[Resenha] Mestre Gil de Ham

mestregilSinopse:

Esta história é ambientada no vale do Tâmisa, na Inglaterra, num passado distante, quando ainda existiam gigantes e dragões. Seu herói, Mestre Gil, é na realidade um fazendeiro totalmente desprovido de heroísmo, mas que, graças à boa sorte e à ajuda do cachorro Garm, da égua cinzenta e da espada mágica Caudimordax (ou Morde-cauda), amansa o dragão Chrysophylax e ganha enorme fortuna.

Fonte: Livraria Cultura

 

Esse livrinho de cento e poucas páginas é uma obra singela em meio aos grandes projetos do mestre Tolkien, mas também uma pérola. A história infantojuvenil é uma “pseudotradução” – isto é, o autor fingiu traduzi-la de alguma versão anterior, “original” (como, aliás, fez com O senhor dos anéis) – e acontece num passado mítico da Inglaterra, na região do Tâmisa.

A história é simples: mestre Gil, um fazendeiro ranzinza, por acaso acaba expulsando um gigante de suas terras, o que lhe dá uma fama local de grande herói. Assim, quando o reino é invadido por um dragão, mestre Gil é escolhido pelos habitantes de sua aldeia, Ham – e pelo rei em pessoa – para ir atrás dele. O que Gil faz, com muita relutância. Não vou contar como a história se desenrola, mas envolve a participação dos habitantes da aldeia e Gil também recebe a ajuda de uma espada mítica que faz a maior parte do trabalho.

A narrativa de Tolkien é deliciosa e muito bem-humorada. Gil tem um ar de hobbit, meio acomodado e rabugento, e seus animais – o cachorro (falante) Garm e uma velha égua cinzenta – são muito engraçados. Os habitantes de Ham são todos caricaturados, mas de um jeito legal, que funciona nessa história que não se leva muito a sério (meu preferido é o ferreiro pessimista), e o dragão não tem nenhuma semelhança com os dragões da fantasia moderna. Orgulhoso, mas totalmente medroso, Chrysophylax é uma figura meio patética. Assim como Gil – que aparenta ser um grande herói, mas apenas se aproveita das circunstâncias e de outros para realizar seus grandes “feitos” –, ele também mais ladra que morde.

A leitura é super rápida, e a edição inclui a primeira versão, manuscrita, da história, que é bem mais curta. Além de ser divertido ler as duas para ver como a versão final se desenvolveu, a versão mais curta tem um ritmo mais veloz e é ideal se você pretende contar a história para uma criança de fato. Enfim: uma história bem gostosa, ótima para intercalar leituras mais exigentes. Recomendo, principalmente para fãs do autor!

*

Mestre Gil de Ham
Autor: J. R. R. Tolkien
Tradutora: Waldéa Barcellos
Editora: Martins Fontes
Ano de publicação: 1949
Ano desta edição: 2014
102 páginas

 

Citações preferidas

Mestre Gil tinha um cachorro, cujo nome era Garm. Os cães tinham que se contentar com nomes curtos no vernáculo. O latim dos livros era reservado para seus donos. Garm não sabia falar nem latim macarrônico, mas sabia usar a língua do povo (como a maioria dos cães daquela época) para amedrontar, para se vangloriar ou para bajular. As ameaças eram para bandidos e intrusos, a fanfarronice, para os outros cachorros, e a bajulação, para seu dono. Garm tinha orgulho e medo de Gil, que sabia amedrontar e se vangloriar melhor do que o cão.

*

Todos admitiram que a situação era um pouco estranha, mas mandaram chamar o ferreiro. Ele abanou a cabeça. Era um homem lento, sombrio, conhecido como Sam Risonho, apesar de seu nome correto ser Fabricius Cunctator. Jamais assoviava no trabalho, a menos que alguma catástrofe (como uma geada em maio) tivesse ocorrido exatamente como previsto por ele. Como diariamente predizia desastres de toda natureza, poucos aconteciam sem que ele tivesse previsto, e assim podia receber crédito por eles.

*

A égua cinzenta arriou no chão. Mestre Gil escorregou para trás, caindo numa vala. Quando pôs a cabeça para fora, lá estava o dragão, bem acordado, olhando para ele.

– Bom dia! – disse o dragão. – Você parece surpreso.

– Bom dia! – disse Gil. – E estou mesmo.

– Perdoe-me – disse o dragão, que tinha levantado uma orelha cheia de suspeita […]. – Perdoe-me perguntar, mas por acaso você não estava me procurando?

– De modo algum! – disse o fazendeiro. – Quem imaginaria encontrá-lo por aqui? Só estava passeando a cavalo.

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