[Resenha] Jogador número 1

jogador-número-1Sinopse:

O ano é 2044 e, como o resto da humanidade, Wade Watts prefere mil vezes o jogo do OASIS do que o mundo real. Ele garante que esconde as peças de um puzzle diabólico cuja resolução leva à riqueza incalculável. As chaves para o quebra-cabeça são baseadas na cultura do final do século XX e, por anos, milhões de seres humanos têm tentado encontrá-los, sem sucesso. De repente, Wade consegue resolver o quebra-cabeça e ganha o primeiro prêmio, e, posteriormente, deve competir contra milhares de jogadores para conseguir o troféu. A única maneira de sobreviver é ganhar, mas para isso terá que abandonar sua existência virtual e lidar com a vida e o amor no mundo real, de onde sempre tentou fugir.

Fonte: Livraria Cultura

Na metade do século XXI, a Terra está caótica. Esgotamos os combustíveis fósseis disponíveis, o que gerou guerras, pobreza e fome generalizada. O mundo está feio e abandonado. Mas as pessoas passam a maior parte de seu tempo em outro “mundo”: o maior ambiente de realidade virtual já criado, o OASIS, se torna o refúgio de todos. As pessoas vivem, se relacionam, estudam e namoram por meio de seus avatares online, e em geral não precisam se desconectar da internet a não ser para atender a suas necessidades fisiológicas.

Mas toda a comunidade OASIS se agita quando o multibilionário criador do jogo, James Halliday, morre. Seu testamento anuncia que Halliday deixou sua fortuna – e a posse da empresa que administra o OASIS – para o jogador que conseguir vencer um concurso no jogo. Começa então uma febre generalizada em busca do grande Easter Egg de Halliday. Para encontrar o “ovo”, que pode estar escondido em qualquer setor ou planeta do universo do jogo, o usuário terá que decifrar enigmas deixados por Halliday e juntar três chaves, para passar por três portões. Somente após cumprir todas as tarefas, a quest será completa e um grande vencedor herdará a fortuna do criador do jogo.

O anúncio do concurso gera uma forte e inusitada moda. Fã descontrolado de tudo o que diz respeito aos anos 1980, Halliday criou todas as pistas da sua “caça ao ovo” com base em games, músicas, filmes e seriados dessa época. Então, o mundo inteiro fica fissurado em estudá-la, tendo como apoio o Almanaque de Anorak, livro deixado por Halliday com suas anotações sobre sua vida e suas paixões da década de 1980.

Alguns anos se passaram desde o anúncio do concurso, mas nenhum “caça-ovo” conseguiu sequer encontrar a primeira chave. Até que entra em cena nosso protagonista e narrador em primeira pessoa, o jovem Wade Watts. Usando seu avatar chamado Parzival, ele consegue decifrar o primeiro enigma e adquire a chave, reaquecendo a competição, mas também atraindo inimigos para si. Existe uma grande empresa, a IOS, interessada em ganhar o concurso para adquirir o OASIS e lucrar com ele. A IOS quer cobrar pelo acesso ao sistema, o que impossibilitaria o acesso de milhões de usuários pobres para quem o jogo é o único prazer na vida. Então, contratam centenas de funcionários para estudar as pistas e correr atrás do ovo.

Apesar do início demorado, no qual o autor detalha seu mundo e o universo do OASIS por quase cem páginas (consigo ouvir a Isa rosnando ao ler isto), Jogador número 1 é uma aventura com ritmo muito gostoso de acompanhar. Uma corrida ágil pela pontuação, mas com intervalos de impaciência, desesperança e medo dos próximos avanços do placar, quando Parzival não consegue chegar às pistas seguintes da competição. O OASIS tem um placar mostrando o desempenho dos jogadores que conseguem avançar na competição, e a pontuação indica quem está mais próximo de encontrar o ovo, mas não foi apenas isso que me deixou ansiosa, sempre me controlando para não pular os olhos para as linhas seguintes.

Acontece que acompanhar essa trama é bem parecido com jogar um video game mesmo. Parzival precisa passar por três fases, cada uma com grandes desafios e enigmas a desvendar. Para ele, nenhum dos desafios é extremamente difícil, o que poderia parecer inverossímil, mas para mim foi razoável – já vi muita gente que simplesmente é bom em qualquer video game (registro aqui a admiração de uma noob que passa meses na mesma fase de um jogo). Mas a grande habilidade do protagonista tampouco estraga o desenvolvimento da trama. Além dos enigmas (e soluções) muito interessantes, Cline desenvolve uma trama de perseguição com riscos reais, quando a IOS começa a ameaçar a integridade física dos competidores mais fortes. É uma guerra que sai do mundo virtual e parte para o real. Afinal, esse não é um simples concurso de video game, e homens inescrupulosos farão de tudo para conseguir o prêmio capaz de transformar um indivíduo na pessoa mais poderosa do mundo.

Além de Parzival, outros quatro jogadores dividem o topo do placar – seu melhor amigo virtual, Aech, e seu crush, a blogueira Art3mis, e também a dupla de irmãos japoneses Daito e Shoto. Aech é um personagem excelente e que surpreende muito ao final da trama, e Art3mis é uma personagem bem construída, com momentos de fraqueza e indecisão permeando sua personalidade forte e inteligente. O autor desenvolve de forma muito habilidosa o relacionamento de Parzival com cada um desses personagens ao longo da trama, e nos faz gostar de cada um deles, mesmo quando estão se comportando de forma bem irritante, o que inclui o protagonista. O único aspecto que me incomodou um pouco, mas não chegou a atrapalhar a leitura, foi o fato de que os personagens japoneses são extremamente estereotipados – seus avatares são samurais, e eles falam animadamente sobre honra e dever.

Mas esta, como muitas outras obras, não prioriza a ambientação de todo o mundo distópico. Sabemos apenas como está a América do Norte, e deduzimos por aí a situação do resto do planeta. A descrição de um mundo com grandes favelas formadas por pilhas de carros velhos (que se tornaram inúteis com a crise de combustíveis), mas onde todos têm acesso a equipamentos de realidade virtual, está no limite do factível, porém ainda verossímil o bastante para envolver o leitor. O autor aproveita para trabalhar diversas questões reais e atuais para nós, como o preconceito dentro de jogos online (e na internet como um todo) e o isolamento das pessoas na era digital. Um dos personagens, um grande programador e empresário aposentado do ramo de games, chega a declarar que:

“[O OASIS] Tornou-se uma prisão autoimposta à humanidade. […] Um lugar agradável para que o mundo se escondesse de seus problemas enquanto a civilização humana lentamente ruía, principalmente por negligência.”

Embora a citação possa levar à interpretação errônea de que os video games são, via de regra, uma forma de escapismo, o autor vai além. Essa é uma reflexão que faz muito sentido não apenas com relação a um jogo nas proporções do OASIS, como para a intensa imersão digital que já vivemos na realidade, e que inclui também televisão, computadores e principalmente celulares.

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Mas é claro que o autor não é um inimigo dos video games. Pelo contrário, ele recheia sua obra com referências a inúmeros jogos antigos, principalmente de Atari e arcade, muitos dos quais eu anotei o nome para experimentar depois. E não só isso: suas referências aos anos 1980, deliciosas e muito numerosas, tornam o livro uma deliciosa homenagem à década. Mesmo os leitores que não viveram a época vão se deliciar ao reconhecer personagens, falas e outros elementos de Star Wars, De volta para o futuro e Monty Python, entre muitos outros.

Apesar disso, é um livro fácil de acompanhar – ele explica todas essas referências e também os termos de games, para o leitor que não esteja familiarizado. Mas quem conhece tudo isso vai se divertir mais, além de se interessar pelos jogos e filmes que ainda não tenha visto.

Jogador número 1 é uma obra completa: com uma trama envolvente, ação bem escrita e na dose certa, referências inteligentes, um romance fofinho que não atrapalha o foco da história, crescimento do protagonista e uma história de amizade e lealdade, que envolve o leitor e o deixa ansioso por mais. Há muito tempo eu não lia um livro de aventura tão gostoso, e cheguei a adiar seu fim, decepcionada porque minha próxima leitura não teria o tema de video games. Super recomendado para gamers, nerds e fãs de aventura, fantasia e ficção científica.

Jogador número 1
Autor: Ernest Cline
Tradutora: Carolina Caires Coelho
Editora: Leya
Ano de publicação: 2011
464 páginas

Comentários com SPOILERS:

  • Queria apenas deixar registrado que ri muito na batalha pela primeira chave, simplesmente porque Parzival conversa calmamente com o Lynch. E essa história de falar que está jogando mal por culpa do controle? Estamos de olho, Parzival!
  • Queria também registrar que quase chorei quando Parzival finalmente conheceu Aech pessoalmente. Uma mulher negra, gorda e lésbica, tendo que ocultar sua identidade por causa de preconceitos? E o protagonista simplesmente ama ela? Cline, seu lindo, I didn’t see that coming! ❤

4 respostas em “[Resenha] Jogador número 1

  1. Bárbara,

    Adorei sua resenha.
    Também li esse livro e, por eu ter nascido na década de 80, entendo muitas das referências porque estavam disponíveis no Brasil nos anos 90s.

    Estou ansiosíssimo pelo filme, e isso é ruim. Eu raramente fico com tanta vontade e isso pode resultar em uma decepção épica. Vamos torcer para que façam um bom trabalho!

    Eu nunca vi uma obra parecida com essa. Por enquanto, conheço apenas o Ernest Cline que, aliás, já publicou outro parecido: Armada. Não sei se já tem tradução para o português…

    Obrigado pelo ótimo artigo e um abraço,
    Lucas Palhão

    • Oi, Lucas! Obrigada pelo comentário.
      Também nunca vi nenhuma obra como esta, e me apaixonei! Realmente fiquei triste por não ter mais nada assim para ler. Essa outra obra do Cline, Armada, já saiu sim no Brasil, também pela Leya. Tá na minha lista de leituras futuras. 😉

  2. Oi Bárbara!
    Li esse livro há alguns anos. Não lembro se achei arrastado ou se simplesmente não me cativou, mas lembro que me decepcionei porque tinha gostado da premissa e visto ótimos comentários sobre ele. Lendo sua resenhas percebi o quão pouco lembro da obra, então não foi nada marcante. Que bom que a sua experiência foi melhor que a minha 🙂
    Beijos,
    alemdacontracapa.blogspot.com

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