[Resenha] As sombras de Longbourn

longbournSinopse:

Admiradora de Jane Austen, a romancista Jo Baker perguntava-se quem seriam aquelas presenças pontuais e quase inumanas que serviam à mesa ou entregavam um recado para os personagens de Orgulho e preconceito, um dos romances mais recontados em versões literárias desde a sua publicação, há duzentos anos. As sombras de Longbourn é o romance dessas figuras invisíveis.

Fonte: Companhia das Letras

Eu sou aquela pessoa que sente arrepios quando fica sabendo que saiu mais uma adaptação de alguma obra clássica, envolvendo zumbis, vampiros ou altas doses de erotismo. Não que tenha problemas com qualquer uma dessas coisas – só não gosto quando as colocam no meio dos meus clássicos (esse tipo de experiência, na minha opinião, pertence ao campo das fanfictions – mas essa é outra discussão). Enfim, quando fiquei sabendo desta obra, ela me pareceu “segura”; afinal, Orgulho e preconceito, um dos meus livros preferidos, seria apenas o pano de fundo para outra história: a dos empregados da família Bennet.

Jo Baker se inspira em poucas menções de Austen a essas pessoas para criar suas personagens: o sr. e a sra. Hill, antigos empregados da família; a protagonista, Sarah, uma moça que deseja algo além da sua rotina cansativa na propriedade de Longbourn; e James, um recém-chegado com passado misterioso que logo se afeiçoa a Sarah. Seguindo a tradição austeniana, entre os dois se interpõe outra personagem: Ptolemy Bingley, empregado de Netherfield (a residência do sr. Bingley), que também se interessa por Sarah. A construção das personagens é feita habilmente: suas histórias, sentimentos e motivações são verossímeis e logo nos importamos com o destino, em especial, de Sarah e James. Como na série Downton Abbey, a autora nos mostra que as personagens do “andar de baixo” sentem e sofrem tão profundamente quanto suas contrapartes ricas.

A pesquisa histórica de Jo Baker claramente foi extensiva, e ela escreve com facilidade sobre a época do romance, explorando desde acontecimentos históricos até os menores detalhes de etiqueta e do dia a dia dos empregados. No entanto, todo esse conhecimento às vezes chega a pesar: o livro é extenso, e a autora descreve à exaustão procedimentos e trabalhos que a própria Sarah não suporta mais. Naturalmente, para quem se interessa pela época, pode ser muito interessante, mas senti que o livro se alongava demais em certas partes. O que mais capturou minha atenção, na verdade, nem se passa no cenário principal: alguns capítulos falam das guerras napoleônicas – novamente, do ponto de vista do baixo escalão, retratando todo o horror e a precariedade da vida dos soldados.

Por mais que a premissa seja uma história paralela, um conhecimento da obra de Austen auxilia, e muito, na compreensão do livro. Não sei se a autora esperava atrair apenas fãs de Orgulho e preconceito, mas não dá grandes explicações sobre o que está ocorrendo na vida da família Bennet, e imagino que alguém que não tenha lido a obra de Austen (ou visto algumas das adaptações – recomendo a minissérie de 1995 e o filme de 2005) fique um pouco perdido entre tantos nomes e eventos.

Minha maior crítica ao livro é justamente a dependência à obra de Austen. As grandes revelações de As sombras de Longbourn estão intimamente ligadas aos Bennet, e não de modo lisonjeiro; e, à medida que a história progride e Sarah interage mais com as personagens principais de Austen, elas nos parecem menos simpáticas. Imagino que Baker pretendesse enfatizar a diferença de classes e o olhar um tanto condescendente e indiferente de patrões em relação a empregados, mas não consegui concordar com essa interpretação das personagens (perdoem uma fã de longa data de Lizzy e Darcy!). Este, é claro, é um risco que corre qualquer obra que se apoie em um livro tão amado. É possível que outros leitores tenham reações bem diversas da minha, e nenhum problema em aceitar o universo de Baker.

Quanto à edição, a tradução é excelente e passa toda a riqueza de um texto cheio de termos específicos e históricos. A única coisa que me incomodou realmente foi a escolha cada vez mais comum de adotar as aspas do inglês nos diálogos. Várias editoras estão fazendo isso e, pelo visto, logo a prática será disseminada… mas ainda não consegui me acostumar.

Em conclusão, é uma obra interessante para os amantes de romances históricos, mas não me arrisco a afirmar que cativará todos os fãs de Austen. De fato, talvez eu a tivesse apreciado mais se, no lugar dos Bennet, houvesse personagens inteiramente novas fazendo o papel de coadjuvantes.

As sombras de Longbourn, de Jo Baker. Companhia das Letras, 2014. 456 p.

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As sombras de Longbourn
Autor: Jo Baker
Tradutor: Donaldson M. Garschagen
Editora: Companhia das Letras
Ano de publicação: 2014
456 páginas

Citação preferida

Sarah se perguntou como seria viver assim – levar a vida como uma contradança, em que tudo é bonito, gracioso e ordenado, em que cada volteio está predeterminado e o pé não pode pisar em lugar errado.

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