[Resenha] The Fifth Season

Esta resenha foi feita com base na edição da Little, Brown. A tradução dos trechos foi feita por mim.

fifthSinopse:

É assim que o mundo acaba… pela última vez. Uma estação de finais se iniciou. Ela começa com a grande fissura rubra através do coração do único continente do mundo, expelindo cinzas que bloqueiam o sol. Começa com morte, com um filho assassinado e uma filha perdida. Começa com traição e feridas dormentes emergindo para infeccionar. Esta é a Quietude, uma terra familiarizada com a catástrofe, onde o poder da terra é empunhado como uma arma. E onde não há misericórdia.

Fonte: Little, Brown

The Fifth Season foi o ganhador do prêmio Hugo de melhor romance em 2015 – e embora ganhar prêmios nem sempre signifique tudo isso (eu já me decepcionei antes), terminei a leitura convencida de que esse foi um prêmio inteiramente merecido.

A obra se passa em um mundo chamado de Stillness: algo como “Imobilidade”, “Quietude”, o que é bem irônico considerando que sua principal característica é que, de tempos em tempos, a terra se quebra com terremotos, explosões de gases letais, entre outras coisas divertidas, e o mundo essencialmente acaba. Esses períodos são as tais das “fifth seasons” (quintas estações), e a vida das pessoas é totalmente voltada para sobreviver a eles. As cidades, chamadas de “comms” (de “comunidades”), dividem-se em castas de utilidade, em que cada pessoa tem a sua função, e no caso de um desastre natural, a tradição diz claramente e sem misericórdia: dispense os fracos, faça tudo para sobreviver.

Nesse cenário, além de pessoas normais, existem os orogenes (ou roggas, na gíria pejorativa): pessoas que sentem os movimentos da terra e podem controlá-los… ou dispará-los. Acontece que as pessoas normais temem e odeiam essas pessoas – e por isso os orogenes são cidadãos de segunda classe. Quando descobertos, podem ser expulsos ou linchados nas comunidades, e sua única opção para usar seus poderes é ir para o Fulcrum, uma organização que os treina para prestar serviços e principalmente para controlar seus poderes e não causar problemas às pessoas normais. Nesse lugar, eles são acompanhados por “Guardiões”, pessoas que podem anular seus poderes e que não hesitam em feri-los ou matá-los para o bem geral.

A obra segue três mulheres: Damaya, uma garota orogene que é levada para o Fulcrum; Syenite, uma aprendiz do Fulcrum que sai em uma missão com um orogene mais velho e insanamente poderoso; e Essun, que é obrigada a fugir de sua comunidade quando o marido descobre que ela e os filhos são oregenes – em meio a uma quinta estação, ela vai caçá-lo pela terra destruída em busca de vingança. A narrativa é feita, nos primeiros dois casos, em terceira pessoa limitada, e no caso de Essun, em segunda pessoa. (Sim, você leu certo.) Há um motivo para isso, mas é um spoiler gigantesco.

Tudo isso só para dar uma ideia da história, porque o que há de construção de mundo nesse livro deve satisfazer os leitores mais exigentes. Todos os aspectos da vida na Stillness são regulados pela existência das quintas estações, criando um mundo extremamente verossímil e complexo (há anexos com mais informações sobre as estações anteriores e a história do mundo, e são fascinantes). Também é legal que os habitantes da Stillness possuem eletricidade, ruas asfaltadas e outras tecnologias que fogem do padrão de fantasia medievalista genérica. Além disso, os orogenes (e outros seres não humanos), seus poderes e as regras que os regem vão sendo explicados ao longo do livro. A exposição de tudo isso nunca é cansativa, e decorre da história das personagens.

Mas o que mais me impressionou foi a força da temática que permeia toda a história: preconceito e discriminação. O livro é dedicado “àqueles que têm de lutar pelo respeito que é dado a todos os outros sem questionamento”, o que já mostra que Jemisin não veio pra brincar. Os orogenes são escravos: suas vidas não significam nada exceto por sua utilidade, eles são forçados a obedecer sem questionar, e feridos ou até mortos sem consequências, porque as pessoas normais não os consideram gente. (Aliás, avisos de gatilho para estupro e abuso sexual: há cenas fortes.) Quando falamos que é essencial dar espaço para a representatividade na literatura, é porque pessoas diferentes trazem suas experiências para a escrita e contam suas histórias de um modo autêntico e poderoso. Não é coincidência uma autora negra ter escrito este livro. Jemisin reconhece que o racismo não é uma questão individual, mas sistemática, e mostra como o ódio generalizado emerge na forma de violência.

A obra também é um tapa na cara da turminha que odeia diversidade. Jemisin a insere por toda parte: os protagonistas são negros, há um relacionamento poliamoroso, um personagem homossexual e uma personagem trans – e nada disso importa pra ninguém, já que o mundo está literalmente acabando e eles têm preocupações maiores.

Eu descobri o plot twist lá pela metade do livro – com certeza alguns entenderão antes ou depois –, mas isso só melhora a experiência de leitura, e ainda há algumas boas surpresas no final (que me fizeram reler o começo, dessa vez entendendo, e admirar ainda mais a construção da obra). Embora a história leve um tempo para engrenar (no começo o leitor fica mais focado em entender o que raios está acontecendo), logo me vi interessada pelo destino das personagens.

A obra é um espetáculo de narrativa, construção de mundo e evolução de personagens. Recomendo fortemente a fãs de fantasia épica – e a boa notícia é que a editora Morro Branco anunciou que vai publicá-lo no Brasil! Preparem o bolso, porque vale a pena.

*

The Fifth Season
Série: The Broken Earth (v. 1)
Autora: N. K. Jemisin
Editora: Orbit
Ano de publicação: 2015
500 páginas

 

Citações preferidas

Isto é o que você deve lembrar: o fim de uma história é só o começo de outra. Tudo isso já aconteceu antes, afinal. Pessoas morrem. Ordens antigas passam. Novas sociedades nascem. Quando dizemos “o mundo acabou”, em geral é mentira, porque o planeta está perfeitamente bem.

Mas é assim que o mundo acaba.

É assim que o mundo acaba.

É assim que o mundo acaba.

Pela última vez.

*

[…] ninguém fala de objetos celestiais, embora os céus estejam tão ocupados aqui quanto em qualquer outro lugar do universo. Em grande parte, isso é porque a maior parte da atenção das pessoas é direcionada para a terra, não o céu. Elas percebem o que há lá: estrelas e o sol e o cometa ou estrela cadente ocasional. Elas não percebem o que falta.

Mas como poderiam? Quem sente a falta do que nunca, jamais, sequer imaginou? Isso não seria a natureza humana. Que sorte, então, que há mais povos neste mundo do que apenas a raça humana.

*

“Eu nunca quis muito da vida. Só ser capaz de vivê-la, na verdade. Não sou como você, Syen. Eu não preciso me provar. Eu não quero mudar o mundo, nem ajudar as pessoas, nem ser nada de especial. Eu só quero… isto.”

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