[Resenha] Estamos bem

estamos-bemSinopse:

Você passa pela vida achando que precisa de tanta coisa…
Até ir embora só com o celular, a carteira e uma foto da sua mãe.
Marin não fala com ninguém da vida antiga desde o dia em que deixou tudo para trás. Ninguém sabe a verdade sobre as semanas finais. Nem mesmo sua melhor amiga, Mabel. Mas mesmo a milhares de quilômetros da costa da Califórnia, na faculdade em Nova York, Marin ainda sente o impacto da vida e da tragédia da qual tentou fugir. Agora, meses depois, sozinha em um alojamento vazio durante as férias de inverno, Marin espera. Mabel está chegando para visitá-la, e Marin vai ser obrigada a enfrentar tudo que não foi dito e a finalmente confrontar a solidão que se alojou em seu coração.

Fonte: Plataforma 21

No começo deste ano, quando pesquisei sobre os autores da coletânea Aconteceu naquele verão, guardei bem o nome de Nina LaCour. Ela é a autora de um dos contos mais sensíveis e bem escritos presentes nesse livro, por isso fiquei aguardando o lançamento de seu romance Estamos bem pela Plataforma 21.

A protagonista do livro é Marin, uma garota da Califórnia que foi criada pelo avô. Os dois tinham um relacionamento um pouco distante – jamais entravam no quarto um do outro, por exemplo – mas especial à sua maneira. O avô era toda a família da garota, que ao longo da vida buscou em vão saber mais detalhes sobre sua falecida mãe.

Agora, Marin está cursando o primeiro semestre da faculdade em Nova York. Mas a viagem para a sua nova vida não foi uma transição saudável, e sim uma fuga – ela partiu da Califórnia várias semanas mais cedo do que o necessário, sem dar explicações e sem se despedir de ninguém. Quando chegam as férias de Natal, ela não volta para casa, mas seu passado vem atrás dela quando Marin recebe uma visita de sua melhor amiga, Mabel, que ela vinha ignorando há meses.

A chegada de Mabel é tensa e desconfortável. De cara, fica claro para o leitor que as duas garotas já tiveram uma relação muito próxima, mas que algo as feriu. Os capítulos são narrados por Marin e intercalam o tempo presente e flashbacks dos meses anteriores à fuga da garota. (O tempo verbal varia a cada capítulo; passado para os flashbacks e presente para o resto do livro.) Ao longo do livro, o leitor vai juntando peças de diferentes momentos da história para desvendar os acontecimentos que traumatizaram Marin e a afastaram tão dolorosamente de sua antiga vida.

Estamos bem é um livro curto, mas concentra uma grande carga emocional. (Spoilers: ninguém está bem, não.) Gosto muito de como LaCour consegue transmitir muito da emoção dos personagens ao descrever cenas e diálogos corriqueiros – duas garotas pintando as unhas uma da outra, se protegendo de uma nevasca, visitando uma loja de artesanato, ou uma garota e seu avô dividindo as tarefas domésticas. Todos os momentos retratados têm significado: as conversas e o silêncio, os dias em que as personagens estão juntas e também os muitos momentos de solidão da protagonista. A narrativa toda é delicada e sutil, e a autora constrói o relacionamento entre as personagens de forma natural.

A trama é bem misteriosa, e não vou revelar muito para não estragá-la. Basta dizer que os leitores que gostam de um YA sobre relacionamentos (não necessariamente amorosos) e com um bom plot twist vão gostar desse livro, que tem algo de Aristóteles e Dante descobrem os segredos do universo misturado com Mentirosos. De quebra, também é uma história bonita e rápida de se ler.

*

Estamos bem
Autora: Nina LaCour
Tradutora: Regiane Winarski
Editora: Plataforma 21
Ano desta edição: 2017
224 páginas

Livro cedido pela Plataforma 21.

Citações favoritas:

Eu me pergunto se tem uma corrente secreta que une as pessoas que perderam alguma coisa. Não da forma que todo mundo perde alguma coisa, mas da forma que destrói sua vida, te destrói, e quando você olha para o próprio rosto, não parece mais seu.

*

Eu tinha afastado a dor. E a encontrara nos livros. Chorava pela ficção em vez de chorar pela verdade. A verdade era irrestrita, sem enfeites. Não havia linguagem poética nela, nem borboletas amarelas, nem inundações épicas. Não havia uma cidade presa embaixo d’água nem gerações de homens com o mesmo nome, destinados a repetir os mesmos erros. A verdade era ampla o bastante para se afogar nela.

*

– Espero que você não fique encrencada – eu disse, mas como poderia?
Éramos milagrosas.
Éramos criaturas da praia.
Tínhamos tesouros nos bolsos e uma à outra na pele.

*

Éramos inocentes o bastante para achar que nossas vidas eram de fato o que achávamos que eram, que se juntássemos todos os fatos sobre nós eles formariam uma imagem que faria sentido, que se parecia conosco quando olhávamos no espelho, que parecia nossas salas, nossas cozinhas e as pessoas que nos criaram, em vez de revelar todas as coisas que não sabíamos.

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