[Resenha] A ilha do tesouro

Sinopse: Aventuras em alto-mar, traição, lutas de espadas e uma caça ao tesouro eram coisas que não passavam de imaginação para o jovem Jim Hawkins, que vivia entediado na pacata hospedaria de seus pais.

Quando um sombrio capitão se hospeda na Almirante Benbow, isso começa a mudar: ele canta canções de marujos, parece paranoico sobre um marinheiro ameaçador e faz com que a estalagem seja tomada pela pior corja de bucaneiros que o garoto já viu.

É então que o rastro de um tesouro real cai nas mãos de Jim, e resta ao garoto se juntar a uma tripulação de nobres cavaleiros e partir para a Ilha do Tesouro, em uma corrida contra os piratas.

Publicada em 1883, esta obra-prima de Robert Louis Stevenson é uma das mais empolgantes aventuras marítimas já escrita, e deu origem a grande parte do imaginário de piratas que até hoje habita nossas mentes e a cultura pop.

Esta nova edição traz tradução inédita, notas e posfácio de Samir Machado de Machado e ilustrações de Paula Puiupo, além de textos complementares do escritor Jim Anotsu e da pesquisadora Marina Bedran, especialista na obra de Stevenson.

Teve uma vez em que, numa viagem de família, fui deixada com as minhas primas mais novas e liderei uma brincadeira de piratas. A parte mais forte da lembrança é a bronca desproporcional que eu tomei de uma tia que achava inadmissível eu ensinar a sua filha que ser “do mal” era divertido.

E era mesmo.

Quem inseriu os piratas no meu imaginário foi o Cebolinha, com seu Manual de aventuras, que também continha espiões – outra das minhas obsessões infantis. Daí pra frente eu li tudo de piratas em que pude colocar as mãos. A edição de Conan, o bárbaro que continha Belit, a rainha da Costa Negra, era a minha favorita. Em algum momento dessa febre eu escrevi a minha própria história de piratas e… li A ilha do tesouro. À época, lembro de ter gostado mais de O médico e o monstro (livro do mesmo autor) e de A ilha da garganta cortada (filme de piratas perfeito de Sessão da Tarde, protagonizado por uma mulher) achando que era “só mais uma história de pirata”, sem saber que eu estava reconhecendo tantos elementos por ser uma obra essencial para as ideias que temos de piratas hoje (um dos paratextos da edição da Antofágica disserta muito bem sobre isso).

Os anos se passaram e muita coisa aconteceu e, à exceção de eu comparecer a estreias de Piratas do Caribe à caráter e ter sido madrinha de um casamento pirata, essa paixão ficou adormecida. Até que a Isa me convenceu a assistir Black Sails e MEU DEUS, que série excelente. A obra é livremente inspirada em A ilha do tesouro, apresentando os fatos que levaram ao imenso tesouro escondido que move os personagens do livro. O que torna a série tão entusiasmante não é apenas o fato de que eu daria uns beijos em quase todos os personagens, então uns tapas pela teimosia em seguida, mas que a trama consegue surpreender mesmo as pessoas que estavam com os eventos de A ilha do tesouro frescos na cabeça.

Blogueiras que se dizem contra a pirataria e montam esses lookinhos. Enfim, a hipocrisia.

O que não foi o meu caso, já que eu comprei a edição literalmente enquanto estava enxugando as lágrimas do último episódio. Escolhi a edição da Antofágica 1. Porque é linda e 2. Para prestigiar o trabalho dazamiga (a coordenação foi da Babi e a preparação foi da Isa!). E super valeu a pena, já que as ilustrações são mega imersivas e me ajudaram a me sentir uma menina deslumbrada com piratas de novo.

Muito bem: à história. O protagonista é um menino de treze anos chamado Jim, que ajuda a cuidar da hospedaria dos pais. Tudo transcorre tranquilamente, até que um pirata sombrio passa a se hospedar lá e traz consigo uma conspiração, envolvendo um marujo de uma perna só. Ele claramente tem algo que os outros piratas desejam e que não terão escrúpulos para tomar. É lógico que o garoto se envolve mais do que deveria no caso e adultos sensatos resolvem se juntar a ele para recuperar o tesouro impressionante que descobriram estar à sua espera.

O fio condutor da narrativa é um mapa do tesouro que retrata a tal ilha do título. A expedição a ela vai exigir uma equipe experimentada nos mares e logo surge John Silver se oferecendo como cozinheiro. John Silver é um homem de fala mansa e uma perna só, que tem um papagaio. Não bastasse todo o (agora) estereótipo piratesco, ele ainda recomenda toda uma equipe suspeita. E os mocinhos acham uma excelente ideia! Parte da diversão da leitura definitivamente é se sentir mais esperto que eles.

E essa é uma camada metanarrativa também: como a história é narrada em primeira pessoa pelo protagonista já adulto, ele na verdade está revisitando as próprias memórias. Então, quando você se pega pensando “nossa, que ideia de merda, hein”, em seguida o próprio narrador te dá um respaldo, reconhecendo que era um jovem tolo.

Essa edição inclui notas que funcionaram bastante bem: em geral todas contextualizam fatos específicos. Meu único problema com elas é que eu fico com preguiça de ficar indo até o final do livro para verificar a nota, mas entendo que com o projeto cheio de ilustras as notas não ficariam legais nas páginas correspondentes do miolo. Resolvi esse problema usando o postal que vem com o livro para marcar a página e a bandeira pirata para as notas.

A ilha do tesouro é uma obra perfeita para crianças de todas as idades e me ofereceu o consolo da familiaridade que eu estava precisando durante o isolamento.


A ilha do tesouro
Autor: Robert Louis Stevenson
Tradutor: Samir Machado
Editora: Antofágica
Ano de publicação: 2019
368 páginas

*

Citações favoritas

Meu pai sempre dizia que a estalagem ficaria arruinada, pois logo as pessoas cansariam de ser tiranizadas e repreendidas e de ir para a cama tremendo de medo, mas eu acho mesmo é que a presença do capitão nos fez bem. As pessoas ficavam assustadas na hora, mas, olhando em retrospecto, meio que gostavam: era uma boa agitação na quietude da vida simples da região.

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Partiu nossos corações, creio eu, deixá-los naquele estado esfarrapado, mas não podíamos arriscar outro motim. E levá-los para casa para serem enforcados teria sido um tipo cruel de gentileza.

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