[Resenha] Golden Fool

Essa resenha foi feita com base na edição da Bantam Books e contém spoilers para toda a Saga do Assassino e a trilogia Liveship Traders, assim como Fool’s Errand. A tradução de trechos foi feita por mim.

golden-foolSinopse:

Posando como guarda-costas, Fitz se torna os olhos e ouvidos por trás das paredes, guiando um reino que se aproxima cada dia mais da guerra civil. Em meio a uma série de problemas, Fitz deve garantir que ninguém traia o segredo do príncipe – que ele, como Fitz, possui a temida “magia animal”. Apenas a amizade de Fitz com o Bobo lhe traz algum consolo. Mas mesmo isso é ameaçado quando revelações do passado do Bobo são expostas.

Fonte: Amazon

 

Deixe-me começar esta resenha dizendo que nunca em minha vida fiquei mais furiosa com um personagem do que com Fitz Chilvalry “Sem Tato” Farseer neste livro. Em certo momento, estive bem perto de jogar o livro no chão (vantagens de se ler a versão impressa e não o e-book). Me peguei pensando que o programa de aulas na adolescência de Fitz devia ter sido menos:

  • Venenos
  • Armas
  • História dos Seis Ducados
  • Magia
  • Intriga política

E mais (SPOILERS):

  • Estabelecendo limites para o seu filho adotivo
  • Como se relacionar casualmente com mulheres como um adulto funcional
  • Confiando em pessoas: fundamentos básicos
  • Aprendendo com seus erros I
  • Aprendendo com seus erros II
  • COMO NÃO REAGIR QUANDO ALGUÉM CONFESSA SEU AMOR ETERNO E INCONDICIONAL POR VOCÊ

Ugh, Fitz, sério. Esse livro foi meio difícil de engolir. Não só Nighteyes faz muita falta (melhor lobo, insubstituível, NUNCA TE ESQUECEREMOS), como o ritmo é mais lento – muita intriga, pouca ação. E, para completar, em boa parte do livro Fitz e o Bobo estão afastados –, o que tem muito a ver com a minha vontade de pôr fogo em tudo.

Não quero dizer que o livro é chato. Hobb continua excelente em entrelaçar tramas e personagens, e é sempre um prazer ler seus livros. Mas, de muitos modos, esse segundo volume parece uma extensão do primeiro; e os dois parecem preparar o palco para o que virá no último da trilogia (este sim parece que vai ser bombástico).

Pois bem: Golden Fool começa logo depois do final de Fool’s Errand (os dois livros ocupam o espaço de mais ou menos um ano). Depois de resgatar Dutiful, o rapaz precisa se preparar para sua cerimônia de noivado com a narcheska Elliania das Out Islands, uma menina de onze anos pertencente de um dos clãs mais fortes daquelas ilhas. Mas Fitz descobre que a garota esconde um grande segredo que parece envolver forças bem maiores que ela. Ao mesmo tempo, a tensão entre os sequestradores de Dutiful e a coroa continua, dessa vez ameaçando Fitz diretamente (lembrando que ele cortou o braço do líder deles – pois bem, o cara continua vivo e está MUITO puto).

Tudo isso mais uma visita inesperada – ninguém menos que uma delegação de Bingtown (!!!). Não vou mentir: foi uma das partes mais legais do livro quando nomes conhecidos de Liveship Traders começaram a surgir em cena. Infelizmente, eles não ficam por muito tempo, e só uma personagem tem chance de falar com o Bobo – ou melhor, Lorde Golden – e confrontá-lo sobre seu papel como Amber. Mas é um evento que tem grande importância na trama do livro, e sinto que o pessoal de Bingtown aparecerá novamente. Afinal, a oferta que eles apresentam a Kettricken é meio importante (e envolve um dragão!). Também ficamos sabendo novidades de Althea, Brashen, Paragon e companhia (e é por isso que você definitivamente deve ler Liveship Traders!).

Falando em Bobo, nesse livro Hobb continua explorando a ambígua identidade de gênero do personagem de um jeito que nunca vi outro livro de fantasia nem chegar aos pés. É maravilhoso e inovador e todo mundo devia conhecer esse personagem. Pena que o Fitz não é tão esclarecido.

A rainha Kettricken felizmente tem um papel mais ativo nesse livro. Ela tem uma cena em especial com Fitz que é de cortar o coração, e a amizade deles é tão bonita que você até esquece que ela não sabe que ele é o pai biológico do seu filho (ah, essa história nunca vai deixar de ser bizarra…). Kettricken mostra sua diplomacia e força em três frentes: na questão da população de Old Bloods (e da seita de Piebalds que raptou seu filho); lidando com a delegação da noiva de Dutiful; e, por último, botando rédeas em Chade, que está cada vez mais faminto por poder. Tenho que dizer que o antigo mestre de Fitz tornou algumas partes do livro meio maçantes para mim, especialmente devido a uma nova obsessão com o Talento e ao fato de nunca querer escutar Fitz. Este, pelo menos, apesar de seu comportamento deplorável em outros campos, está se tornando mais independente de Chade e consegue ver as falhas do ex-mentor.

A subtrama com Jinna já deu o que tinha que dar, resultando num caso estranho que é logo esquecido – e Starling, então, sempre que parece se tornar um pouquinho mais compassiva, volta a mostrar um lado manipulador e egoísta. Uma pena, porque eu gostava da personagem e agora quero vê-la longe (como o próprio Fitz). A pobre Laurel praticamente some de cena, e não parece que vai voltar. E adoro Hap, mas ele passa boa parte do livro agindo como um adolescente rebelde, o que por sua vez leva Fitz a ter crises, pensando em como é um péssimo pai e não pode fazer nada para evitar que o garoto se perca na vida. A moleza de Fitz é em parte uma reação à sua própria criação sob a disciplina férrea de mentores diversos, mas suas reclamações pessimistas quanto a esse problema me deixaram louca. Mesmo assim, pelo menos Hap cresce um pouco até o fim do livro.

Quem salva esse volume é Dutiful, que se tornou um dos meus personagens preferidos. Agora que superou a fase angustiada pela qual passou no livro anterior, está se mostrando inteligente e corajoso – e até um pouco impetuoso e nervosinho, como o pai –, mas, ao mesmo tempo, ainda é muito ingênuo devido à idade. O relacionamento dele com Fitz é bem legal, uma vez que ele espera que Fitz seja não apenas mentor e pai substituto, mas também amigo – altas expectativas que resultam em conflitos, óbvio. O garoto não está mais tão desesperado quanto no livro anterior e, para resolver as coisas com ele, Fitz é forçado a se abrir um pouco mais.

Outro personagem fascinante é Thick, um criado de Chade que tem (o que parece ser) síndrome de Down, e que é uma das pessoas mais poderosas no Talento que Fitz ou Chade já conheceram. Naturalmente os dois espiões pretendem treiná-lo, mas não é nada fácil ganhar a confiança do rapaz. Hobb consegue escrevê-lo com muita sensibilidade e humor, revelando-o como uma pessoa complexa e mostrando novamente como é possível inserir diversidade na fantasia. Já falei que todo mundo tinha que ler essa série?

Há também sinais… instigantes de que Nettle, filha de Fitz e Molly, será importante no futuro. A menina continua aparecendo nos sonhos de Fitz, e parece que a antiga ambição de Chade de que ela fosse treinada no Talento se provará inevitável. Também fiquei emocionada com aparições de Burrich (um dos meus personagens preferidos da série!) e menções à querida Patience (de quebrar o coração, porque nada na vida do Fitz é alegre).

O livro não tem um grande clímax nem uma missão que oriente a trama como o primeiro da trilogia: depois do que parece ser o ponto alto da obra, ainda há muitas páginas com uma subtrama menos interessante e que pareceu se arrastar um pouco. No entanto, achei toda a questão política envolvendo usuários da Wit e suas respectivas facções muito bem construída. E outra coisa ótima: ficamos sabendo um pouco mais sobre a sociedade das Out Islands, que é nada menos que matriarcal! Espero ler mais sobre eles no próximo livro, porque já estou fascinada.

E mencionei que quis estrangular o Fitz? (Tudo bem, depois de refletir com carinho, cheguei a entender os motivos da raiva do Fitz um pouco melhor. Nem tudo é culpa dele. Mas ele ainda foi um cretino.) Enfim, além de tudo que sofri nesse livro, fui avisada que o final da trilogia te destrói emocionalmente. Mal posso esperar.

*

Golden Fool
Autora: Robin Hobb
Editora: Bantam Books
Ano de publicação: 2003
712 páginas

*

Resenhas da série Realm of the Elderlings:

Trilogia Farseer/Saga do Assassino: O aprendiz de assassinoO assassino do reiA fúria do assassino

Trilogia Liveship Traders: Ship of MagicMad ShipShip of Destiny

Trilogia The Tawny Man: Fool’s ErrandGolden FoolFool’s Fate

Rain Wild Chronicles: Dragon KeeperDragon Haven – City of Dragons – Blood of Dragons

Trilogia The Fitz and the Fool: Fool’s AssassinFool’s Quest

 

Citações preferidas

“Buckkeep não era um lugar ruim”, eu resmunguei.

“Mas mudanças provam que você ainda está vivo. Mudanças muitas vezes medem nossa tolerância para pessoas diferentes de nós. Podemos aceitar suas línguas, seus costumes, suas roupas, suas comidas em nossas vidas? Se podemos, então formamos laços, laços que tornam as guerras menos prováveis. Se não podemos, se acreditamos que devemos fazer as coisas como sempre as fizemos, então devemos ou lutar para permanecer como somos, ou morrer.”

*

“[…] Você procura um conforto falso quando exige que eu me defina para você com palavras. Palavras não contêm nem definem qualquer pessoa. Um coração pode, se estiver disposto. Mas temo que o seu não esteja. Você sabe mais sobre o todo de mim do que qualquer outra pessoa que respira, mas persiste em insistir que tudo isso não pode ser eu. O que você gostaria que eu cortasse e deixasse para trás? E por que eu deveria me truncar a fim de agradá-lo? Eu nunca pediria o mesmo de você.”

*

“Eu amo você. […] Eu não coloco nenhum limite a esse amor. Nenhum. Você me entende?”

*

“Os céus do mundo sempre foram destinados a ter dragões. Quando eles não estão lá, os humanos sentem sua falta. Alguns nunca pensam neles, é claro. Mas algumas crianças, desde muito pequenas, erguem os olhos para o céu azul de verão e esperam algo que nunca aparece. Porque elas sabem: algo que deveria estar lá desvaneceu e sumiu. Algo que temos que trazer de volta, você e eu.”

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