[Resenha] Uprooted

Esta resenha foi feita com base na edição da Del Rey. A tradução de trechos foi feita por mim.

uprootedSinopse:

Agnieszka ama seu vale natal, seu vilarejo tranquilo, com as florestas e o rio brilhante. Mas o Bosque corrupto fica na fronteira, cheio de poder malevolente, e sua sombra se projeta sobre a vida dela. Seu povo depende do feiticeiro frio e determinado conhecido apenas como o Dragão para manter seus poderes em cheque. Mas ele exige um preço terrível pela ajuda: uma jovem entregue para servi-lo por dez anos, um destino quase tão terrível quanto cair sob o poder do Bosque.

Fonte: Livraria Cultura

Uprooted foi o romance vencedor do prêmio Nebula 2015, num ano em que muitas mulheres saíram vencedoras. Como vinha altamente recomendado, apenas comprei o livro, sem procurar saber muito sobre a história. E não posso explicar a premissa melhor do que o sucinto primeiro parágrafo:

Nosso Dragão não devora as garotas que leva, não importa o que dizem as histórias fora do nosso vale. Nós as ouvimos, às vezes, de viajantes de passagem. Eles falam como se estivéssemos fazendo sacrifício humano e como se ele fosse um dragão real. É claro que isso não é verdade: ele pode ser um feiticeiro e imortal, mas ainda assim é um homem, e nossos pais se juntariam para matá-lo se ele quisesse devorar uma de nós a cada dez anos. Ele nos protege contra o Bosque e nós somos gratos, mas não tão gratos.

A cada dez anos, o Dragão pega uma garota do vale e a leva para a sua torre isolada. Ele sempre escolhe as meninas mais belas, talentosas e graciosas, e Agnieszka tem certeza de que dessa vez ele levará sua melhor amiga Kasia, que vem se preparando para o momento a vida toda. Certamente não será ela, desajeitada, desorganizada, sem habilidades femininas, a diferentona. Mas como Agnieszka é a narradora, nós sabemos que, claro, ela será a escolhida.

A partir desse momento, ela vai morar com o recluso Dragão, um poderoso mago que mantém sob controle o poder sombrio do Bosque – que espalha sua corrupção para todos que o tocam, e cujas criaturas raptam habitantes dos vilarejos próximos. A garota descobre então que é uma bruxa e, quando fica sabendo que Kasia foi levada para dentro do Bosque, vai atrás dela, apesar do aviso do Dragão de que nada pode ser feito pela garota. Então a trama deslancha pra valer, uma vez que o Bosque – consciente e malévolo – revida às ações da jovem bruxa.

O mundo tem forte inspiração eslava, desde os nomes e a sonoridade dos feitiços até o folclore (uma das bruxas lendárias desse universo chama-se Jaga, uma versão da Baba Yaga). O Bosque é realmente assustador, invadindo o corpo das pessoas com sua corrupção, enlouquecendo-as e tramando em silêncio para destruir tudo ao seu redor. O legal é que até o final do livro há uma explicação para seu surgimento e sua maldade.

A magia é “soft” – quase tudo pode ser feito, com o feitiço certo – mas a autora nos dá alguns pontos de referência sobre o que pode ou não ser usado contra o Bosque, de modo que existem algumas regras. Inclusive, há um feitiço principal usado repetidamente contra o poder do Bosque, e a primeira vez em que ele é realizado é uma das minhas cenas preferidas. A prosa de Novik é belíssima, especialmente nas descrições da magia, que são meio delirantes e oníricas, cheias de metáforas visuais.

A evolução de Agnieszka de garota de vilarejo para bruxa é bem feita, e a personagem enfrenta um dilema sobre o lugar ao qual pertence: como bruxa, não pode voltar para seu vilarejo, mas também não tem um lugar junto ao Dragão, nem se adequa na corte. Na parte em que vai para a capital do reino, ela me irritou um pouco: apesar de vir de um vilarejo pequeno, nada justifica a estupidez que demonstra ao se relacionar com os nobres.

Já Kasia me surpreendeu: achei que ela desapareceria depois que Agnieszka foi escolhida, mas tem um papel central na trama e uma evolução bem bacana. É uma garota cheia de “qualidades femininas”, mas ela não é mostrada como superficial ou fútil. Pelo contrário: é uma das personagens mais corajosas. A amizade entre as duas não está livre de conflitos (e em um momento eles ficam literalmente expostos às duas, durante um feitiço), mas também é muito forte (falo mais sobre isso na parte de spoilers).

A dinâmica entre Agnieszka e o Dragão é deliciosa. A personalidade independente da garota cria conflitos com o Dragão, que odeia bagunça e não entende como ela realiza feitiços sem seguir livros ou a tradição. Os dois usam a magia de jeitos diferentes, mas que se complementam e se unem, e a parte em que eles estão na torre aprendendo a lidar um com o outro e ela descobre seus poderes mágicos foi a minha preferida da obra.

Por isso mesmo achei o começo da obra mais envolvente: não conseguia parar de virar as páginas nesse primeiro terço da história. Já as partes seguintes achei menos interessantes: o trecho na corte mal dá tempo para Agnieszka se situar, de modo que alguns episódios ali se tornam irrelevantes, enquanto as batalhas mais ao final me pareceram se alongar demais. De modo geral, achei o livro um pouco maior do que precisava ser. As descrições de magia, embora muito bem escritas, às vezes ficavam cansativas. E se quiser saber outro problema que tive, referente ao romance principal do livro, leia o parágrafo com spoilers.

[SPOILERS] Quando comecei a ler, por ser tão elogiado, achei que o livro ia me surpreender subvertendo alguns clichês: no caso, fugindo de um romance entre Agnieszka e o Dragão. Além disso, suspeitei por um tempo que a autora estava caminhando no sentido de fazer Agnieszka e Kasia um casal, pois as descrições da protagonista sobre a amiga são consideravelmente românticas e ela é extremamente dedicada a ela. Por isso, por mais que gostasse do Dragão e da dinâmica dele e de Agnieszka, fiquei decepcionada quando vi que a história seguiria o padrão de romances que já vimos quinhentas vezes, ainda mais por manter o clichê do personagem rude/solitário/poderoso que “muda” com a chegada da mocinha (um século mais jovem que ele, diga-se por sinal), e por quem ela se apaixona sem que ele realize um grande esforço para se tornar mais agradável (de fato, ele continua o mesmo chato até o fim). [FIM DOS SPOILERS]

Uprooted é um belo romance, com uma trama bem pensada e personagens bem construídos, que deve agradar especialmente ao público YA. Mas, para um conto de fadas moderno, deixou algo a desejar e não me envolveu tanto quanto eu esperava.

*

Uprooted
Autora: Naomi Novik
Editora: Del Rey
Ano de publicação: 2015
458 páginas

 

Citações preferidas

E eu não tinha idade o bastante para ser sábia, então eu a amava mais, não menos, porque sabia que ela seria tirada de mim em breve.

*

“Se não quer matar um homem, não o golpeie na cabeça repetidamente.”

*

“Obrigada… Sarkan.”

O nome dele tinha o sabor de fogo e asas, de fumaça espiralada, de sutileza e força e do sussurro crescente de escamas.

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5 respostas em “[Resenha] Uprooted

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