[Resenha] O Silmarillion

Esta resenha foi feita com base na edição da HarperCollins. A tradução de trechos foi feita por mim.

silmSinopse:

Esta obra relata acontecimentos de uma época muito anterior ao final da Terceira Era, quando ocorreram os eventos narrados em O Senhor dos Anéis. São lendas derivadas de um passado remoto, ligadas às Silmarils, três gêmeas perfeitas criadas por Fëanor, o mais talentoso dos elfos. Tolkien trabalhou nesses textos ao longo de toda a sua vida, tornando-os veículo e registro de suas reflexões mais profundas.

Fonte: Livraria Cultura

 

Venho adiando a leitura desse livro há uns 10 anos (um recorde pessoal), mas finalmente decidi me dedicar a essa obra épica do mestre Tolkien. O motivo de tanta demora era que sempre ouvia dizer que O Silmarillion era de leitura difícil e lenta – o que é verdade, mas também é uma experiência maravilhosa para quem ama o universo de O Senhor dos Anéis, e essencial pra quem quer entendê-lo com mais profundidade.

Talvez o modo mais fácil de definir o livro seja dizer que é uma série de mitos: mitos que remontam à criação desse mundo (que não se resume à Terra Média) e começam literalmente com “Deus”, chamado Eru (ou, ainda, Ilúvatar, para os elfos – prepare-se, porque tudo e todos têm mais de um nome neste livro). Abaixo de Eru, na hierarquia divina, vêm os Ainur – os primeiros seres criados por ele, que têm grandes poderes e se envolvem com o destino do mundo. Os Ainur são divididos em Valar e Maiar (estes menos poderosos). O livro começa falando sobre a criação do mundo visível (do qual a Terra Média fará parte), e dos elfos e dos homens por Ilúvatar – já os anões foram criados por um dos Valar, que se empolgou com essa história de criar coisas.

Mas calma, toda essa cosmologia não ocupa tantas páginas assim, e tenho que dizer que gostei bastante dessa parte – é bem bonita e verossímil enquanto mitologia, uma vez que tem ecos de vários mitos do nosso mundo. Gostei principalmente da explicação para a origem do Sol e da Lua, que eram originalmente duas árvores dos Valar que foram destruídas.

Logo passamos para histórias mais animadas, das quais os elfos são os protagonistas. O Silmarillion se passa majoritariamente na Primeira Era. Pra você se situar: O Senhor dos Anéis se passa na Terceira Era; a Primeira dura meros 590 anos e vai da criação do mundo e do surgimento dos elfos até a derrota de Morgoth, que é um dos Valar e o grande vilão do livro (e, por acaso, o mestre de Sauron – este, um mero Maiar rebelde!). Basicamente, o mundo era perfeito: então Morgoth decidiu que tudo devia ser dele e fez algumas “modificações” – e daí deriva todo o mal existente na terra.

O legal de ter os elfos como protagonistas é que eles são muito superiores aos homens, e seus feitos são bem épicos: por exemplo, lutam (de uma só vez) contra lobos, dragões e balrogs (talvez você se lembre de um deles – pois é, Morgoth tinha vários). Pra não mencionar casos como o de Filgolfin, um elfo que vai até o Portão Negro de Morgoth e chama o Valar para um duelo singular. Só que este livro também destrói a imagem que fazemos dos elfos depois de ler O Senhor dos Anéis, como seres sábios que estão no controle das coisas: aqui, eles fazem uma burrada atrás da outra, se deixam enganar pelas forças do mal, matam uns aos outros, e por aí vai.

Por exemplo, a história principal (há várias paralelas que se entrelaçam nela) é sobre Feänor e as Silmarils – joias perfeitas que ele criou com a luz divina das árvores dos Valar. Seguindo a boa e velha tradição de que qualquer coisinha que brilha em Tolkien deixa as pessoas insanas de ganância, Feänor não quer dividir as Silmarils, e ele e os sete filhos fazem um juramento de destruir qualquer um que tome posse das Silmarils. Depois que Feänor morre, esse juramento assombra seus filhos e se torna a semente da discórdia entre os Valar e os elfos.

Mais tarde, os homens também entram na história, se envolvendo com elfos de diversas formas, e alguns fazem coisas bem heroicas também: Húrin, por exemplo, é capturado por Morgoth mas se recusa a lhe dar qualquer informação sobre os elfos. Depois, quando o livro trata de épocas mais tardias, Isildur (este cara) aparece, fazendo coisas úteis antes de se tornar conhecido por não destruir o anel quando podia.

Vale a pena mencionar que todo o universo de Tolkien originou-se do amor dele por filologia: primeiro, o autor criou as línguas élficas (sim, no plural) e então uma história na qual inseri-las. A minha edição inclui um pequeno glossário, que é bem legal pra você identificar as raízes de algumas palavras e imergir nesse mundo tão complexo e vasto.

Afinal, tudo que é narrado em O Silmarillion é fruto de 30 anos (!) de trabalho do nosso querido Tolkien. Não acho que autores de fantasia precisem necessariamente se dedicar anos a fio a construir um mundo – mas, justamente por isso, acredito que Tolkien jamais será superado, e eu somente leria uma obra desse tipo de sua autoria. (Por isso, autores de fantasia: não comecem seus livros contando a história do mundo que vocês inventaram – ninguém se importa.)

Como disse, são muitas as histórias do livro, e seria impossível mencionar todas. Alguns pontos altos, pra mim:

  • A origem de elfos, homens, anões, orcs, Nâzgul, entre outros.
  • A divisão dos elfos em grupos, de acordo com quando (e se) responderam ao chamado dos Valar para sair da Terra Média.
  • O fato de que o destino dos homens após a morte é desconhecido (enquanto os elfos já sabem onde vão parar), o que é bem deprimente, se você considerar que elfos e humanos jamais se veem depois da morte, e que os humanos não sabem o que acontece depois de suas vidas fugazes – aliás, a discussão da mortalidade é fascinante, pois a morte é chamada tanto de “o destino [doom] dos homens” como de “a dádiva de Ilúvatar”, dependendo do ponto de vista, e a imortalidade é muitas vezes vista como um fardo.
  • Feänor literalmente fechando a porta na cara de Morgoth.
  • Lobisomens (que são diferentes dos que conhecemos, é claro).
  • A história de um homem chamado Túrin Turambar, que é o mais próximo que Tolkien chega de uma tragédia grega. Começa com Túrin acidentalmente matando o melhor amigo, e daí piora (incluindo incesto, mais assassinato, suicídios, e decisões ruins de forma geral). Ela é narrada mais extensivamente em Os filhos de Húrin. Eu adorei essa parte do livro, mas é difícil: nada de bom acontece com Húrin, com a mulher dele ou com seus filhos. Destaque para os encontros de Túrin com um dragão psicopata, Glaurung, até que ele finalmente o mata.
  • A origem de Ungoliant, mãe de todas as aranhas gigantes, que era tão medonha que até Morgoth ficava tipo “Cara, que nojo” (estou parafraseando).
  • Elfos sendo cretinos e apelidando os anões de “o povo atrofiado” e os homens de “os doentios”, entre outras coisas.
  • Aparição de figuras conhecidas: Galadriel, Elrond (que era genro dela, aliás) e Gandalf. Assim como, mais pro final, ficamos conhecendo a origem dos Dúnedain (a raça de homens abençoados com vida mais longa, da qual nosso querido Aragorn faz parte), e o início dos reinos dos homens que aparecem em O Senhor dos Anéis.
  • Mulheres ótimas: Tolkien geralmente é criticado pela falta de personagens femininas, mas muitas que aparecem em O Silmarillion são incríveis e bastante pró-ativas, como Lúthien (de “Beren e Lúthien”, a famosa história inspirada no próprio Tolkien e em sua esposa).
  • As aparições de Sauron antes de se tornar um grande olho descarnado, manipulando a galera e incomodando de forma geral. Ele participa inclusive de uma batalha musical (sem brincadeira) com um dos reis élficos, Felagund.
  • Morgoth levando uns balrogs para uma discussão de paz (sério, esse cara…).
  • Seguindo a tradição, as águias salvam todo mundo umas três vezes.

O livro (pelo menos a minha edição) contém várias partes: Ainulindalë (A música dos Ainur); Valaquenta (sobre os Valar e os Maiar); Quenta Silmarillion (A história das Silmarils); Akallabêth (A queda de Númenor); e Sobre os anéis de poder e a Terceira Era. Esta última não é apenas um resumo de O Senhor dos Anéis, apresentando outras informações e pontos de vista. Também há uma carta fascinante de Tolkien em que ele explica um pouco sobre a construção do mundo e o que há por trás dela, assim como um glossário de termos élficos e um glossário de nomes (que eu ficava checando a cada duas ou três frases).

Como disse, não é um livro de leitura fácil. Mas, embora você encontre frases como “Os filhos de Hador eram Galdor e Gundor; e os filhos de Galdor eram Húrin e Huor; e o filho de Húrin era Túrin…” [ela continua], elas não são tão frequentes assim, e eventualmente você começa a formar um mapa mental de todas essas pessoas. Já das longas descrições geográficas, não consegui fazer tanto sentido: a terra muda ao longo das eras, e só ao final a Terra Média adquire sua forma mais familiar aos leitores de O Senhor dos Anéis.

Confusões à parte, é uma criação belíssima, que trata de temas como poder, inveja, morte, sacrifício, amizade, amor, entre outros. Também é uma história bastante melancólica: fala de declínio e perda (afinal, trata do fim de cada era), e tem poucos finais felizes.

Não recomendo para fãs casuais de Tolkien – você vai precisar de tempo e dedicação –, mas é muito satisfatório se aprofundar neste que é o universo de fantasia por excelência.

*

O Silmarillion
Autor: J.R.R. Tolkien
Editora: WMF Martins Fontes
Ano de publicação: 1977
Ano desta edição: 2012
480 páginas

 

Citações preferidas

Então as vozes dos Ainur, como arpas e alaúdes, e flautas e clarins, e violas e órgãos, e como inúmeros corais cantando com palavras, começaram a moldar o tema de Ilúvatar em uma grande música; e um som se ergueu de infinitas melodias intercambiáveis entrelaçadas em harmonia, que passaram além da audição até as profundezas e até as alturas, e os locais de morada de Ilúvatar foram preenchidos ao limite, e a música e o eco da música emergiram no Vazio, que não foi mais vazio.

*

[…] os filhos dos homens morrem, e deixam o mundo; por qual motivo são chamados de Convidados, ou Estranhos. A morte é seu destino, a dádiva de Ilúvatar, que, à medida que o Tempo passa, até os Poderes vão invejar.

*

Não ame demais a obra de suas mãos, nem as invenções de seu coração […].

*

[…] de alegria e vida feliz há pouco a ser dito, antes que acabem; assim como obras belas e maravilhosas, enquanto ainda duram para que olhos as vejam, são seu próprio registro, e apenas quando estão em perigo ou são perdidas para sempre são transformadas em canções.

*

Para ele que não tem compaixão, os feitos de compaixão sempre são estranhos e além do entendimento.

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4 respostas em “[Resenha] O Silmarillion

  1. Oi Isa,
    Tbm venho protelando a leitura de O Silmarillion há anos pq tbm ouvi falar que a leitura era mais lenta e dificil.
    Além disso, faz tanto tempo que li O Senhor dos Aneis, que acho que essa série merece uma releitura antes de ler O Silmarillion.
    Não sabia que o Tolkien tinha investido 30 anos nesse livro. Uau!! Mas qualquer leitor de SdA ou de O Hobbit percebe que o autor tinha completo domínio sobre a estória, né?
    Abraço,
    Alê
    http://www.alemdacontracapa.blogspot.com

    • Oi, Alê! Acho uma releitura de Senhor dos Anéis super válida – fiz uns anos atrás e adorei, pq fazia muuuito tempo que eu tinha lido a trilogia pela primeira vez. E sim, vc percebe logo que o Tolkien conhecia aquele mundo muito a fundo. É lindo! *_*
      Abs,
      Isa

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