[Resenha] O labirinto dos espíritos

Esta resenha contém SPOILERS dos outros três livros da série O Cemitério dos Livros Esquecidos.

labirintozafon

Sinopse:

Madrid, anos 1950. Alicia Gris é uma alma nascida das sombras da guerra, que lhe tirou os pais e lhe deu em troca uma vida de dor crônica. Investigadora talentosa, é a ela que a polícia recorre quando o ilustre ministro Mauricio Valls desaparece; um mistério que os meios oficiais falharam em solucionar.

Em Barcelona, Daniel Sempere não consegue escapar dos enigmas envolvendo a morte de sua mãe, Isabella. O desejo de vingança se torna uma sombra que o espreita dia e noite, enquanto mergulha em investigações inúteis sobre seu maior suspeito — o agora desaparecido ministro Valls.

Os fios dessa trama aos poucos unem os destinos de Daniel e Alicia, conduzindo-os de volta ao passado, às celas frias da prisão de Montjuic, onde um escritor atormentado escreveu sobre sua vida e seus fantasmas; aos últimos dias de vida de Isabella, com seus arrependimentos e confissões; e a intrigas ainda mais perigosas, envolvendo figuras capazes de tudo para manter antigos esqueletos enterrados.

Fonte: Livraria Cultura

Abri este livro, apesar de suas quase 700 páginas, já sentindo saudades deste universo e seus personagens — e também com expectativas altíssimas. Zafón não só correspondeu a elas como as superou, oferecendo pela última vez toda aquela magia que destilou nas outras obras da série e que lhe rendeu milhões de fãs pelo mundo.

Antes de tudo: embora o autor proponha que os quatro livros da série possam ser lidos em qualquer ordem, eu não recomendaria pegar este antes de ler os outros três (na verdade, a única troca de ordem que acho aceitável são os dois primeiros livros, já que o terceiro também tem muito a ver com os anteriores).

Pois bem, o último volume de O Cemitério dos Livros Esquecidos não se foca, pela maior parte, em Daniel e sua família, embora eles estejam presentes e envolvidos nos mistérios da trama (como sempre é o caso com os Sempere!). Em vez disso, somos apresentados a Alicia Gris, uma órfã de guerra com conexões com um dos personagens antigos. Abandonada à própria sorte, Alicia se transformou em detetive à margem das forças policiais oficiais e é chamada a investigar o desaparecimento de Mauricio Valls (sim, aquele). Ela é obrigada a trabalhar junto ao policial Vargas e os dois formam uma dupla relutante a princípio, mas que carrega a história sem dificuldades, logo fazendo o leitor se desapegar dos antigos protagonistas.

Alicia sofreu um ferimento sério num ataque aéreo durante a guerra e a dor crônica que sente lhe atormenta a todo momento e a leva a se medicar. Aliado a uma dieta de vinho e nenhuma comida, sentimos que ela sempre está à beira de um colapso. Isso aumenta ainda mais a tensão trazida por uma investigação envolvendo figurões do regime franquista e oficiais da polícia com tendências sádicas daquele tipo que Zafón desenvolve tão bem (para não mencionar o chefe de Alicia, um homem chamado Leandro que é ainda mais suspeito do que os investigados).

Alicia é uma personagem extremamente complexa e conturbada; ressente-se das circunstâncias que a puseram no caminho em que está — especialmente quando compara a sua vida com o que poderia ter sido — mas também não consegue se imaginar de outra forma. Vargas, embora não tão aprofundado, também tem passado complicado e se afeiçoa a Alicia, e os dois — sarcásticos, inteligentes e competentes — são uma dupla deliciosa de acompanhar desvelando os mistérios do passado de Barcelona. Outros personagens secundários, como Fernandito, um rapaz apaixonado por Alicia, também são muito simpáticos e nos ganham em pouco tempo.

Como era de esperar, os eventos que levam ao desaparecimento de Valls têm muito a ver com os acontecimentos revelados em O prisioneiro do céu — e trazem à tona mais revelações sobre Isabella, que talvez sejam a maior surpresa de todo o livro (eu fiquei de queixo caído!). A trama de crime e mistério deste livro é perfeitamente desenvolvida, amarrando pontas soltas e criando momentos de tensão extrema. E também, como no resto da série, retomando os abusos do regime ditatorial espanhol, numa crítica feroz e inequívoca que não é só pano de fundo, mas a própria base dos romances.

Os antigos personagens também têm seus momentos, claro — Fermín tem um dos flashbacks mais tensos de toda a série, além de ser (como sempre) uma das presenças mais fortes de qualquer cena, enquanto Daniel explora o lado sombrio com que vinha flertando desde o terceiro livro. Agora, com uma família para cuidar, a vingança traz novos perigos e dilemas. Minha única crítica a esse último volume talvez seja que meu personagem preferido não ganhou tanto destaque — e que, para mim, a sua história ainda guarde alguns segredos. Então, se alguém quiser conversar sobre [SPOILER] David Martín e sua suposta loucura [/SPOILER], vem discutir nos comentários!

Sobre a escrita de Zafón, não há mais o que dizer. Ela continua absurdamente envolvente, lembrando-nos a cada página que a série é, antes de tudo, uma homenagem aos livros e à literatura, com que qualquer amante destes irá se identificar. O autor também não se apressa ao final. Como se suspeitasse da nossa dificuldade em desapegar de sua criação, nos oferece um longo epílogo que deve emocionar qualquer leitor que chegou até aqui. Não queremos sair do Cemitério dos Livros Esquecidos, mas terminamos a série com a certeza de que ele sempre estará lá, abrindo suas portas a mais uma criança deslumbrada.

*

O labirinto dos espíritos
Série: O cemitério dos livros esquecidos – vol. 4
Autor: Carlos Ruiz Zafón
Tradutores: Ari Roitman e Paulina Wacht
Editora: Suma de Letras
Ano desta edição: 2017

 

Citações preferidas

— A verdade são as bobagens que as pessoas dizem quando pensam que sabem alguma coisa, Daniel.

*

O autoengano é o segredo de toda tarefa impossível.

*

— Tenho a ligeira impressão de que não é a primeira vez que você faz isso — disse Alicia.

— Tem gente que vai ao futebol e tem gente que força fechaduras. Algum passatempo você tem que ter.

*

A maioria dos mortais nunca chega a conhecer seu verdadeiro destino; simplesmente, somos atropelados por ele. Quando levantamos a cabeça e o vemos se afastar pela estrada já é tarde e temos que trilhar o resto do caminho pela valeta daquilo que os sonhadores chamam de maturidade. A esperança é apenas a crença de que esse momento ainda não chegou, de que conseguiremos ver o nosso verdadeiro destino quando ele se apresentar e poderemos pular a bordo antes que a oportunidade de ser nós mesmos se desvaeça para sempre e os condene a viver no vazio com saudade do que devia ter sido e nunca foi.

*

Às vezes, quando os deuses não olhavam e o destino se perdia pelo caminho, até gente boa tinha um pouco de sorte na vida.

*

— Escrever é um ofício que se aprende, mas que ninguém pode ensinar. No dia em que você captar o que isso significa, estará começando a aprender a ser escritor.

2 respostas em “[Resenha] O labirinto dos espíritos

  1. Adoreiiii a critica!!

    eu concordo plenamente com o que você disse sobre o Martín e como no fim a historia dele ficou inexplicada, já vi varias criticas sobre o livro e a grande maioria comentam sobre a mesma coisa, em como não teve explicação quem era o Corelli. Se existiu realmente alguma coisa do “mal” que o enlouqueceu ou era tudo coisa da própria imaginação. Gostaria realmente que ele fizesse algum spin-off para nos dar uma explicação, mas conhecendo o que já conheço do Zafón isso não irá acontecer.

    • Oi, Ana! É, foi a única coisa que me incomodou um pouco, mas na falta de um spin-off (que seria maravilhoso, ai ai) eu gosto que pelo menos ficou em aberto, então podemos acreditar no que preferimos… gosto de pensar que o Corelli existia sim, haha!
      Obrigada pela visita!

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