[Resenha] O silêncio das montanhas

as montanhas tambem falam 2013-04-05.inddSinopse:

O romance traz como protagonistas os irmãos Pari e Abdullah, que moram em uma aldeia distante de Cabul. São órfãos de mãe e têm uma forte ligação desde pequenos. Assim como a fábula que abre o livro, as crianças são separadas, marcando o destino de vários personagens. Paralelamente à trama principal, o autor narra a história de diversas pessoas que, de alguma forma, se relacionam com os irmãos e sua família, sobre como as escolhas que fazem ressoam através de gerações. Seguindo os personagens, mediante suas escolhas e amores pelo mundo – de Cabul a Paris, de São Francisco à Grécia -, a história se expande. É um livro sobre vidas partidas, inocências perdidas e sobre o amor em uma família que tenta se reencontrar.

Fonte: Livraria Cultura

As minhas expectativas para este livro eram grandes. Achei as duas outras obras de Khaled Hosseini (O caçador de pipas e A cidade do sol) muito tocantes e o autor está entre os meus favoritos. Mas O silêncio das montanhas foi até melhor do que eu esperava, superando seus antecessores.

Desta vez, Hosseini nos conta muitas histórias diferentes, mais uma vez ambientando a maioria delas em seu país, o Afeganistão. A narrativa tem início com um casal de irmãos – Pari e Abdullah – separados na infância. Esse é o ponto de partida para que o autor nos leve a uma viagem ao longo de várias gerações e por diferentes lugares, explorando a vida dos familiares, dos vizinhos e dos conhecidos dos dois irmãos. Os personagens sempre têm alguma relação entre si, mas possuem diferentes trajetórias de vida, cada uma contada com igual intensidade.

Tenho minhas histórias favoritas nesse livro, como a vida do casal que adotou Pari, contada pelo mordomo, que acompanha de perto os percalços enfrentados por eles e o desmembramento da família. Ou os conflitos morais de Idris, um afegão emigrado para os Estados Unidos que, ao voltar à sua terra, conhece uma criança com um passado triste e saúde muito debilitada que o coloca perante a difícil escolha entre ficar em sua zona de conforto ou ajudar o próximo. Mas todas as histórias que se entrelaçam em O silêncio das montanhas são emocionantes.

Hosseini tem talento para construir personagens que estão além dos nossos julgamentos morais, a característica que mais admiro em suas obras. É impossível julgar o caráter ou as ações desses personagens como bons ou maus. Todos eles têm em si uma indescritível complexidade que só pode ser construída por meio de uma narrativa muito bem estruturada e de uma prosa sensível. Algumas histórias são contadas em primeira, outras em terceira pessoa, e por vezes temos a visão de mais de um personagem sobre os mesmos fatos. Por exemplo, Nila Wahdati, mãe adotiva de Pari, é descrita em diferentes momentos da vida, ora pelo mordomo, ora pela filha, o que nos dá uma visão mais completa da personagem ─ e ainda assim mantém certo mistério a respeito de seus pensamentos e sentimentos. O autor não poupa recursos para nos aproximar dos personagens, de modo que cada história é igualmente envolvente. É uma obra com muitos clímax, para os quais fica difícil definir uma hierarquia.

Devo dizer que esta não é uma leitura leve. Acidentes, doenças e violência, principalmente psicológica, estão presentes ao longo da obra. Pais abandonam filhos, irmãs ferem irmãs, famílias inteiras são injustamente desalojadas. E não adianta esperar por compensações mágicas da providência divina – como na realidade, nem todos os finais são felizes e, certamente, nenhuma vida é perfeita. No entanto, a prosa de Hosseini é tão bonita que atenua esses acontecimentos impactantes, o suficiente para prender o leitor e fazê-lo pensar: “Estou chocado, mas quero ouvir tudo que você tem a dizer”.

Alguns temas já trabalhados em obras anteriores – como as diferenças do Afeganistão antes e depois do talibã ou os conflitos de identidade de afegãos que emigram – são retomados aqui, mas sem a mesma profundidade e as explicações históricas para o leitor. Hosseini agora está mais concentrado em elaborar seus personagens do que em apresentar seu país para o mundo. Parte das histórias são ambientadas nos Estados Unidos, na França e na Grécia, embora esses cenários pareçam ser apenas coadjuvantes – o encanto causado pelo exótico país asiático é imbatível. É difícil dizer se as mesmas histórias poderiam ser ambientadas em outro lugar. Ao mesmo tempo em que desmistifica o povo afegão e os muçumanos em geral, Hosseini transforma o seu país em um cenário único e apaixonante. Ao final da leitura desta obra (cujo título em inglês é And the Mountains Echoed), o que parece ecoar no coração do leitor é uma única palavra: Afeganistão.

O silêncio das montanhas, por Khaled Hosseini. Globo, 2013. 350 páginas.

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O silêncio das montanhas
Autor: Khaled Hosseini
Tradutor: Cláudio Carina
Editora: Globo
Ano desta edição: 2013
350 páginas

Citações favoritas:

Sente-se furiosa consigo mesma pela própria estupidez. Abrir-se dessa forma, voluntariamente, para uma vida de angústias e preocupações. Foi loucura. Pura insanidade. Uma fé espetacularmente tola e sem base, contra enormes probabilidades, de que um mundo que não controlamos não nos tire a única coisa que não podemos perder. Fé de que o mundo não vai nos destruir. […] Naquele momento, não consegue imaginar uma coisa mais irracional e temerária do que optar por ser mãe.

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A beleza é uma dádiva imensa e imerecida, distribuída aleatória e estupidamente.

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[…] normalmente as pessoas veem a coisa ao contrário. Elas pensam que vivemos pelo que queremos. Mas o que as conduz é o que elas temem. O que elas não querem.

4 respostas em “[Resenha] O silêncio das montanhas

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