[Resenha] Bandeiras pálidas

bandeirasSinopse: O livro narra a história de Anil Tissera, uma nativa do Sri Lanka (o antigo Ceilão) radicada no Ocidente. O enquadramento histórico do romance é a situação sócio-política do Sri Lanka. Desde meados dos anos 80, esse pequeno país asiático vem sendo convulsionado por duas guerras civis diferentes, e, no contexto dessas guerras, massacres bárbaros vêm sendo cometidos. Anil Tissera é uma jovem antropóloga forense que volta a seu país como representante de uma organização internacional de defesa dos direitos humanos.

Fonte: Livraria Cultura

Escolhi este livro simplesmente porque foi escrito por Michael Ondaatje, autor de O paciente inglês – que li alguns anos atrás, adorei por sua sensibilidade poética, e recomendo. Este outro romance de Ondaatje não decepcionou.

O cenário é o Sri Lanka, dilacerado por uma guerra civil que atravessou os anos 1980. Meus conhecimentos sobre o país se resumiam à sua localização aproximada, mas isso não atrapalhou a leitura em nenhum momento: um brevíssimo resumo da situação, em uma nota do autor, já capacita o leitor a entrar na história.

Somos primeiro apresentados a Anil Tissera, antropóloga forense que volta a sua cidade natal, Colombo, para realizar uma investigação de direitos humanos em meio à guerra civil que dilacera o país de norte a sul. Lá encontra Sarath Disayena, arqueólogo que deve acompanhá-la na investigação. Em um sítio arqueológico, em meio a cadáveres antigos, eles encontram os ossos de um desconhecido. Fica claro para os dois que o Marinheiro (como chamam o cadáver) fora assassinado recentemente, e seu corpo, escondido em um local de acesso restrito a funcionários governamentais. A conclusão é óbvia e Anil ignora os avisos de Sarath: fica determinada a descobrir quem foi o homem assassinado pelo governo.

O crime e o mistério logo revelam ser apenas o pano de fundo para a verdadeira investigação da obra: seus personagens. Ao longo do caminho, Anil e Sarath entram em contato com o irmão deste, um médico chamado Gamini, e os sentimentos e lembranças dos três compõem o coração do romance, que pode ser melhor descrito por esta fala de Anil:

Preciso saber o que você pensa. Tenho necessidade de desmontar as coisas para entender as origens de uma pessoa.

Ondaatje aborda estratégias de sobrevivência em condições extremas, que poucos de nós conseguiriam imaginar – circunstâncias que ele descreve sem meias palavras. Massacres, tortura e atrocidades são descritos objetiva, quase friamente, pelo narrador e pelas personagens, como se fosse preciso um distanciamento para manter a sanidade em meio ao caos. Mas o autor o faz de modo tão hábil, com sua prosa poética e seu domínio completo da narrativa, que a leitura é de certo modo suavizada. Além disso, os capítulos curtos nos impelem a continuá-la. Esses momentos, em que Ondaatje desfia o passado dos personagens, são intercalados com o presente da trama, num vaivém que vai revelando quem são essas pessoas.

A narrativa não só alterna entre passado e presente, como a arqueologia também é grande parte da trama. O pé no passado deixa transparecer o afeto do autor por seu país de origem, suas realizações e belezas, e o sofrimento pelo estado em que se encontra. A tradução de Paulo Henriques Britto mantém toda a estranheza do cenário, que se revela em nomes de lugares, objetos, alimentos, plantas e nos costumes ricamente descritos.

Esse sabor “exótico” também nos fascina e nos transporta. Há uma parte em que, em meio à busca por respostas, Anil e Sarath se encontram em um tipo de santuário na floresta, onde o arqueólogo procura um antigo professor. O contraste entre o mundo de encantamento que encontram ali e as realidades da guerra tornam estas últimas ainda mais pungentes. As lembranças de Anil de sua vida longe do Sri Lanka, em diversos países do Ocidente, formam igualmente um contraste agudo com o presente da narrativa e a vida dos outros personagens. Um contraste que parece querer nos lembrar que existem pessoas vivendo em meio ao caos neste exato momento.

O livro aponta a incapacidade da ONU em resolver ou mesmo entender a situação (uma realidade que não se limita ao lugar e época do romance), ao mesmo tempo em que os personagens explicam que nenhum estrangeiro conseguiria entender por que eles nunca abandonariam o país. Anil, que fez justamente isso, se encontra cada vez mais envolvida com suas origens à medida que os obstáculos à investigação despertam nela sentimentos de raiva e frustração. “Ali o mundo tinha mais complicações morais,” ela pensa assim que chega.

O foco do romance é a verdade – cuja existência é posta à prova, e cujo valor é questionado a todo momento. A busca dos dois se torna menos uma investigação sobre o Marinheiro em particular e mais uma busca pela voz dos milhares de anônimos mortos no conflito. É uma tentativa desesperada de humanizar a guerra, feita por pessoas que se sentem, elas mesmas, cada vez mais entorpecidas em meio ao conflito.

Se fosse possível lhe dar um nome, todos os outros teriam nome também.

No fim, a revelação do mistério é o que menos interessa. O que os personagens confirmam é que a verdade é perigosa num mundo de forças em combate. Antes do fim fica provado que a paranoia de que Anil acusava Sarath não era vã.

Há poucas mensagens animadoras neste livro. Mesmo a fé na resiliência apresenta toques de desesperança. No entanto, por fim, os vários excertos de vida deixam uma impressão de sobrevivência – individual e de todo um povo. Vale a pena ver como os fios são entrelaçados por um escritor magistral.

*

Bandeiras pálidas
Autor: Michael Ondaatje
Tradutor: Paulo Henriques Britto
Editora: Companhia das Letras
Ano de publicação: 2000
348 páginas

Citações preferidas

“Nada perdura. […] É um velho sonho. A arte se incendeia, se dissolve. E ser amado com a ironia da história – isso não é muita coisa.”

*

A gente precisa de pais depois que fica velho, também.

*

São poucas as grandes representações do amor dignas de confiança. E nessas obras há algo que permanece desordenado e privado, por mais famosas que elas venham a se tornar. Elas não exprimem sanidade, apenas emitem uma luz azulada, sofrida.

*

“Nunca consigo entender uma pessoa pelo que ela tem de forte. Ali nada se revela. Só entendo as pessoas pelo que elas têm de fraco.”

*

A cinquenta metros dali, na seção de emergência, ele ouvira homens feitos chamando pelas mães aos berros, morrendo. […] Foi então que ele deixou de acreditar que o homem dominava a terra. Passou a afastar-se de todas as pessoas que defendiam alguma guerra. Ou o direito de dominar o próprio país, ou o orgulho da posse, até mesmo os direitos pessoais. Todos esses motivos acabavam sempre nos braços de um poder irresponsável.

O que achou deste post?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s