[Série] A Crônica do Matador do Rei

Esta resenha foi feita com base nas edições da DAW para The Name of the Wind e The Wise Man’s Fear e mantive os nomes no original. A tradução de trecho do livro foi feita por mim.

sdfgdgdfSinopse:

Este livro acompanha a trajetória de Kote e as duas forças que movem sua vida – o desejo de aprender o mistério por trás da arte de nomear as coisas e a necessidade de reunir informações sobre o Chandriano – os lendários demônios que assassinaram sua família no passado. Quando esses seres do mal reaparecem na cidade, um cronista suspeita que o misterioso Kote seja o personagem principal de diversas histórias que rondam a região e decide aproximar-se dele para descobrir a verdade. Pouco a pouco, a história de Kote vai sendo revelada, assim como sua multifacetada personalidade – notório mago, esmerado ladrão, amante viril, herói salvador, músico magistral, assassino infame.

Fonte: Livraria Cultura

Ouvi falar de Patrick Rothfuss via Brandon Sanderson, que o apresentou no seu podcast como um novo autor de fantasia que andava fazendo muito sucesso lá fora. Rothfuss lançou até agora dois livros da sua trilogia “A Crônicas do Matador do Rei” – O nome do vento e O temor do sábio –, que desde então foram publicados no Brasil pela editora Arqueiro.

O herói da saga é Kvothe, que é também o narrador da maior parte da história. Normalmente fujo de livros em primeira pessoa, mas a premissa de Rothfuss me convenceu. Kvothe nos aparece de início como um homem cansado e desencantado, dono de uma hospedaria numa vila sem importância. Um dia, salva um desconhecido que se apresenta como o Cronista. Quando descobre a verdadeira identidade de Kvothe – mago, ladrão e assassino famoso, uma lenda que se acreditava morta –, o Cronista o convence a lhe contar toda a sua história. Aí começa a narrativa do protagonista, intercalada por breves interlúdios de volta à hospedaria, momentos em que fica claro que essa história ainda não acabou.

O primeiro livro fala da infância de Kvothe, que nasceu numa trupe de artistas itinerantes e teve uma infância feliz – até seus pais serem assassinados por criaturas mitológicas chamadas Chandrian, nas quais ninguém sequer acredita. Kvothe, garoto excepcionalmente talentoso e inteligente, foge para a cidade grande, onde vive por anos como um menino de rua até conseguir chegar à famosa Universidade, com o sonho de se tornar um “arcanista” – pessoa formada, entre outras coisas, em artes mágicas de simpatia, em alquimia e na arte de nomear. Lá, ele faz amigos e inimigos, contrai dívidas, reencontra uma paixão da infância e investiga os misteriosos Chandrian.

Já o segundo livro da série se passa em grande parte em outros lugares, após Kvothe ser forçado a deixar por algum tempo a Universidade. Ele visita outras partes do mundo, como uma corte; Ademre, território de um povo guerreiro; e o mundo das fadas (Fae) e outras criaturas.

À primeira vista, o cenário e a trama da série não são nada de terrivelmente original. O sistema de magia é interessante por sua quase cientificidade, mas nenhum aspecto da construção de mundo me impressionou como me impressionam os livros de Sanderson, por exemplo. Além disso, a história de Kvothe segue o padrão da “jornada do herói”. Por que então esses livros são tão elogiados na fantasia contemporânea?

Em primeiro lugar, pela escrita. Rothfuss impressiona logo de cara com uma prosa fluida e musical, adequada ao seu narrador em primeira pessoa, que além de tudo é músico e poeta. Kvothe usa imagens lindas em suas descrições de lugares, pessoas e sentimentos, o que o torna uma personagem profundamente concreta. Na verdade, é a profundidade de emoção de Kvothe, mais do que qualquer outra coisa, que cria a suspensão da descrença e faz o leitor se envolver com a história de imediato.

As personagens secundárias são outro aspecto positivo do livro. Os amigos de Kvothe da Universidade, Willem, Simmon, Manet e Fela, são contrapesos de “normalidade” ao excepcional protagonista; Devi, credora de Kvothe e ex-aluna da Universidade, tem com ele um interessante relacionamento de suspeita e respeito mútuo; Auri, uma ex-aluna com muitos medos que vive escondida na Universidade, nos mostra possivelmente o lado mais gentil do protagonista; Elodin, o mestre da arte de nomear, é um dos personagens mais divertidos de toda a série, um professor irreverente que não hesita em zombar dos alunos; Ambrose, um nobre que despreza Kvothe por seus talentos e origem pobre, é um antagonista deliciosamente odioso e mesquinho; e Bast, leal assistente de Kvothe na hospedaria, é uma personagem mais fascinante do que parece à primeira vista.

Talvez a segunda personagem mais importante da série seja Denna, o interesse amoroso de Kvothe. Os dois se conhecem por acaso na infância e Denna depois reaparece na vida do protagonista durante seus anos de Universidade. Eles reatam uma amizade que se torna cada vez mais romântica, propiciando algumas passagens lindas da narração. Mas ela está longe de ser minha personagem preferida, e ao longo dos dois (longos) livros da série, a subtrama desse romance se torna um tanto enfadonha. Denna é linda, inteligente e também é uma artista. Não fala sobre o seu passado, nem sobre os motivos que a levam a trocar de nome constantemente, se recusando a criar laços com qualquer pessoa. Essa aversão à intimidade a leva – embora claramente apaixonada pelo protagonista – a fugir dele em vários momentos, e a história dos dois evolui pouquíssimo de um livro para o outro.

A imaturidade de Kvothe também não ajuda nesse quesito, além de causar diversos momentos em que o leitor só deseja salvá-lo de si mesmo. Aliás, Rothfuss acerta em fazer os erros de Kvothe (cometidos por imprudência ou precipitação) criarem conflitos e problemas para ele, tornando-o uma personagem mais real. O que é necessário, pois Kvothe – e considero isso um dos pontos negativos do livro – é simplesmente bom em tudo. Ele toca e canta belissimamente, tem uma memória prodigiosa, atua, conta histórias, aprende magia (incluindo a difícil arte de nomear) e luta (e tudo rapidamente!) e, claro, é um sucesso com as mulheres. Sem dúvida, se fosse uma mulher, teria sido chamada de Mary Sue!

Na verdade, Kvothe só não se torna insuportável porque é uma personagem que se reergue pelos próprios méritos, após ter uma infância sofrida e injustiças cometidas contra ele na Universidade. De fato, apesar de seus muitos talentos, Kvothe sofre muitos reveses, o que faz o leitor torcer por ele. Um dos fios narrativos mais interessantes e tensos de toda a série é a questão do dinheiro. Como o personagem viveu na rua por anos, é miserável se comparado com os colegas de Universidade. Não tem com que se sustentar e o dinheiro que passa a ganhar com suas habilidades diversas vai para se manter na Universidade. Acompanhá-lo contando moedinhas – e, por vezes, perdendo tudo! – é um dos fatores que dão uma sensação de realidade ao livro.

O primeiro livro é uma leitura mais rápida. Toda a seção na Universidade é muito divertida e tem mais o tom de narrativa escolar de Harry Potter do que da épica de Senhor dos Anéis. Rothfuss parece ter se “empolgado” um pouco no segundo livro, que tem 395 mil palavras (mais do que o mencionado The Way of Kings), nem todas elas necessárias. A prosa continua linda como sempre, mas a passagem de Kvothe em cada local se estende um pouquinho, e eu pessoalmente fiquei com saudade dos cenários e personagens do primeiro livro. Mas não que O temor do sábio seja chato – o devorei em alguns dias de leitura obsessiva.

De qualquer modo, apesar de alguns pontos negativos, recomendo a série fortemente. É uma fantasia muito bem escrita, bem pensada, com uma trama sólida e personagens cativantes, que contém momentos muito sensíveis e humanos. Uma última desvantagem: ainda não há data certa para a publicação do terceiro livro.

Em inglês

The Name of the Wind, por Patrick Rothfuss. DAW, 2007. 736 p.

The Wise Man’s Fear, por Patrick Rothfuss. DAW, 2011. 1120 p.

Em português

O nome do vento, por Patrick Rothfuss. Arqueiro, 2009. 656 p.

O temor do sábio, por Patrick Rothfuss. Arqueiro, 2011. 960 p.

Um trecho

Ela sorriu para mim. Um sorriso quente e doce e tímido, como uma flor desabrochando. Amigável e honesto e levemente encabulado. Quando ela sorriu para mim, eu senti…

Sinceramente não sei como descrever. Mentir seria mais fácil. Eu poderia roubar de cem histórias e lhe contar uma mentira tão familiar que você a engoliria inteira. Poderia dizer que meus joelhos ficaram moles. Que o ar fugiu dos meus pulmões. Mas não seria a verdade. Meu coração não bateu nem parou nem pulou. Isso é o tipo de coisa que as histórias dizem que acontece. Bobagens. Hipérboles. Platitudes. Mesmo assim…

Saia de casa nos primeiros dias do inverno, depois da primeira onda de frio da estação. Encontre uma lagoa coberta de gelo, ainda fresco e novo e transparente como vidro. Perto da margem o gelo vai sustentá-lo. Deslize mais. Mais para dentro. Finalmente encontrará um lugar onde a superfície mal aguenta seu peso. Lá sentirá o que eu senti. O gelo estala sob seus pés. Olhe para baixo e verá as rachaduras brancas dançando sobre ele como teias de aranha enlouquecidas e elaboradas. O silêncio é completo, mas você pode sentir as vibrações súbitas e fortes debaixo dos pés.

Foi isso que aconteceu quando Denna sorriu para mim. Não quero dizer que foi como se estivesse de pé sobre gelo quebradiço prestes a desfazer. Não. Eu me senti como o próprio gelo, subitamente quebrado, com rachaduras espiralando a partir de onde ela tocara meu peito. Só não desabei porque meus mil pedaços estavam todos se inclinando juntos. Se me movesse, temia que fosse desabar.

Talvez seja suficiente dizer que eu fui pego por um sorriso. E embora essa afirmação pareça tirada de um livro de histórias, é muito próxima da verdade.

8 respostas em “[Série] A Crônica do Matador do Rei

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