[Resenha] Eu, você e a garota que vai morrer

Esta resenha foi feita com base no e-book em inglês da Allen & Unwin. Todas as traduções de trechos foram feitas por mim.

eu-voce-e-a-garota-que-vai-morrerTrecho:

Você já deve ter percebido que este livro é sobre uma menina com câncer. Então, talvez esteja pensando “Incrível! Esta vai ser uma história sábia e cheia de revelações sobre amor e morte e crescimento. É provável que me faça chorar o tempo todo, literalmente. Mal posso esperar!”. Se esta é uma boa representação dos seus pensamentos, jogue este livro numa lixeira e saia correndo. Porque o negócio é o seguinte: Eu não aprendi absolutamente nada com a leucemia da Rachel. Na verdade, provavelmente fiquei mais idiota com relação à vida por causa dessa história toda.

Logo no começo do livro vem o aviso: esta não é uma história fofa. Não espere um romance cheio de lições de vida e personagens cativantes. Você vai ler apenas sobre a morte de Rachel Kushner, uma menina com leucemia, do ponto de vista de Greg Gaines, um colega que foi forçado a se aproximar dela. Isso mesmo: a mãe de Greg o obriga a se tornar amigo de Rachel quando a menina descobre estar doente.

Até então, o único interesse de Greg era fazer filmes caseiros com seu amigo Earl, um negro americano caricaturado ao extremo e que fala palavrões o tempo todo. Até que, de repente, uma das principais ocupações de Greg é tentar animar Rachel enquanto ela passa pelos tratamentos médicos. É claro que, a partir daí, a história poderia se desenvolver como um young adult comum, mas não é o que acontece.

A coisa mais bonita sobre você é que você não é um fantoche de meia.

Não tem como não pensar neste livro como uma paródia de A culpa é das estrelas, de John Green, principalmente graças a frases como “Se este fosse um livro normal sobre meninas com leucemia…”. Rachel não diz nada profundo e não nos faz chorar como Hazel faz, e talvez o motivo principal seja que Greg não está interessado verdadeiramente na garota e não sabe nada importante sobre ela, mesmo após meses de visitas e tardes inteiras passadas com ela. Além disso, ao contrário de Augustus Waters, Greg não é um príncipe encantado, e sim um babaca assumido. Sua dedicação a Rachel não tem motivos altruístas e sinceros. Enquanto Augustus chega a exagerar nas demonstrações de amor pela garota que acabou de conhecer (só eu acho ele um tanto creepy?), Greg se sente mal por não ter qualquer sentimento, mesmo que de solidariedade, em relação a Rachel. Aliás, não me levem a mal: gostei bastante de A culpa é das estrelas, e acho que Eu, você e a garota que vai morrer é uma leitura interessante para quem gostou do livro de John Green, justamente pelas referências irônicas e sutis.

Escolha praticamente qualquer frase neste livro e garanto que, se a ler vezes suficientes, provavelmente vai acabar cometendo homicídio.

Greg é um narrador honesto e nada apologético. Ele não se esforça por fazer de sua história uma leitura agradável; pelo contrário, repetidas vezes o leitor é questionado sobre sua escolha de leitura e convidado a abandonar o livro. É uma abordagem inusitada e criativa, mas que cansa depois de um tempo. Sinto que a leitura andaria bem mais rápido (e que o livro teria muito menos páginas) se o autor não insistisse tanto em reforçar o quão autodepreciativo é o narrador, e o quanto isso é, supostamente, engraçado. O livro é, sim, bem divertido, e muitas das piadas de Greg (principalmente as sinopses de seus filmes caseiros) me fizeram rir de verdade, quando não foram estragadas por essa narração chatinha. Ri também de suas piadas ruins, porque elas acabam causando um clima de vergonha alheia – Greg é o típico adolescente que quer fazer os outros rirem, mas não sabe como.

Uma das características louváveis desse livro é que se mantém fiel à sua proposta. Ao longo da leitura, fiquei apreensiva esperando pelo momento clichê em que, apesar de prometer o contrário, o protagonista acaba nos contando uma história meiga e sentimental, e nos apaixonamos pelo adolescente que quer manter a pose de mau mas que, no fundo, é uma pessoa incrível. Mas tive uma boa surpresa ao constatar que Greg continua sendo bobo até o fim e que sua história realmente não nos ensina nada. É claro que isso normalmente não é o que procuramos em um young adult, mas por isso mesmo é bastante original.

Eu, você e a garota que vai morrer terá uma adaptação para o cinema, ainda sem data prevista, e aparentemente ainda não foi comprado por nenhuma editora brasileira. [Atualização: o livro foi publicado em 2015 pela Fábrica 231, selo da Editora Rocco.]

*

Eu, você e a garota que vai morrer
Autor: Jesse Andrews
Tradutora: Ana Resende
Editora: Fábrica 231
Ano desta edição: 2015
288 páginas

2 respostas em “[Resenha] Eu, você e a garota que vai morrer

  1. Pingback: [Resenha] Tudo que você e eu poderíamos ter sido se não fôssemos você e eu | Sem Serifa

  2. O engraçado desse livro é que a livraria cultra (ou melhor a Intrinseca) está vendendo-o como a coisa mais criativa dos últimos anos. Na verdade, ao ler o que você disse ele é uma paróia de um livro romântico com um garoto pra lá de tosco. Há algo de original? Talvez, colocar isso em livro possa ter o mínimo de originalidade, mas dá a impressão de ideia já utilizada. Ou se nunca foi utilizada dá impressão de termos visto isso em outras mídias. Ao menos é essa a impressão que ficou do livro: uma grande piada e um grande foda-se. Okay, é um livro de humor, para se divertir, etc etc e tal. Contudo fica a questão: ele é tão interessante assim por ser do contra ou um adolescente (no caso um tipo semelhante) não poderia fazê-lo? Eu já li bastante fanfics para perceber que há produções semelhantes fora do mercado editorial. Não sei se fica claro o porque da proposta do livro deixar um gosto meio amargo na boca e não seria por moralismo, claro. Só levantando a hopótese de que o livro não é essa cocada preta toda que estão vendendo: “Tudo é essencial no livro”, “O livro mais criativo dos últimos anos”, “Grande vencedor do Book Prize”, etc etc café com leite.

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