[Resenha] Jardins da lua

jardinscapaSinopse:

Desde pequeno, Ganoes Paran decidiu trocar os privilégios da nobreza malazana por uma vida a serviço do exército imperial. O que o jovem capitão não sabia, porém, era que seu destino acabaria entrelaçado aos desígnios dos deuses, e que ele seria praticamente arremessado ao centro de um dos maiores conflitos que o Império Malazano já tinha visto.

Paran é enviado a Darujhistan, a última entre as Cidades Livres de Genabackis, onde deve assumir o comando dos Queimadores de Pontes, um lendário esquadrão de elite. O local ainda resiste à ocupação malazana e é a joia cobiçada pela imperatriz Laseen, que não está disposta a estancar o derramamento de sangue enquanto não conquistá-lo.

Porém, em pouco tempo fica claro que essa não será uma campanha militar comum: na Cidade do Fogo Azul não está em jogo apenas o futuro do Império Malazano, mas estão envolvidos também deuses ancestrais, criaturas das sombras e uma magia de poder inimaginável.

Fonte: Editora Arqueiro

Se você acompanha os lançamentos de fantasia e/ou participa de grupos do gênero nas redes sociais, é bem capaz que tenha ouvido falar de Jardins da lua, primeiro volume da série O Livro Malazano dos Caídos. Isso porque tem gente que não para de falar dele (vocês sabem quem são) e o hype estava altíssimo para o lançamento da edição brasileira, que vai ter uma leitura conjunta no Facebook, começando dia 15 de abril. Então, como não dava pra fugir dos papos sobre o livro, resolvi ler também.

Mano do céu.

Dizem por aí (vocês sabem quem são) que Malazan é uma das melhores séries de fantasia das últimas décadas, e embora eu só tenha lido o primeiro volume, estou pronta a apoiar essa afirmação. Também se fala muito sobre a dificuldade de ler esses livros, em parte pela linguagem (questão agravada pelo fato de que até recentemente só havia a opção de ler em inglês), mas principalmente por ser uma narrativa exigente, que joga o leitor num mundo complexo e tem uma alta curva de aprendizagem.

Segundo o próprio o autor Steven Erikson, no prefácio da obra:

“Ao ler Jardins da lua, as pessoas vão odiar ou amar meu trabalho. Não há meio-termo. […] Os livros dessa série não são para leitores preguiçosos. Não é possível apenas passar por eles. Para piorar, o primeiro romance começa no meio do que parece uma maratona: ou você entra correndo e consegue se manter em pé ou então fica para trás.”

Ele continua, porém: “como leitor, como fã, nunca me importei em ficar perdido, pelo menos por um tempinho, às vezes até por um tempão. Se outros elementos me levavam adiante, tudo bem”. Eu também, Steven, eu também. E desde o começo, já senti uma afinidade enorme com a escrita e o mundo da série. Esse é um elemento bastante subjetivo para uma resenha, mas a verdade é que alguns livros são assim – desde os primeiros parágrafos você sente que vai gostar deles, e isso aconteceu comigo. Também ajuda o fato de este ser exatamente o tipo de série que eu adoro: fantasia épica, contada através do ponto de vista de vários personagens – verossímeis e complexos – e unindo diferentes cenários e magias fascinantes.

Também vale notar que facilidade e dificuldade não indicam necessariamente a qualidade do livro. Muitas vezes obras mais difíceis de ler – livros de outras épocas, culturas ou estilos a que não estamos acostumados – nos abrem portas para universos de que não esperávamos gostar tanto, e embora exijam maior dedicação e gasto de tempo, é um esforço que ficamos felizes de ter realizado.

Jardins da lua é assim. O livro é dividido em 7 partes, e passar das duas primeiras é o mais complicado: são quando os dois núcleos principais da história – o do Império Malazano e o da cidade de Darujhistan, respectivamente – são apresentados, assim como uma série de personagens. A partir do terceiro livro, os dois núcleos vão se desenvolvendo em paralelo, e a trama fica cada vez mais emocionante.

Se você está achando essa resenha confusa, é porque ela reflete o livro. Brincadeira – eu só não quero dar muitas informações sobre a história, e também não acho que seja tão complicado assim: é perfeitamente possível entender a motivação dos personagens principais e aos poucos ir compreendendo a situação política do mundo e como funciona a magia. Inclusive, ir descobrindo como tudo funciona é grande parte da graça da leitura. (E se você gosta de trapacear, tem uma lista de personagens no começo do livro.)

Sem entrar em detalhes sobre a trama, então, é difícil enumerar tudo de que gostei. Magia? Complexa, original, épica. Criaturas não humanas? Verdadeiramente ameaçadoras, quando não sarcásticas e hilárias. Trama e narrativa? Magistrais, com um entrelaçamento perfeito das histórias de diferentes personagens, especialmente na última parte do livro, em que é impossível abaixar o livro.

Quanto aos personagens, eu morreria por quase todos (e daí que são fictícios?). É difícil apontar um destaque porque ao longo da obra você se afeiçoa a vários deles, e mesmo os “antagonistas” (dependendo do seu ponto de vista!) também são interessantíssimos. Como dizem as orelhas da edição, escritas pelo Eduardo do INtocados, são as pessoas que movem a trama, e é bem verdade. Esse foco nos personagens (não só nos humanos, aliás) é algo que transparece não só nos momentos dramáticos, mas também no fato de haver bastante humor no livro, sempre baseado nas personalidades de cada um e nas interações entre eles, o que foi uma surpresa agradável.

No entanto, um dos meus (poucos) problemas com o livro envolve personagens, especificamente [SPOILER] o romance entre Paran e Tattersail, que aparentemente é tão arrebatador que faz Paran dedicar a vida a vingar a morte da feiticeira. Cara, o que é isso. Vai conhecer gente nova. Vocês só passaram uns 3 dias juntos! Não justifica nem mudar o status no Facebook, que dirá enfrentar deuses! Achei que não houve um desenvolvimento suficiente para justificar o ar épico que é dado ao romance deles no resto do livro. [SPOILER] 

Por fim, um comentário um tanto bobo, mas que preciso fazer: adorei o nome de tudo nesse universo, desde os Caminhos (que são os acessos à magia), que têm nomes do tipo Starvald Demelain e Omtose Phellack (loko), até os personagens, como Anomander Rake, que é simplesmente um dos nomes mais legais de toda a fantasia (apropriado, dado que é um dos personagens mais legais de toda a fantasia – não faço as regras, só digo verdades).

Em conclusão: Jardins da Lua é recomendadíssimo para fãs de fantasia épica, assim como para quem está a fim de se aventurar nesse gênero e já começar num nível alto. A edição brasileira está maravilhosa e a tradução, excelente. Então, prepara-se para se esforçar um pouco e aproveite a leitura conjunta!

*

Jardins da lua
Autor: Steven Erikson
Tradutora: Carol Chiovatto
Editora: Arqueiro
Ano desta edição: 2017
608 páginas

+ Ouça dois podcasts sobre a publicação e tradução do livro: A epopeia editorial de Malazan parte 1 e parte 2

 

Citações preferidas

Não se pode dançar com a verdade, não aqui fora, não agora, nem nunca mais.

*

– Você começou a aprender, Paran. Nunca conceda facilmente o conhecimento que possui. Palavras são como moedas: vale a pena guardá-las.

– Até você morrer em uma cama de ouro – refletiu Paran.

*

– Se eu morrer com uma faca nas costas, é melhor que tenha merecido. Do contrário, ficarei muitíssimo desapontado.

*

– Diga-me, Tool, o que domina seus pensamentos?

O imass deu de ombros antes de responder:

– Penso em inutilidade, conselheira.

– Todos os imass pensam sobre inutilidade?

– Não. Poucos pensam alguma coisa.

– Por que isso?

O imass inclinou a cabeça para um lado e a fitou.

– Porque, conselheira, é inútil.

*

Paran fitou o tiste andii, que agora o encarava. Passado um momento, o capitão deu de ombros. As sobrancelhas de Rake se arquearam.

– É isso? – perguntou Rake. – É essa a extensão de seus comentários?

 

5 respostas em “[Resenha] Jardins da lua

  1. Gezus, seguir esse blog tá me levando à falência lenta e impiedosamente… Comecei a flertar com Fantasia depois de conhecer a página (cheguei aqui por causa de Sci-Fi, meu gênero favorito!). Terminei O Aprendiz de Assassino esses dias e estou empolgado para começar o próximo (muita gente diz que o 2º e 3º da série são muito melhores, e olha que já gostei do 1º!), ainda vou iniciar Mistborn, e lá vem a Isa chegando na voadora e me fazendo ter vontade de ler mais um…

    Gostei da filosofia do autor (que só conhecia enquanto brincava pelo flowchart dos 100 maiores livros de fantasia e sci-fi – recomendo pra quem gosta!). Tenho reparado bastante em resenhas – seja de livros, jogos ou música que consumo ou consumi – o quanto o público da geração “tenho internet infinita no bolso da calça” é mimada pelo imediatismo – incluindo eu! Terminei hoje mesmo Caçando Carneiros do Haruki Murakami, um romance baita surreal que não segura sua mão com a “falta de lógica” do enredo e flagrei minha própria infantilidade ao meu impulso de avaliar mal o livro assim que li a última frase e não entendi nada. Então, meus parabéns ao Steven por rir IN THE FACE da molecada leite com pera que quer tudo de mão beijada e automaticamente tacha de mal-feito todo e qualquer elemento que não seja perfeitamente compreensível logo no 1º contato com uma obra.

    Cumprida minha meta de comentário do tamanho do post original, me retiro.

    Ótima resenha! 😀

    • Fala, Daniel! Nada me deixa mais feliz que leitores do blog levando minhas recomendações em conta, hahaha. Que bom que gostou do Aprendiz. O primeiro de fato é o mais fraco. No segundo a série fica beeem melhor, então acredito que vc vai gostar muito!

      E concordo! Nada contra livros mais “digeríveis” (inclusive gosto, especialmente pra intercalar com leituras mais exigentes), mas eu curto quando um livro me faz quebrar a cabeça e me surpreende com uma narrativa sutil e complexa. Ainda mais em fantasia épica! (Quando ao Murakami, tenho que admitir que li uns dois livros dele e fiquei bem perdida com esse aspecto surreal, ha!)

      Obrigada pelo comentário e me conta depois o que achou de todas essas leituras! 🙂

  2. Pingback: [TAG] 50% – Os melhores e piores do primeiro semestre | Sem Serifa

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