[Especial] XIII Fórum de Editoração – Expandir e lapidar: escolhas e contrapontos do editor

No último sábado, aconteceu em São Paulo o XIII Fórum de Editoração, um evento anual que está entre os mais importantes do mercado editorial. Organizado pelos estudantes do curso de Editoração da ECA-USP, ele sempre traz convidados do mercado e da academia para debater temas atuais do mercado dos livros.

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Foto: divulgação

A edição deste ano aconteceu no auditório da Unibes Cultural. Como ex-alunas do curso de Editoração e ex-organizadoras do evento, é sempre ótimo estar de volta e assistir a novas conversas, e este ano não foi diferente.

Vamos resumir um pouco as conversas das três mesas que vimos!

Mesa 1 – Entre outros mil, por que não o Brasil?

Convidados: Daniel Lameira (Intrínseca), Lilia Zambon (Companhia das Letras) e Felipe Castilho (Plot!). Mediação: Iuri Pereira.

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Foto: Divulgação

Esta mesa trouxe profissionais de renome para conversar sobre as relações entre o mercado editorial nacional e internacional.

Como o ponto de partida dessa conversa era a literatura nacional, era impossível não falar sobre o fato de que é muito mais comum ver as editoras brasileiras investindo em literatura estrangeira do que a literatura brasileira ser exportada para outros países. Há razões culturais fortes aí, pois estamos acostumados a consumir cultura estrangeira. Mas isso também se deve a uma diferença grande entre a forma de editar livros nacionais (tendo todo um trabalho de aprimoramento da obra junto ao autor) e livros estrangeiros (que já vêm lapidados por um editor de fora, e que podem até já ter feito sucesso em outros países).

A literatura brasileira ainda é considerada muito de nicho, mesmo no Brasil, onde consumimos e publicamos muita literatura estrangeira, em especial livros traduzidos do inglês. Um caminho para popularizar (e até internacionalizar) a literatura nacional seria se os escritores se interessassem em escrever mais literatura de entretenimento (o sucesso de Paulo Coelho, no Brasil e no mundo, foi usado como exemplo). Felipe Castilho também falou um pouco sobre o nicho do mercado de quadrinhos, no qual as editoras brasileiras, felizmente, têm investido cada vez mais, mas que também tem uma grande demanda reprimida.

Foi também uma mesa bastante instrutiva para todos os que querem conhecer melhor o funcionamento do mercado, pois os editores explicaram um pouco sobre as aquisições de direitos de publicação e sobre como entrar no mercado. Daniel Lameira, que acredita na desglamourização do mercado editorial, falou da necessidade de profissionais entusiasmados, mas que não deixem o amor pelos livros cegá-los ao pragmatismo que é necessário para esse mercado.

 

Mesa 2 – A vez da voz: o livro com função social

Convidadas: Lia Urbini (Expressão Popular), Laura Bacelar (Malagueta) e Aline Araújo (Ijumaa). Mediação: Thiago Mio Salla.

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Foto: Divulgação

Em um interessante contraste com a primeira mesa, na qual os convidados eram profissionais de algumas das maiores editoras do país e trabalhavam com best-sellers, todas as editoras convidadas para esta mesa são independentes. Elas trabalham por conta própria, publicando livros que acreditam ser importantes para minorias brasileiras.

As experiências dessas três editoras se complementaram para formar um debate rico e interessante, no qual se exaltou a importância da diversidade nos livros – e da resistência por parte dos pequenos editores. Em um mundo no qual o discurso dominante (do homem branco, cisgênero e heterossexual) é tão estabelecido, a pluralidade de vozes é necessária. Aline Araújo comentou sobre o problema de publicar literatura produzida por autores negros em um contexto no qual as pessoas acham que esses autores só interessam a leitores negros. Laura Bacelar contou sobre sua vasta experiência com publicações LGBT, e Lia Urbini fez interessantes relatos sobre a publicação de obras explicitamente esquerdistas.

As três também comentaram um discurso bem comum usado para justificar o preconceito contra a literatura produzida por minorias: a falácia de que não importa a etnia/gênero/sexualidade/condição social do autor, e de que a discriminação é feita exclusivamente com base na qualidade literária. Laura Bacelar nos lembra que esse discurso só reforça a discriminação e que, apesar de mais da metade dos brasileiros serem negros, e mais da metade serem mulheres, 86% dos livros publicados são escritos por homens brancos do sudeste.

Nesse contexto, e em meio à intolerância que é tão comum no Brasil, é difícil alcançar os leitores. A impressão que se tem é de que, quanto mais a sociedade precisa de um livro, menos ele é vendido. E, mesmo que as editoras estejam dispostas a abrir mão de lucro em nome de seus ideais, é preciso vender livros para poder continuar publicando-os, mantendo assim seu espaço nesse mercado e seu lugar de fala na sociedade.

 

Mesa 4 – Da internet à estante: a nova economia do livro

Convidados: Diana Passy (Companhia das Letras/Seguinte), Hélio Puglia (autor de Repensando o modelo de negócios do livro), Mayra Sigwalt (Turista Literário) e Fabrício Valério (V&R Editoras)

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Foto: Divulgação

Essa mesa de composição bem eclética falou um pouco do marketing das editoras atualmente e como ele trabalha com as redes sociais. Já no início, Hélio Puglia observou que geralmente consideramos “marketing” um substantivo, mas na verdade ele é um processo: tudo que é feito para pôr o livro no mercado é marketing, o qual, portanto, não deve ser feito depois da produção do livro, mas ao longo dela.

Quanto ao marketing digital, Diana Passy o considera a maior mudança dos últimos anos, pois com as redes sociais, o editor pode estar em contato direto e imediato com os leitores. Algumas editoras ainda estão atrasadas nesse sentido, mas os palestrantes apontaram que é algo essencial hoje, mesmo para editoras que não são focadas em obras de “entretenimento”. O maior problema é a falta de know how e de tempo para administrar essas redes.

Mayra Sigwalt, que é também vlogueira, diz que o objetivo dos influenciadores digitais é que as editoras reconheçam seu trabalho e invistam nisso. Diana deu alguns exemplos de sua experiência na Seguinte: já viu sugestões de leitores serem publicadas, por exemplo. A maior dificuldade apontada pelas duas no relacionamento com leitores é que os jovens são muito passionais, estão acostumados a estar presentes nas redes sociais e esperam ser ouvidos. Assim, os editores têm que responder e justificar suas escolhas, muitas vezes apresentando argumentos e explicando decisões feitas com base em seu expertise.

Os participantes também falaram bastante sobre o papel do editor nesse cenário. É preciso saber o que as pessoas querem e produzir para elas (um exemplo foi o próprio Turista Literário, projeto que surgiu com base em comentários em um vídeo da Mayra). Nesse sentido, Fabrício observou que o editor tem que descer de sua “torre de marfim”, não pode mais achar que vai publicar o que considera que o público quer ou precisa, sem ouvir os clientes. Mas todos concordam que ainda há um lugar para o editor ‒ o caminho agora parece ser estabelecer e aprender a administrar esse diálogo.

*

Eventos e conversas como essas são sempre enriquecedores para todos os interessados no mercado e no mundo editorial. Mais uma vez, saímos do Fórum com a cabeça a mil com as ideias que ouvimos e já preparadas para a próxima edição.

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