[Resenha] Flores para Algernon

floresparaalgernonSinopse:

Uma cirurgia revolucionária promete aumentar o QI do paciente. Charlie Gordon, um homem com deficiência intelectual grave, é selecionado para se o primeiro humano a passar pelo procedimento. Em um avanço científico sem precedentes, a inteligência de Charlie aumenta tanto que ultrapassa a dos médicos que planejaram o experimento. Entretanto, Charlie passa a ter novas percepções da realidade e começa a refletir sobre suas relações sociais e até sobre o papel de sua existência.

Fonte: Aleph

Imagine um livro que te tira da sua zona de conforto de tal forma que, depois da leitura, você nunca mais enxerga o mundo com os mesmos olhos. Não é exagero dizer que Flores para Algernon faz isso e é uma das obras mais tocantes que já li.

O romance de Daniel Keyes parte de um questionamento feito por Aristóteles em sua Poética: é possível escrever uma tragédia sobre um personagem que já começa a narrativa em uma posição muito desfavorecida? A partir desse pensamento e de suas experiências como professor, Keyes criou Charlie: um homem de 32 anos com deficiência intelectual grave. Charlie tem um QI baixíssimo, mas uma enorme vontade de aprender e de “ser inteligente”. Sua grande motivação para aprender é o que o torna a cobaia ideal para um experimento desenvolvido por cientistas em uma universidade: uma neurocirurgia capaz de aumentar a inteligência de um indivíduo. A experiência já foi realizada no rato Algernon e os resultados foram excelentes, então Charlie é submetido ao mesmo procedimento.

De fato, a cirurgia é um sucesso e o QI de Charlie começa a aumentar. Estimulado por leituras e até por sugestões hipnóticas, seu cérebro começa a absorver conhecimento cada vez mais rápido. A evolução intelectual do personagem-narrador é acompanhada pelo leitor inclusive na forma como o texto é escrito. No começo, os relatórios por meio dos quais Charlie conta sua história são repletos de erros de ortografia; depois da cirurgia, ele vai aperfeiçoando não apenas a grafia das palavras, como também o vocabulário e a estrutura de seu texto.

Porém, mais conhecimento não necessariamente gera mais felicidade. O desenvolvimento intelectual de Charlie o faz entender melhor o mundo ao seu redor e ser confrontado com situações desagradáveis e ofensivas que ele não percebia antes. Além disso, seu lado emocional não está preparado para acompanhar suas descobertas intelectuais e sua percepção de mundo renovada, por isso novas reflexões e antigos traumas passam a perturbar o personagem.

A história de Charlie foi contada pela primeira vez em um conto homônimo, publicado em 1959 e ganhador do prêmio Hugo. Embora o personagem e a forma epistolar da narrativa se mantenham nas duas obras, Keyes soube aprofundar sua história de uma forma muito rica no romance. Diferente do conto original, no romance o leitor conhece a relação de Charlie com a família, descobrindo seus traumas de infância por meio de flashbacks que começam a acontecer depois da cirurgia. As experiências vividas pelo protagonista são chocantes, e a relação delas com seu desenvolvimento emocional são explícitas.

Apesar do texto fácil e da narrativa absolutamente envolvente, Flores para Algernon não é uma leitura leve. Tanto as lembranças do passado como os acontecimentos do presente de Charlie são muito tristes, envolvendo agressões verbais e traumas emocionais gigantes. O livro traz uma discussão muito necessária sobre capacitismo intelectual, do ponto de vista mais impactante possível.

É impossível passar incólume por Flores para Algernon, um livro melancólico e emocionante que tem seu lugar entre os clássicos da ficção científica e da literatura como um todo.

*

Flores para Algernon
Autor: Daniel Keyes
Tradutora: Luisa Geisler
Editora: Aleph
Ano de publicação: 1966
Ano desta edição: 2018
288 páginas

 

Citações favoritas:

Como eles me parecem diferentes agora. E quão tolo fui de algum dia pensar que professores eram gigantes intelectuais. Eles são pessoas, e sentem medo de que o resto do mundo descubra.

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Que estranho é o fato de pessoas de sensibilidade e sentimentos honestos, que não tirariam vantagem de um homem que nasceu sem braços ou pernas ou olhos, não verem problema em maltratar um homem com pouca inteligência.

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Até um homem de mente fraca quer ser como os outros homens. Uma criança pode não saber como se alimentar, ou o que comer, mas ela conhece a fome.

*

Apesar de sabermos que, no fim do labirinto, a morte nos aguarda (e isso é algo que nem sempre soube, até pouco tempo atrás, pois o adolescente em mim pensava que a morte acontecia só com outras pessoas), vejo agora que o caminho escolhido pelo labirinto me faz quem sou. Não sou apenas uma coisa, mas também uma maneira de ser – uma das muitas maneiras –, e saber os caminhos que percorri e os que me restam vai me ajudar a entender o que estou me tornando.

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