[Resenha] Fluam, minhas lágrimas, disse o policial

Sinopse:

No romance Fluam, minhas lágrimas, disse o policial, Dick explora os limites entre percepção e realidade, criando uma impressionante distopia na qual Jason Taverner, um dos apresentadores mais populares da TV, um dia acorda sozinho num quarto de hotel e percebe que tudo mudou; que se tornara um ilustre desconhecido. E pior. Descobre que não há qualquer registro legal de sua existência.

Dividido agora entre duas realidades, ele vê-se obrigado a recorrer ao submundo da ilegalidade enquanto tenta reaver seu passado e entender o que de fato aconteceu, dando início a uma estranha busca pela própria identidade.

Fonte: Editora Aleph

Jason Taverner é uma grande celebridade – apresentador de um programa de televisão semanal com trinta milhões de espectadores, ele está no topo de sua carreira no showbiz. Até que um dia acorda em um quarto de hotel sujo e barato, e descobre que ninguém se lembra dele. Seu programa não está mais na TV, seus premiados discos nunca foram lançados, seus documentos desapareceram… em suma, Jason Taverner não existe.

Essa trama inquietante e esquisita é o tipo de coisa que me atrai na literatura da Philip K. Dick: a desconfortável sensação de estar vivendo em um pesadelo, de ir parar em uma realidade que não respeita a lógica conhecida do nosso universo, que faz seus personagens questionarem (como o próprio autor fez tantas vezes) o que é, de fato, real. Na primeira vez que ouvi falar de Fluam, minhas lágrimas, disse o policial (indicado ao Hugo e ao Nebula e ganhador do John W. Campbell de melhor romance em 1975), a sinopse me remeteu a alguns contos russos com premissas absurdas como o famoso “O nariz”, de Nikolai Gógol, sobre um homem cujo nariz sai de seu rosto e vai viver uma vida independente. Esse tipo de trama inusitada rende algumas das melhores histórias de ficção, especialmente de ficção especulativa.

Porém, esta é uma resenha bastante desiludida. Pode inclusive conter alguns spoilers leves, mas nem me preocupei tanto com eles porque não indico esse livro para ninguém.

Dicks everywhere

Para entender o meu nível de decepção com o romance, deixem-me abrir um parêntese.

Na mesma semana em que comecei a ler Fluam, minhas lágrimas, disse o policial, eu me deparei com um curioso game chamado Genital Jousting, cujos personagens (tanto femininos como masculinos) são… bem, pintos. Com dois testículos e um ânus. Pintos de roupinha. O jogador controla um personagem chamado John que comete erro atrás de erro e só encontra rejeição na sociedade de pintos, por agir, basicamente, como um cuzão. A diversão do jogo está no fato de que é extremamente difícil aprender a controlar seu personagem, mas você muitas vezes consegue resultados engraçadinhos se conseguir enfiá-lo em buracos que encontrar no cenário, especialmente o ânus dos demais personagens. É um jogo que não se leva muito a sério, mas que pode te divertir bastante se você estiver no clima para uma bobeira meio imatura. Infelizmente, encontrei no romance de Philip K. Dick o mesmo nível de maturidade com relação a sexo, só que dessa vez ele não foi tão bem-vindo.

Dick parece incapaz de descrever uma mulher sem mencionar o tamanho de seus seios ou falar que os mamilos dela estavam sacudindo (o que parece coisa de quem nunca conversou com ou sequer viu uma mulher; mamilos não são tão agitados assim). É um nível de misoginia difícil de justificar até mesmo com o velho “ah, mas na época em que isso foi escrito…”. As descrições femininas feitas pelo autor estão em um nível de distorção absurdo até mesmo para os padrões de obras da época ou mais antigos, e são ainda mais exageradas neste do que em outros romances do autor. Entre as mulheres que aparecem na história, temos:

  • manipuladoras que dão chiliques e atacam os homens sempre que contrariadas;
  • viciadas em sexo;
  • mulheres extremamente inseguras com sua aparência e idade;
  • mulheres que têm algum motivo específico e declarado para não transar com o protagonista (e elas sempre se justificam, mesmo que ninguém tenha perguntado nada);
  • uma mulher burra e irritante, distraída com presentes caros para parar de irritar o marido (a mesma mulher é uma bissexual em um relacionamento incestuoso com o próprio irmão e pejorativamente chamada de lésbica ao longo do livro);
  • uma empregada doméstica cumprimentada pelo protagonista com um apertão no seio (ao que ela responde “Está com tesão hoje” e continua normalmente suas tarefas);
  • uma mulher gorda, bondosa e imatura que é sequestrada pelo protagonista, mas se sente grata por ele lhe dar um sermão e lhe ensinar que ela precisa confiar mais nas pessoas!

A visão de sexo apresentada também é extremamente preconceituosa. No meio do livro, Dick dedica um capítulo inteiro a falar de como, no futuro, o envolvimento com maiores de 12 anos foi legalizado. Não faz isso como uma crítica à pedofilia, mas como um discurso que a associa à homossexualidade. E mais: o pedófilo que aparece no livro diz ser assim por culpa de sua mãe, que exercia um papel dominante no relacionamento com o pai.

Dick usa dois pesos para tratar do assunto. Quando o protagonista encontra uma mulher de 19 anos (descrita como sem peito e com cara de 16), ele imediatamente se sente atraído por ela – e nisso não há aberração alguma, pois para o autor o problema é apenas se a atração for por um menor do mesmo sexo.

Uma distopia ignorada

O que torna esses assuntos e personagens absurdos impossíveis de ignorar é o fato de que o narrador se distrai da trama para explorá-los, deixando o cenário e mesmo a história de Jason Taverner, que renderiam uma investigação muito mais interessante, em segundo plano.

Os Estados Unidos são retratados como um país autoritário que passou recentemente por uma nova guerra civil e que tem tecnologia para rastrear todos os indivíduos. Na Los Angeles futurística em que se passa essa história, por todos os lados se veem carros voadores e muitos policiais. O estado de vigilância constante pode prender qualquer cidadão não identificado ou suspeito e mandá-lo para um dos campos de trabalho forçado – estes, aliás, são o destino certo dos estudantes universitários, que, por discordar do governo totalitário, precisam viver escondidos, juntamente com seus professores, no subsolo das universidades. Por isso, Jason Taverner corre sérios riscos ao se ver sem documentos e sem o reconhecimento público ao qual está acostumado.

A reviravolta que bagunçou a vida de Jason Taverner poderia ter ficado sem explicação (ninguém se importa em saber como o nariz de Ivan Iákovlevitch criou vida própria) e o autor poderia ter explorado melhor as consequências disso e o envolvimento de Taverner como anônimo nesse cenário distópico. Talvez essa até se tornasse uma leitura pertinente de quarentena, nos fazendo refletir sobre anonimato e solidão em um mundo em ruínas. Em vez disso, as digressões focaram nos muitos preconceitos do autor, e o que aconteceu com o protagonista foi explicado em um diálogo rápido e não muito inovador nas páginas finais do livro.

Philip K. Dick tem relevância inquestionável para a ficção científica, a literatura e o cinema. Mas em toda a sua obra o leitor precisa abstrair os níveis de misoginia para poder apreciar a trama – o que se tornou impossível em um romance em que aquela era tão forte e esta, quase inexistente.

*

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Fluam, minhas lágrimas, disse o policial
Autor: Philip K. Dick
Tradutora: Ludimila Hashimoto
Editora: Aleph
Ano de publicação: 1974
Ano desta edição: 2013
256 páginas

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