[Semana Philip K. Dick] Realidades adaptadas

realidades_frente_altaSinopse:

Cinema e literatura sempre andaram de mãos dadas. E quando o assunto é ficção científica, nenhum autor contemporâneo foi mais roteirizado do que Philip K. Dick, nem mesmo mestres do gênero, como Isaac Asimov e Arthur C. Clarke. Pouco conhecido no Brasil por sua obra literária, Dick é um sucesso entre as plateias de cinema, que vai muito além de Blade Runner: o caçador de androides, ícone cult dos anos 1980 inspirado em um de seus romances. A fim de prestar o devido reconhecimento a esse extraordinário autor, Realidades adaptadas reúne, em uma edição inédita no mundo, os contos de Philip K. Dick que foram adaptados para a sétima arte, levando ao grande público os textos originais que inspiraram roteiristas e diretores a fazer seus filmes.

Fonte: Aleph

“Ele acordou – e não estava em Marte.” Essa frase impactante inicia o primeiro conto do livro e já dá o tom da obra de Philip K. Dick, em que nada é o que aparenta ser.

PKD é conhecido por enganar o leitor, escrevendo tramas com plot twists surpreendentes que fazem questionar os limites entre realidade e ficção, e os contos de Realidades adaptadas, reunidos pela primeira vez nesta coletânea, são um belo exemplo desse padrão. Todos eles foram adaptados para o cinema, em longa-metragens que nem sempre fazem jus à qualidade e à loucura da história original.

Os contos e suas respectivas adaptações são:

“Lembramos para você a preço de atacado” – O vingador do futuro
“Segunda variedade” – Screamers
“Impostor” – Impostor
“O relatório minoritário” – Minority Report: a nova lei
“O pagamento” – O pagamento
“O homem dourado” – O vidente
“Equipe de ajuste” – Os agentes do destino

Não tive a oportunidade de assistir a todos, mas O vingador do futuro, de 2012, por exemplo, não chega aos pés de “Lembramos para você a preço de atacado”. O conto não tem apenas um nome incrível. Ele conta a história de um homem que quer comprar uma memória falsa de uma viagem a Marte, a ser implantada em seu cérebro, e o desenvolvimento da trama é de cair o queixo. O final surpreendente já me deixou extasiada para conhecer o resto da obra do autor – meu único contato com PKD fora anos atrás, com Ubik (cuja resenha sai quarta-feira!), de que não gostei tanto.

Meu conto favorito, sem dúvidas, foi “Segunda variedade”. Ambientado num pós-guerra no qual máquinas com inteligência artificial ajudaram os Estados Unidos a derrotar a União Soviética, esse conto deixa o leitor muito tenso. Um mistério surge ao longo da história e eu, preparada para as reviravoltas prometidas por PKD, fiquei completamente paranoica tentando descobrir a trama, adivinhar um traidor, enfim, prever o final – que não decepcionou.

Alguns contos são um pouco mais fracos, como “O pagamento”, cuja estrutura traz algumas repetições que remetem a contos de fadas, e “O homem dourado”, o mais machista de todos. É preciso alertar ao leitor que, assim como a grande maioria dos venerados autores clássicos da ficção científica, PKD não faz questão de respeitar as mulheres em suas tramas. Seria melhor se ele não as incluísse em momento algum (como Asimov tantas vezes fez). Em vez disso, há sempre alguma secretária ou esposa que serve apenas para atrapalhar planos dos homens, para ouvi-los explicar suas reflexões ou para servir de enfeite. Todos ou quase todos os contos desse livro têm alguma menção a decote ou a seios (inclusive uma descrição libidinosa de uma garotinha arfando, que me deixou bem perturbada), mas o auge para mim foi um conto no qual a humanidade é condenada à extinção graças à burrice e à falta de racionalidade das mulheres. É claro que tudo isso foi escrito em outra época e por um homem especialmente perturbado, mas é no mínimo sintomático que uma comunidade mundial de fãs divulgue e venere sua obra sem sequer notar tais problemas.

Essa é a minha crítica mais dura ao livro, que me deixou bem bipolar – quando eu não estava problematizando o machismo, estava correndo em círculos de empolgação. Indico a todos os que queiram ter um gostinho do que é o estilo paranoico e surpreendente de PKD.

*

Realidades adaptadas
Autor: Philip K. Dick
Tradutora: Ludimila Hashimoto
Editora: Aleph
Ano de publicação: 1953-1966
Ano desta edição: 2012
304 páginas

 

Citação favorita/Resumo da obra:

Com uma certeza absoluta e inabalável, ele não acreditou.

2 respostas em “[Semana Philip K. Dick] Realidades adaptadas

  1. Eu conheci o PKD ano passado ao ler Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? e um livro com um título desses só podia ser incrível. O segundo livro do autor que li foi Realidades Adaptadas e novamente o autor me cativou. Meus contos favoritos foram: Lembramos para você a preço de atacado, Segunda variedade, O relatório minoritário e Equipe de ajustes. Os demais contos, embora fracos, não chegam a ser ruins (exceto O homem dourado – esse eu achei ruinzinho). Não assisti quase nenhuma das adaptações, mas pretendo assisti-las em breve.
    Os títulos dos romances/contos do autor são muito sagazes, concordo com você! E eu senti uma cadência narrativa nos contos que lembra muito os romances de suspense e investigação, deixando nós, leitores, aflitos e tentando desvendar o desfecho de tudo, o que dá um ritmo empolgante a leitura.
    E realmente, desde o meu primeiro contato com o PKD, percebi o quão machista ele era. Pois de fato o autor usa as personagens femininas sempre na mesma dinâmica: elas atrapalham o protagonista e são inferiorizadas, e a maioria dos personagens casados estão sempre reclamando das esposas que se tornam responsáveis por suas infelicidades. Embora haja esse problemão nos livros do autor, não dá pra negar sua importância e contribuição para o gênero da ficção científica. Adorei a semana temática que vocês estão propondo e espero que sigam com esse “formato” trazendo semanas com postagens temáticas.

  2. Pingback: [Semana Philip K. Dick] Um reflexo na escuridão | Sem Serifa

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