[Resenha] Cidade pequena

Sinopse:

Cidade pequena é um thriller de alta voltagem erótica ambientado na Nova York atual. Lawrence Block descreve a investigação dos crimes cometidos por um misterioso serial killer. A primeira vítima é a corretora Marilyn Fairchild, estrangulada na própria cama. O escritor John Craighton é o principal suspeito, mas Susan Pomerance, uma galerista de arte de vida sexual extravagante, também parece implicada no crime. Lawrence Block, autor da conhecida série do detetive Matthew Scudder, compõe um romance sobre arte e política, desejo, violência e medo.

Fonte: Livraria Cultura

Esse livro caiu em minhas mãos por meio da Babs, fundadora deste ilustre blog, que estava fazendo uma limpa nos livros e me ofereceu esse. Na luva (que Deus a tenha, faleceu de goteira) constavam as palavras “Um thriller de alta voltagem erótica”. Essa mistura louca foi o bastante pra me animar.

As histórias circundam as consequências do 11 de setembro, em níveis pessoais, na cidade de Nova York. Cada capítulo aborda a perspectiva de um dos personagens centrais (e ocasionalmente há trechos de personagens secundários), a começar por Jerry Pankow, um ex-alcoólatra que vive de fazer faxinas em bares e bordéis – e ocasionalmente em residências, incluindo a de Marylin Fairchild, que, assim como outros clientes de Jerry, está morta quando ele chega para fazer seu trabalho. Jerry é gay, e enquanto lia a primeira parte dele fiquei me perguntando: “Quando foi a última vez em que li um livro cujo protagonista não fosse declaradamente hétero?”. Só não sei.

John Creighton é um escritor medianamente conhecido e o principal suspeito do crime. As lembranças da noite em que foi para a casa de Marylin não o permitem ter certeza de suas ações. Sua imaginação literária edita constantemente os acontecimentos. Um coelho de pedra que saiu do apartamento de Fairchild e foi parar em sua gaveta de meias o faz escarafunchar suas lembranças em busca de provas de sua inocência. Enquanto tem que cumprir prisão domiciliar, começa a escrever um novo romance – e todas as editoras ficam loucas atrás de um contrato, pensando na publicidade automática do assassinato.

Susan Pomerance, dona de uma galeria que compra somente obras de arte cujos autores tenham alguma doença mental, sente-se impactada pela morte de Marylin, que vendeu a ela seu apartamento. Entre compras de obras de novos artistas e descobertas sexuais, ela se torna gradativamente obcecada pelo possível assassino de Fairchild.

Há ainda Francis Buckram, um ex-policial que dá a mesma palestra repetidas vezes, enquanto irrita-se com a pressão de grandes atores políticos para se candidatar para prefeito nas próximas eleições. Sentindo falta de ação em sua vida e intrigando-se com os assassinatos e atentados que continuam a acontecer, ele acaba envolvendo-se – religiosamente às sextas-feiras – com Susan, que o submete em diversas práticas sadomasoquistas.

As passagens eróticas do livro são bem diversas: tem boquete debaixo da mesa de restaurante, cunilíngua em estúdio de piercing, sexo a três, acessórios diversos, carícias lésbicas. As descrições não são excessivas e são menos falocêntricas do que eu esperava, já que o livro é escrito por um homem. Entretanto, algumas sensações e pensamentos de Susan me pareceram irreais, especialmente em uma cena em que ela esconde uma banana na vagina e desafia seu amante a encontrá-la sem usar as mãos. Eu só conseguia pensar: “Moça, não faz isso, a banana vai quebrar dentro de você”. Aos que se preocuparam tanto quanto eu: ficou tudo bem.

O Carpinteiro – que é o nome que a mídia dá ao assassino invisível que continua a cometer atos brutais – também é um narrador da história. Ele é apaixonado pela cidade de Nova York e por suas histórias, e sofreu profundas perdas no 11 de setembro. Depois delas, passou a acreditar que os sacrifícios fortaleciam a cidade e que era sua missão continuar a ofertá-los. Então começou a sair por aí estrangulando corretoras e enfiando martelos na testa de prostitutas. Bem equilibrado.

Eu gostei bastante do contraste entre as narrativas de cada personagem. Pra mim eram bem palpáveis as diferenças de percepção e sensibilidade de cada um. E achei bem incrível como o título se justifica à medida que o autor amarra a trama. As coisas se desenrolam no compasso do boca a boca (às vezes bem literal) dos personagens.

Quanto à edição: capa dura, margens boas e bem leve para suas quase 600 páginas. O único problema para mim foi a profusão de espaços duplos no texto. Esse tipo de coisa quebra muito minha imersão na leitura e me incomoda porque é simples de resolver.

O final da história foi meio feliz demais pra mim, que estava apreciando o tom melancólico da obra. Mas foi uma leitura bem agradável e acho que é um livro honesto no que se propõe. Analisando essa cadeia hereditária por partes:

  • “Um thriller de…: fiquei bem tensa, portanto check;
  • …alta voltagem…: ??? Precisei de eletricidade pra ler, então acho que check;
  • …erótica”: várias putarias, check.

Cidade pequena
Autor: Lawrence Block
Tradutora: Anna Vianna
Editora: Companhia das Letras
Ano de publicação: 2004
571 páginas

Citações favoritas

“Matou alguém, só que não temos certeza, temos? E é isso que eu faço, meu bem. As pessoas se matam e eu sou advogado dos sobreviventes.”

*

“São um presente. Pode se sentir puta se quiser. Mas não precisa.” E quando ela hesitou: “Não vamos fazer isso de novo. Não vamos virar amantes. Mas vou pensar em você quando eu me masturbar.”

*

“(…) Quando eu comecei a descobrir que eu podia ser eu e continuar viva. Mas uma parte de mim nunca despertou e prosseguiu, e essa parte não deixou de querer que você me matasse.”

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2 respostas em “[Resenha] Cidade pequena

  1. Terminei de ler esta semana. Gostei, até…mas considero-o o mais fraco dos livros do Lawrence Block, entre os que já li. Talvez por eu ser muito fã das séries com o Matt Scudder, principalmente Um Baile no Matadouro e Quando nosso Boteco fecha as Portas. Concordo que alguns pensamentos/atitudes de Susan Pomerance são bem irreais. Alguns deles aproximam-se em demasia de fantasias sexuais tipicamente masculinas. No geral, um livro bom. Nota 7. Ontem mesmo dei início à série literária “Quarteto de Los Angeles”, de James Ellroy. Estou no início do 1º livro (Dalia Negra) mas já acredito que merecerá um 10! Sou suspeito, por ser muito fã de Ellroy!

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