[Resenha] Um amor incômodo

Esta resenha foi escrita pelo nosso amigo e brother Lucas Alves, Assessor de Imprensa e produtor de conteúdo para o mercado editorial.

amorincomodoSinopse:

Aos quarenta e cinco anos, Delia retorna a sua cidade natal, Nápoles, na Itália, para enterrar a mãe, Amalia, encontrada morta numa praia em circunstâncias suspeitas: a humilde costureira, que se acostumou a esconder a beleza com peças simples e sem graça, usava nada além de um sutiã caro no momento da morte.
Revelações perturbadoras a respeito dos últimos dias de Amalia impelem Delia a descobrir a verdade por trás do trágico acontecimento. Avançando pelas ruas caóticas e sufocantes de sua infância, a filha vai confrontar os três homens que figuraram de forma proeminente no passado de sua mãe: o irmão irascível de Amalia, conhecido por lançar insultos indistintamente a conhecidos e estranhos; o ex-marido, pai de Delia, um pintor medíocre que não se importava em desrespeitar a esposa em público; e Caserta, uma figura sombria e lasciva, cujo casamento nunca o impediu de cortejar outras mulheres.
Na mistura desorientadora de fantasia e realidade suscitada pelas emoções que vêm à tona dessa investigação, Delia se vê obrigada a reviver um passado cuja crueza ganha contornos vívidos na prosa elegante de Elena Ferrante.

Fonte: Intrínseca

Uma leitura incômoda

Sabe quando você começa a ler um livro e tem aquela epifania de “Nossa, é assim que funciona?”. Elena Ferrante faz isso com você o tempo todo em Um amor incômodo, primeiro livro da autora italiana, publicado originalmente em 1992.

Talvez essa sensação não seja comum a todos. Talvez o “efeito Ferrante” em mulheres tenha mais a ver com identificação do que com imersão. Eu, desde que comecei a ler ficção, já tive a oportunidade de me identificar com diversos personagens, mas nesse romance foi diferente. Délia, a protagonista, me fez mergulhar tão fundo no universo feminino, que em vários momentos eu me senti “sem referências”. Não, não é uma questão de empatia, é uma questão de compreender o peso de cada detalhe: da sensação horrível de ser enconchada no trem, passando pelo dia em que a menstruação veio sem avisar, até a relação com a própria mãe.

Lendo Um amor incômodo, me senti como se eu fosse a Delia. Era como se naquele momento eu estivesse vivenciando os mais profundos sentimentos de uma mulher comum. Não uma deusa guerreira, não uma pobre coitada que precisa ser salva. Uma mulher qualquer, cheia de defeitos e qualidades. E isso Elena Ferrante faz muito bem, ela não determina se a personagem é boa ou má, se é fútil ou especial. Ferrante cria, você julga.

Parece que, nesse livro, esse é o jogo.

Uma cidade incômoda

Em Um amor incômodo, o cenário é tão importante quanto a trama. O leitor, graças aos incríveis relatos da autora, é convidado para uma viagem por duas Nápoles diferentes: a do passado, guardada nas memórias de Delia, e uma versão contemporânea, com todos os problemas de uma cidade que cresceu.

Um mistério incômodo

O clima de suspense é um dos maiores trunfos dessa obra. Como em um romance policial, no início temos pouquíssimas informações e elas, basicamente, são dadas logo no primeiro trecho do livro:

“Minha mãe se afogou na noite de 23 de maio, dia do meu aniversário, no mar de um lugar chamado Spaccavento, a poucos quilômetros de Minturno.”

Devido a esse acontecimento, Delia retorna a sua cidade natal para enterrar a mãe. Aos poucos, vamos percebendo que as circunstâncias da morte de Amália não são comuns. A senhora, mesmo conhecida por ser bela, não se dava o direito a nenhum luxo, mas, no momento de sua morte, vestia sutiã sofisticado, comprado em uma loja cara em Nápoles.

Ninguém sabe o que ocorreu com Amália e nem por que ela utilizava aquela peça. Mas depois de alguns acontecimentos bem estranhos – e intrigantes – Delia passa a reconstruir os últimos dias de sua mãe, em uma espécie de investigação privada, para compreender o ocorreu.

É nesse processo que a personagem ganha mais corpo e profundidade, pois nos é apresentado o modo como ela enfrenta o luto e também um pouco sobre o relacionamento que possuía com a mãe. Na minha opinião, esta é a característica mais interessante do livro; Delia e Amália têm uma relação de antagonismo/admiração mútua e isso afeta a psique da protagonista.

Os encontros entre Delia e os personagens masculinos também são bastante determinantes para a história. São eles que apresentam o passado de Amália, repleto de abuso e repressão, e que com a ajuda da protagonista, vamos desvendando. Vale lembrar que a construção da trama possui uma das bases na “memória” das personagens, então, é um pouco complicado saber o que é real. Tudo pode ser uma visão influenciada pelos relatos de terceiros, ou mesmo pura imaginação da protagonista.

Por fim, é possível dizer que Elena Ferrante teve uma estreia incrível com esse romance. Sua narrativa rápida, repleta de capítulos curtos, finalizados com frases de efeito, torna o livro um page turner (dois dias de leitura no máximo!). O que também percebemos é uma característica já encontrada em outras obras da autora: Ferrante não poupa o leitor. Tudo o que for para acontecer, vai acontecer e nós não seremos privados de nada, seja algo lindo ou terrivelmente desagradável.

Um amor incômodo
Autora: Elena Ferrante
Tradutor: Marcello Lin
Editora: Intrínseca
Ano de publicação: 1992
Ano desta edição: 2017
176 páginas

Livro cedido em parceria com a Intrínseca

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