[Resenha] Pequeno irmão

Esta resenha foi feita com base no e-book em inglês licenciado sob Creative Commons e disponível gratuitamente aqui. Todas as traduções de trechos foram feitas por mim.

pequeno-irmão

Sinopse:

Marcus, pseudônimo ‘w1n5t0n’, só tem 17 anos, mas acha que sabe tudo sobre como o sistema funciona — inclusive como passar a perna nele. Esperto, rápido e escolado no mundo da internet, Marcus não tem problema nenhum em enganar os sistemas de segurança da escola. Mas sua vida muda totalmente quando ele e os amigos são presos pelo Departamento de Segurança e levados a uma prisão secreta onde serão interrogados. Lá fora, São Francisco sofre um gigantesco ataque terrorista. Agora, cada cidadão é tratado como um terrorista em potencial. Ele sabe que ninguém vai acreditar na sua história, então só lhe resta uma opção – derrubar o sistema com as próprias mãos.

Fonte: Livraria Cultura

Este livro foi a última leitura indicada para um curso de literatura online voltado para fantasia e ficção científica que fiz no ano passado (que, aliás, é um curso gratuito e muito bom, se alguém tiver interesse tá aqui o link!).

Tenho o costume de começar livros sem ler a sinopse, o que muitas vezes faz com que eu tenha surpresas logo no começo. Com este não foi diferente. O capítulo inicial descreve a vida de Marcus, um adolescente super inteligente e entendido de tecnologia. Pela personalidade cativante e ousada de Marcus (que narra o livro em primeira pessoa) e pela forma como dribla o sistema (para enganar a vigilância avançada da escola e fugir das aulas, por exemplo), imaginei que a história trataria de alguma aventura na qual ele se envolveria voluntariamente e na qual teria o controle da situação. Mas, quando um atentado terrorista acontece na sua cidade, São Francisco, e Marcus e os amigos são presos pelo Departamento de Segurança Nacional, todas as certezas do protagonista são abaladas e ele se vê indefeso e cheio de dúvidas.

O autor da obra, Cory Doctorow, é ex-diretor da EFF (Eletronic Frontier Foundation), uma fundação que defende os direitos individuais no mundo digital. Como um ativista da causa, ele insere em Pequeno irmão a ideia de que as pessoas devem conhecer melhor a informática e a internet e usá-las para defender seus direitos. É isso que faz Marcus após conseguir sua liberdade: reúne alguns aliados e recursos tecnológicos para combater o sistema e resgatar seu amigo Daryll, desaparecido desde a prisão do grupo. Marcus não é um herói perfeito – em muitos momentos não percebe as dimensões do que está fazendo, e também não sabe bem se está mesmo salvando o dia ou apenas piorando a situação. Isso o torna bastante verossímil e ajuda a transmitir a mensagem do autor: a de que, na internet, as pessoas comuns têm o poder de fazer grande diferença.

“Quando tiver problemas ou dúvidas, corra em círculos e grite.” – Marcus Yallow

Um dos personagens mais importantes da obra é o medo. É ele que move os personagens, além de criar muitos dos conflitos. Quando a vigilância anti-terrorismo começa a extrapolar os limites e violar a privacidade e os direitos individuais, o medo transforma São Francisco e seus moradores, fazendo surgir muitos tipos comuns em situações de opressão e resistência – os não conformistas, os apavorados, os que acreditam que é errado lutar contra as autoridades etc.

A história vai ficando cada vez mais tensa à medida que a opressão do governo aumenta e Marcus não sabe mais em quem confiar. Muitas discussões e polêmicas começam a surgir e a trazer para o leitor reflexões bastante contemporâneas, e que ao mesmo tempo tornam a trama mais envolvente.

Em contraste com assuntos tão sérios, a história traz muitos trechos bastante didáticos (mas também muito interessantes) sobre informática, hackers e até sobre História. O autor consegue fazer isso sem perder o ritmo da narrativa e sem entediar o leitor – as explicações de Marcus são divertidas e apresentam de forma simples e bem-humorada vários assuntos que são necessários para entender a trama.

Há também cenas comuns da vida de um adolescente, que às vezes podem irritar um pouco o leitor (em meio à verdadeira guerra civil que se forma, ler sobre as aventuras sexuais de um garoto de 17 anos pode ser um tanto tedioso), mas elas não chegam a sobrepor a trama principal. Mas esses detalhes não conseguem sobrepor o mais importante. Após a leitura, o que fica na cabeça não são os relacionamentos entre os personagens, e sim a situação de cada indivíduo em meio ao caos – seus medos e suas atitudes em um cenário no qual ter um posicionamento é necessário, mas muito arriscado.

Pequeno irmão é uma história fantasiosa mas verossímil e muito bem escrita, que equilibra momentos sérios e descontraídos, sem perder o ritmo. Vale a pena ler!

*

Pequeno irmão
Autor: Cory Doctorow
Tradutor: André Gordirro
Editora: Galera Record
Ano desta edição: 2011
400 páginas

Anúncios

3 respostas em “[Resenha] Pequeno irmão

  1. Pingback: [Resenha] Uma princesa de Marte | Sem Serifa

  2. Pingback: [Tag] 26 books | Sem Serifa

O que achou deste post?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s