[Semana Philip K. Dick] Um reflexo na escuridão

Sinopse: reflexo na escuridão Arctor/Fred, um agente disfarçado, é obrigado a esconder sua verdadeira identidade tanto dos que convivem com ele no dia a dia dos usuários de substâncias ilícitas quanto de seus colegas policiais. No entanto, trabalhar como agente infiltrado para a divisão de narcóticos pode cobrar seu preço: ele acaba viciado em uma droga psicotrópica perigosa e muitas vezes letal, a Substância D.

Fonte: Livraria Cultura

 

 

Se eu pudesse nomear apenas um talento de Philip K. Dick, ele seria o de te deixar bem aflito.

Um reflexo na escuridão é minha segunda leitura do autor, cujo título já prenuncia desgraça e é inspirado em um versículo da Bíblia:

“Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.”

(1Co 13:12)

Logo na primeira página já nos deparamos com uma situação aflitiva: Jerry Fabin vê sua casa, seu cão e seu corpo infestados por piolhos afidídeos que ninguém mais vê – exceto seu amigo, Charles Freck. Coincidentemente, ambos fazem uso da Substância D, a qual também chamam de “morte lenta”.

O protagonista, Bob Arctor, é um agente secreto da divisão de narcóticos, e durante o serviço responde pelo codinome Fred. Quando infiltrado entre os usuários de drogas, Bob possui uma aparência normal. Em ocasiões oficiais como agente secreto, inclusive entre seus pares, ele usa um traje borrador: uma mortalha que projeta fragmentos de traços fisionômicos de pessoas reais, combinados aleatoriamente. Assim, nenhum dos seus colegas de departamento conhece sua verdadeira aparência, e, para garantir que nenhum deles saiba sua identidade, Fred inclui suas impressões sobre Arctor (além de Jerry, Charles e Donna) em seus relatórios oficiais. Confuso? Para Bob também é.

Seu objetivo enquanto agente infiltrado é conhecer a hierarquia dos traficantes cada vez mais a fundo, para encontrar algum peixe grande o bastante para prender ou, eventualmente, descobrir quem seria o grande fornecedor de Substância D. Supostamente seria apenas um, já que os estudos da divisão de narcóticos indicam que é uma droga sintética de altíssimo custo, e comercializada a um preço baixo demais para permitir concorrência de fornecedor. Para não levantar suspeitas entre os traficantes, Bob encomenda grandes quantidades de tabletes de morte. Para não levantar suspeitas entre seus amigos, ele faz uso de alguns desses tabletes. Para não levantar suspeitas entre os agentes, pretende entregar boa parte desses tabletes para a divisão de narcóticos.

A obsessão de Jerry com seus afidídeos imaginários preocupa seus amigos e os leva a entregarem-no para a Novos Rumos, uma clínica de reabilitação para usuários de narcóticos – em especial da Substância D, que provoca danos irreversíveis ao cérebro, os quais podem incluir uma rivalização dos dois hemisférios, que passam a agir de maneira independente.

Além de uma crise de fornecimento da droga, os personagens são forçados a encarar os efeitos que ela têm sobre sua saúde e sua vida – e, no caso de Bob, sobre sua identidade.

A personagem feminina que mais aparece é Donna, uma traficante de pequeno porte, a quem Bob insiste em chamar (e é seguido pelos amigos) de “sua garota”, embora nada tenha acontecido entre eles. Essa é uma personagem que parece quebrar um pouco o padrão que Dick usa em suas personagens femininas (sobre o qual a Bárbara discorre aqui), embora haja descrições problemáticas. Mas para me aprofundar nisso, eu teria que dar spoilers.

A leitura é aflitiva a cada linha, sem deixar de ser fluida. Dick trabalha muito bem com a casualidade em acontecimentos meio horríveis (e parabenizo o tradutor por manter bem esse tom), e faz o leitor empatizar com as aflições dos personagens, mesmo quando eles tomam atitudes desprezíveis. Como em toda obra de Dick, este livro é permeado por paranoia e, dependendo da sua sensibilidade, o desespero dos personagens se infiltra no leitor. E como outros livros do autor, o impacto deste foi transposto para as telas no filme O homem duplo, que eu ainda não tive a oportunidade de ver, mas que parece bem psicodélico.

A edição da Aleph possui a capa maravilhosa, que fica linda na estante com outros Dicks da coleção, e extras que tanto amo. São eles: uma nota do autor que me deixou de estômago revirado de tristeza, uma nota à edição brasileira, um artigo sobre neuropsicologia e neuropsicose no romance, escrito por Vaughan Bell, e a transcrição de uma entrevista de 1976 com Dick.

Essa é uma leitura densa de um autor perturbado, que certamente vai expandir sua mente para horizontes – alguns deles que você preferiria manter inexplorados.

*

Um reflexo na escuridão
Autor: Philip K. Dick
Tradutor: Daniel Lühmann
Editora: Aleph
Ano de publicação: 1977
Ano desta edição: 2016
349 páginas

Citações favoritas

Por sua constância, a dor tinha se tornado insuportável; ele nunca tinha se acostumado a ela, e sabia que jamais se acostumaria.

*

Ela só não se ligou ainda em quem eu sou, que ela me conhece. Deve estar assustada, acho, pensando que vou forçá-la a alguma coisa. Você tem que tomar cuidado quando encontra uma mina estranha na rua, pensou, elas andam todas preparadas agora. Já passaram por muita coisa.

*

Todos os orelhões do mundo eram grampeados. Ou, se não o eram, era porque um pessoal de algum lugar ainda não tinha chegado ate eles.

*

“Eu não posso sair daqui”, disse Mike. “Eu voltaria para as drogas se saísse. Tenho muitos camaradas lá fora. Eu voltaria para a esquina, ficaria traficando e injetando até voltar para a prisão por mais vinte anos. Ei… você sabe que estou com 35 anos e vou me casar pela primeira vez? Você já conheceu a Laura? Minha noiva?”

*

Em vão, pensou ele, tentar pegar um dos agentes federais que estão envolvidos nisso. Eles são furtivos. Sombras que desaparecem quando o trabalho manda que façam isso. Como se eles nunca tivesse estado lá, para começo de conversa. O Arctor estava apaixonado por um fantasma de autoridade, pensou ele, uma espécie de holograma que poderia ser atravessado por um homem comum, saindo sozinho do outro lado. Sem jamais ter conseguido colocar as mãos de fato na garota em si.

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