[Série] As crônicas de gelo e fogo

Esta resenha foi feita com base nas edições da Bantam Dell e fala da série como um todo, com o mínimo de spoilers. Todas as traduções foram feitas por mim.

gotSinopse:

Em A guerra dos tronos, George R. R. Martin traz uma história de lordes e damas, soldados e mercenários, assassinos e bastardos, que se juntam em um tempo de presságios malignos, cada um esforçando-se para ganhar este conflito mortal ─ a guerra dos tronos. Mistérios, intrigas, romances e aventuras ilustram as páginas deste livro.

Fonte: Livraria Cultura

Não pretendia fazer esta resenha porque achava que o mundo já estava saturado dessa série. Todo mundo já ouviu falar, um monte de gente assiste a adaptação e uma quantidade surpreendente de pessoas compraram os livros. Mas depois da milionésima vez que ouvi “Até queria ler, mas é tão longo…”, não resisti. Precisava escrever alguma coisa sobre esses livros que adoro há tanto tempo. Afinal, segundo me informam os cartazes no metrô de São Paulo, não é só uma série – é um fenômeno. Minha impressão é de que nenhuma outra fantasia é tão lida desde Harry Potter, e fantasia épica ainda por cima, o que me deixa muito feliz, porque acredito que no Brasil esse sucesso inspirou a publicação de outros livros do gênero.

Pois bem: As crônicas de gelo e fogo (CGF) é uma série que já tem 5 de 7 livros publicados. O primeiro saiu em 1997 e já fazia bastante sucesso nos EUA, mas deslanchou mundialmente com a série da HBO, que começou em 2011. A história se passa num mundo fictício chamado Westeros, que no passado era constituído por sete reinos, mas no início da série está unificado.

A trama teve como inspiração a Guerra das Rosas (além de muitas outras coisas, caso interesse) pelo trono da Inglaterra, entre as casas de York e Lencastre – cujas correspondentes na série são as famílias Stark e Lannister. O mundo de CGF tem um cenário medieval, o que não é incomum em fantasia. Só que, enquanto alguns autores trabalham “medieval” como uma realidade meio vaga, em que os personagens moram em vilarejos e ocasionalmente vão a feiras e lutam com espadas, Martin cria um universo mais profundo, e profundamente brutal. A questão da lealdade está no cerne de Westeros – cada família (e há várias, que são apresentadas ao longo dos livros) tem seu brasão, lema e vassalos, e as engrenagens que mantêm o sistema em equilíbrio entram em colapso ao longo do primeiro livro da série, graças a assassinatos, sequestros e muita intriga política.

Se o prólogo do primeiro livro chama a atenção ao prometer acontecimentos fantásticos, Martin nos faz esquecer esse início bombástico ao nos apresentar uma série de personagens. Entre eles, Ned e Catelyn Stark, pais dos cinco irmãos Stark, além de Jon Snow (“o bastardo”). Os irmãos protagonizam o início da série e são todos jovens (Robb e Jon, que na série já são quase adultos, têm apenas 14 anos). Outro núcleo se foca em Daenerys, remanescente exilada da ex-família real de Westeros, que, em troca de um exército, é vendida pelo irmão – que pretende tomar de volta o reino que lhe pertence por direito – para se casar com o líder de uma tribo poderosa. E não posso deixar de mencionar Tyrion Lannister, personagem quase universalmente amado, um anão sarcástico e calculista que tem as melhores frases do livro e proporciona os momentos de maior diversão numa série majoritariamente dramática.

A habilidade narrativa de GRRM fica evidente no modo como ele faz o leitor se importar com essas pessoas em poucas páginas. O livro é escrito a partir do ponto de vista (PDV) de diversos personagens, e talvez para dar uma ajudinha ao leitor, talvez para nos seduzir a continuar a leitura, os títulos de cada capítulo são o nome do personagem da vez.

Quando li o primeiro há alguns anos, nunca tinha me deparado com múltiplos PDV. Depois aprendi que é uma coisa dificílima de fazer e que você não deve tentar isso em casa. Escrever com PDV significa basicamente que partes da história são vistas através dos olhos de apenas um personagem, o que: 1) amplia a complexidade e quantidade de tramas e subtramas possíveis, além de permitir ao autor nos apresentar os sentimentos e ideias de muitos personagens; e 2) restringe o que ele pode expor, uma vez que precisa escolher quem vai nos “guiar” em cada acontecimento. Sem falar da dificuldade de criar personagens verossímeis e interessantes o bastante para manter nosso interesse em seus respectivos capítulos – o que Martin consegue, e que ajuda muito na suspensão da descrença, algo que todo livro (mas especialmente os de fantasia) requer do leitor.

Aliás, Martin não só nos faz amar seus protagonistas, mas põe os antagonistas no centro da ação e lhes dá, ao longo da série, seus próprios capítulos. À medida que faz isso, nos obriga reconsiderar a própria ideia de antagonista. Se é verdade que há alguns personagens verdadeiramente desprezíveis e com poucas ou nenhuma qualidade redimível, a maioria é simplesmente humana. Isso não significa que o autor apresenta desculpas para comportamentos repreensíveis. O que faz é descrever os personagens e suas ações sem julgamento, evocando a velha ideia de que “todo vilão é o herói de sua própria história”. E não deixa de mostrar que os “heróis” têm defeitos também.

Falando em personagens, vale mencionar que as mulheres têm lugar de destaque nesse mundo, apesar do medievalismo. O mais impressionante é que Martin consegue fazer isso sem cair em lugares-comuns. Não que não existam mulheres guerreiras, por exemplo, mas nem toda “personagem feminina forte” depende da força física. Por exemplo: se por um lado temos Arya, que gosta de lutar com espadas e odeia vestidos e tarefas ditas femininas, por outro, Sansa, sua irmã, é gentil, educada e graciosa – a dama perfeita. Embora a primeira seja muito mais amada pelos fãs, Martin vai mostrando que Sansa é inteligente, flexível e de uma paciência generosa, uma garota forçada a crescer rápido demais, mas que aprende a ser parte do “jogo dos tronos”. Suas habilidades são diferentes das da irmã, mas não inferiores, e uma não conseguiria fazer o que a outra faz. É uma dicotomia que valoriza os diferentes tipos de força.

E, para melhorar, Westeros também abriga personagens homossexuais – até bissexuais. Quando perguntaram a Martin por que os inseriu nos livros, ele arrasou com a resposta:

“Bom, percebi que existem gays no mundo, então achei que devia colocar alguns no meu mundo também.” (X)

Os relacionamentos homossexuais não têm grande destaque no livro, mas, como faz com as mulheres, também aqui Martin desafia estereótipos. Um dos melhores cavaleiro do reino, por exemplo, é gay.

“Mas há outros personagens gays nos livros que são vis ou maus de vários modos. Acho que todo grupo inclui pessoas boas e ruins, não importa se estamos falando de um grupo étnico ou religioso. Por isso tento retratar uma variedade, especialmente quando tenho centenas de personagens. Então posso ter um herói gay e um vilão gay e um gay covarde ou corajoso, assim como pessoas gordas boas ou más, e por aí vai.” (X)

Claro que existe gente que discorda de tudo que eu acabei de dizer, e que diz que as mulheres não são tão bem desenvolvidas nos livros quanto os homens, sendo até injustiçadas em termos de caracterização. Não é a minha opinião. Acho que, apesar de alguns deslizes, Martin atinge um equilíbrio impressionante entre homens e mulheres nos livros, e escreve seus PDV com mais naturalidade do que Robert Jordan, por exemplo. A diversidade de personalidades que ele propõe certamente ajuda nesse quesito.

Mas de volta ao ponto: não deixe as “centenas de personagens” te assustar! Os principais vão se apresentando, aos poucos, e sempre é possível ir às árvores genealógicas no final do livro quando aparece alguém de quem você não lembra.

A escrita com múltiplos PDV também exige o entrelaçamento de diversas histórias, especialmente à medida que os personagens tomam seu rumo. Isso determina, em parte, o tempo que leva para escrever cada livro, e está associado ao fato de Martin ser um “discovery writer” (isto é, alguém que não tem a trama do livro delineada antes de começar a escrevê-lo). Ele descreve em outros termos:

“Acho que existem dois tipos de escritor: os arquitetos e os jardineiros. Os primeiros planejam tudo antecipadamente, como um arquiteto construindo uma casa. Eles sabem quantos cômodos a casa vai ter, que tipo de telhado vão colocar, onde a fiação vai ficar, que tipo de encanamento será instalado. Têm a coisa toda projetada e desenhada antes de colocar o primeiro prego. Os jardineiros cavam um buraco, plantam uma semente e jogam água. Eles meio que sabem do que é a semente, sabem se plantaram uma semente de fantasia ou de mistério ou do que quer que seja. Mas depois que a planta nasce e eles a regam, não sabem quantos ramos terá – descobrem à medida que ela cresce. E sou muito mais um jardineiro que um arquiteto.” (X)

O fato de ser escritos por um “jardineiro” torna os livros mais verossímeis – pra não dizer imprevisíveis. Martin deixa os personagens comandarem a história, e eles tomam decisões equivocadas, às vezes desastrosas, que alteram drasticamente o rumo dos acontecimentos. Decisões que eles próprios reconhecem como erros mas que precisaram ser tomadas num segundo. Decisões das quais ele, como autor, é quase incapaz de fugir, se não quer trair os personagens. Como eu já disse uma vez, a série depende de ações humanas. Há alguns fatores fantásticos e fora do controle importantes (um deles, nesse caso, já é antecipado no prólogo), mas quase tudo pode ser atribuído às personagens.

Na verdade, a magia nessa série é até discreta. Isso talvez surpreenda, considerando que dragões não são exatamente corriqueiros, mas a magia no universo de CGF é bastante diluída. Não se sabe ao certo qual sua origem, nem todas as suas possibilidades. Não está restrita a criaturas fantásticas (e/ou abominações terríveis). Vemos personagens trazer pessoas de volta à vida e mudarem de aparência, ter sonhos proféticos e – literalmente – brincar com fogo. Em Westeros, que é um lugar bastante cínico, até se duvida da existência da magia. Para as mentes mais esclarecidas do reino, a magia é considerada uma superstição, apenas história de camponeses e crédulos, lenda de um passado mítico.

Talvez a magia tenha sido uma força poderosa no mundo, mas não mais. O pouco que resta não é mais que a fumaça que permanece no ar depois que um grande incêndio se extinguiu, e mesmo isso está esvanecendo.

Claro que o leitor sabe que a situação não é bem essa, e fica na expectativa para o ressurgimento dessa magia latente. Enquanto isso, acompanha as desventuras dos personagens. Digo desventuras porque é difícil escolher quem está na pior. É até impressionante como os livros viciam, considerando que você provavelmente não vai ficar feliz nem satisfeito com o que acontece, e que todo mundo que você ama vai ser injustiçado, sofrer coisas terríveis ou simplesmente morrer quando você menos espera. (Brandon Sanderson, diga-se de passagem, não lê Martin porque o acha brutal demais.) É um universo que não dá trégua a ninguém, e um dos poucos mundos fictícios que fazem o leitor pensar que a realidade é melhor.

Mesmo assim, é difícil abandoná-lo. O começo da série te deixa um pouco desnorteado da primeira vez, com os vários personagens e menções a reis mortos e lemas de famílias e lugares desconhecidos, mas se você passa desse choque inicial, não consegue largar o livro. Os capítulos são geralmente curtos, e como dá pra saber quem vem em seguida, você fica tentado a ler “só mais um pouquinho” – ou porque gosta do próximo, ou para passar logo por ele e voltar ao seu preferido.

Os três primeiros livros são incríveis, impecáveis em termos de exposição, trama, equilíbrio entre os PDV e finais arrasadores. O quarto tem a desvantagem de introduzir vários personagens novos, que tomam a maior parte do livro, e não conter o PDV de alguns outros aos quais o leitor já se apegara, o que causa um pouco de frustração. (Numa segunda leitura, porém, achei o livro bem melhor do que tinha parecido inicialmente, talvez porque já soubesse desse fato.) No entanto, admito que o quinto não me agradou muito. É longo demais para o que acontece – ou não acontece –, os personagens têm uma evolução muito menor do que em outros livros (dois de quem eu gostava, em especial, me irritaram profundamente), e a trama não avança muito. Mesmo assim, sem dúvida lerei os últimos dois livros.

Pra terminar, tenho alguns problemas com a edição nacional. A tradução, na verdade, é portuguesa. Foi adaptada ao português brasileiro, mas o resultado me soa bastante artificial – o que não é culpa do tradutor, nem exclusivamente do adaptador, pois todo livro passa por muitas mãos (de modo que nunca dá pra saber quem responsabilizar por certas coisas). O certo, é claro, teria sido encomendar uma nova tradução, e é uma pena que isso não tenha ocorrido. E pelo jeito não vai acontecer, já que vi, um dia desses, um exemplar que estava na 25ª reimpressão.

Se você lê inglês, sugiro procurar o original. Se não, arrisque mesmo assim. Vale a pena. Ou melhor, citando Ron Weasley: “Você vai sofrer, mas vai ficar feliz com isso”.

Por que não só ver a série?

Uma questão válida. Resumindo numa frase já dita muitas vezes na história: porque os livros são muito melhores. Mesmo quando segue exatamente os acontecimentos dos livros – o que deixou de fazer há tempo! –, a série jamais poderia demonstrar a profundidade e complexidade dos personagens, seus conflitos interiores e toda a riqueza de sensações e emoções de sua jornada. Muito é perdido também em termos de trama, pois ela precisa ser simplificada na passagem para a tela, assim como personagens e que somem e cenas que são alteradas. Pra não falar de quando os escritores da série acabam com a caracterização de um personagem. Mas enfim, uma crítica da adaptação daria muitas páginas. O que interessa é que a experiência é outra, e se você já curte a série, sem dúvida vai amar os livros e entrar facilmente na história. Só não pule livros, se não vai ficar perdido mesmo!

Em inglês

A Game of Thrones (A song of ice and fire – book 1), por George R. R. Martin. Bantam Dell, 2011. 864 p.

Em português

A guerra dos tronos (As crônicas de gelo e fogo – livro 1). Leya, 2010. 592 p.

Citações

A mente precisa de livros como uma espada precisa ser amolada, se você quer mantê-la afiada.

*

Só há um deus e seu nome é morte. E só dizemos uma coisa para a morte – hoje não.

*

Você veste sua honra como uma armadura – acha que ela o mantém seguro, mas tudo o que faz é te deixar pesado e dificultar seus movimentos.

*

O riso é veneno para o medo.

*

A maioria de nós não é forte. O que é o riso comparado ao amor de uma mulher? O que é o dever contra segurar seu filho nos braços pela primeira vez? Contra a lembrança do sorriso de um irmão? Vento e palavras. Somos apenas humanos, e os deuses nos fizeram para o amor. Essa é a nossa maior glória e a nossa maior tragédia.

*

Minha querida criança de verão, o que você sabe sobre o medo? O medo é para o inverno, quando as neves se acumulam e o vento gélido chega uivando do norte. O medo é para a noite longa, quando o sol esconde sua face por anos a fio, e as crianças nascem e vivem e morrem na escuridão enquanto os lobos gigantes ficam magros e famintos, e os caminhantes brancos se movem pelas florestas. Milhares de anos atrás, surgiu uma noite que durou uma geração. Reis congelaram até a morte em seus castelos, assim como os pastores em suas cabanas, e as mulheres sufocavam os bebês para não ter que vê-los morrer de fome, e choravam, e sentiam as lágrimas congelarem no rosto. É desse tipo de história que você gosta?

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