma das tentativas de contato com o oceano rendeu frutos.

Stanislaw Lem acerta em tornar o oceano o grande mistério e fonte de terror de sua obra, uma vez que todos sabemos que a única coisa mais assustadora que o espaço é o fundo do mar; colocar o oceano no espaço, então, é garantia de perturbar o leitor terrestre.

Não bastasse isso, o cerne da obra é o horror existencial do ser humano diante de manifestações que fogem à sua compreensão – e que o colocam diante de sua própria humanidade e o fazem questioná-la. Kelvin, pouco tempo depois de chegar e encontrar seu mentor Gibarian morto em circunstâncias suspeitas, estabelece contato com os outros membros da base humana em Solaris: Snaut e Sartorius. Snaut lhe dá avisos estranhos que ele logo entende quando começa a encontrar os “hóspedes”, pessoas replicadas, ao que tudo indica, pelo oceano, a partir das lembranças das pessoas. Kelvin depara com ninguém menos do que a mulher com quem costumava viver dez anos antes: Harey. No entanto, se no começo a aparição o aterroriza, com o tempo seus sentimentos mudam e a relação com essa criatura humanoide que parece ter consciência própria se torna mais complexa.

O livro é envolvente desde o começo, e o mistério do planeta, associado às experiências perturbadoras do narrador quanto à aparição de Harey e ao fato de que seus companheiros parecem estar tramando contra ele, me deixaram tensa o tempo todo. O livro é quase um thriller psicológico, com toques de horror. E, como nas melhores obras de horror, seus protagonistas não são idiotas, mas extremamente capazes e competentes – o que não os ajuda muito diante do que enfrentam.

Mas a obra também é um bom exemplo de hard sci-fi – ficção científica que se apoia fortemente em premissas realmente, ou aparentemente, científicas. Assim, há três longas digressões sobre expedições anteriores, teorias e fatos sobre o oceano, que podem cansar um pouco, mas dão uma forte sensação de verossimilhança à obra, criando um cenário no qual descobertas intergalácticas constantemente dividem a opinião pública e a comunidade científica.

O livro, escrito em 1961, é um clássico da ficção científica e recebeu três adaptações cinematográficas (uma de 1968; a de Andrei Tarkóvski, em 1972; e uma hollywoodiana em 2002 – nenhuma das quais, pelo visto, agradou muito o Stanislaw). A edição brasileira está muito bem traduzida do polonês, impressionando ao verter todas aquelas análises científicas na prosa elaborada do autor.

Eu não sabia o que esperar da leitura e não leio muita ficção científica, mas adorei a obra. É impossível passar por ela sem refletir sobre nosso lugar no universo e todas as maravilhas e horrores que podem estar ao aguardo da humanidade lá fora. O final não oferece todas as respostas, e me deixou querendo uma continuação (que infelizmente não existe). Por outro lado, gosto quando o leitor tem espaço para criar suas próprias teorias, e em meio a tantas discussões e mistérios, Stanislaw Lem parece nos convidar a tomar parte do imenso campo da solarística.

*

Solaris
Autor: Stanislaw Lem
Tradutora: Eneida Favre
Editora: Aleph
Data de publicação: 1961
Data desta edição: 2017
320 páginas

 

Citações preferidas

Nós partimos para o cosmos preparados para tudo, quer dizer, para a solidão, para a luta, para o martírio e para a morte. Por modéstia, não expressamos isso em voz alta, mas às vezes pensamos que somos maravilhosos. Entretanto… entretanto não que queiramos conquistar o cosmos, mas ampliar a Terra até o limite dele. […] Não buscamos nada além de pessoas. Não precisamos de nenhum outro mundo. Precisamos de espelhos. Não sabemos o que fazer com os outros mundos.

*

O homem saiu para encontrar outros mundos, outras civilizações, sem saber nada sobre seus próprios recessos, ruas sem saída, poços e portas bloqueadas e escuras.

*

Quem construiu os relógios, mas não o tempo que eles medem, construiu sistemas ou mecanismos que servem para determinados fins, mas eles superaram esses fins e os traíram. E criou o infinito, que deveria ter sido a medida de sua potência, mas se transformou na medida de seu desmesurado fracasso.

*

Todos nós sabemos que somos seres materiais, submetidos às leis da fisiologia e da física, e que a força de todas as nossas emoções reunidas não consegue lutar contra essas leis, mas apenas odiá-las.

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4 respostas em “[Resenha] Solaris

  1. Sou fã de ficção científica e tenho adoração pela era de escritores da qual esse livro faz parte. É sempre assim: uma boa ideia serve de pano de fundo pra desenvolver uma história que sempre pretende fazer um pouco mais do que simplesmente entreter (não que haja algo de errado com isso, claro). Li Crônicas Marcianas do Ray Bradbury esses tempos, livro de contos escritos em sua maioria na década de 50, e é batata… Tranco existencialista incluso.

    Ponto extra pela nacionalidade do autor completamente fora do eixo tradicional. Quando que eu leria um livro polonês?

    E muitos pontos extras pela edição. Já não tem nem mais graça, é comentar o óbvio… Acho que eu compraria até Crepúsculo se a Aleph lançasse.

    Ótima resenha!

    • Oi, Daniel! Nunca li Bradbury, mas bom saber! Gosto desse estilo de obra.

      E sim, adoro quando as editoras brasileiras trazem edições bem feitas (e bem traduzidas) de livros fora do eixo anglófono. Inclusive, o Nós, que a Aleph lançou recentemente também, é outro livro excelente.

      Obrigada pelo comentário!

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