[Com Pipoca] The Princess Bride

op2Esta resenha foi feita com base no e-book em inglês da Houghton Mifflin Harcourt. Todas as traduções de trechos foram feitas por mim.

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Sinopse: Em 1941, um garoto está de cama com pneumonia quando o pai entra em seu quarto carregando um livro. O garoto quer saber se o livro é sobre esportes. O pai responde: “É sobre esgrima. Lutas. Tortura. Veneno. Amor verdadeiro. Ódio. Vingança. Gigantes. Caçadores. Homens maus. Homens bons. As mulheres mais lindas. Cobras. Aranhas. Criaturas de todas as naturezas e descrições. Dor. Morte. Homens corajosos. Homens covardes. Os homens mais fortes. Fugas. Mentiras. Verdades. Paixões. Milagres.” E o menino, embora não saiba, está prestes a mudar para sempre.

Fonte: Livraria Cultura

Fãs de contos de fadas, aventura e/ou dos anos 80 talvez se lembrem do clássico filme The Princess Bride ─ por aqui, A princesa prometida. (Aqui vai o trailer – ou, para ativar ainda mais a memória, uma versão dublada, bem estilo Sessão da Tarde.) Vi o filme recentemente e decidi que precisava ler o livro que o inspirou.

A obra é de 1973, embora eu não soubesse disso até terminá-la. Isso porque o livro é anunciado como “O clássico de S. Morgenstern, adaptado por William Goldman”. Goldman, o suposto adaptador, começa com toda uma história sobre como seu pai costumava ler essa obra de Morgenstern para ele na infância, durante os anos 1940. Anos mais tarde, Goldman decide apresentá-la ao filho. Nessa ocasião, percebe que seu pai pulava algumas partes quando a contava. Decide, então, cortar essas partes – as “partes chatas” – e aparece várias vezes no meio da história para justificar sua edição e explicar o que havia na obra original, com direito até a menções a estudiosos da obra de Morgenstern.

Só tem um detalhe: não existe obra original, nem S. Morgenstern nenhum. A obra é inteiramente de Goldman, e até os detalhes de sua vida pessoal que Goldamn insere nela (como a menção ao filho e à esposa) são ficcionais. A coisa é tão bem construída que eu comecei a achar que Morgenstern era real, e nem pensei em interromper a leitura pra verificar. Digo tudo isso antes de partir para a história principal porque Goldman cria uma experiência muito interessante: esse diálogo entre “adaptador” e leitor, com as reminiscências (mesmo que falsas) da infância do primeiro, dá um ar atemporal ao conto, como uma história passada de geração em geração. Embora suas interrupções afastem o leitor da história em momentos-chave (o que chega a ser irritante!), fica implícita a sugestão de que, se for ler este livro para uma criança, você também pode pular as “partes chatas”…

Pois bem, vamos às “partes legais”. O livro conta a história de Buttercup, uma camponesa em um país europeu durante alguma parte da Idade Média, que um belo dia percebe estar apaixonada pelo “farm boy” Westley. Quando Westley, também apaixonado, percebe que seu amor é correspondido, decide buscar a fortuna na América para então voltar e casar-se com Buttercup. Porém, seu navio é capturado e ele, supostamente, morto. Buttercup promete a si mesma que nunca mais vai amar, e alguns anos depois aceita se casar com o príncipe Humperdinck, cuja única paixão é a caça. Mas, é claro, nosso Westley não perdeu a vida no mar, e será visto novamente.

Isso acontece quando Buttercup, pouco antes do casamento, é raptada por três personagens: Vizzini, um siciliano mercenário, e seus dois empregados: Fizzek, um gigante gentil e nobre, e Inigo, um espanhol cuja missão na vida é vingar a morte do pai. Não vou mais longe na trama pra não dar spoilers a quem não viu ou não lembra do filme – basta dizer que os eventos se sucedem num ritmo veloz, e todos os eventos convergem para o dia e a hora do casamento de Buttercup e Humperdinck.

Os personagens de Goldman são incrivelmente originais. O trio de sequestradores tem personalidades fortes e instigantes. Já Westley é o herói perfeito: não se explica o que o torna mais forte, ágil, hábil e inteligente que todo mundo, mas também não nos importamos com isso. Afinal, estamos numa mistura de romance de aventura, conto de fadas e paródia – ele é o herói, e basta. Só a pobre Buttercup perde nessa história: é uma garota um pouco tola, ingênua e sempre à espera de Westley para salvá-la. Por estar tão acostumada às heroínas “modernas”, fiquei um pouco surpresa com esse aspecto da história.

A narrativa também é fenomenal: engraçada, sarcástica, fantasiosa e absurda. O livro oscila constantemente entre o exagero, quase ridículo, e o verdadeiramente emocionante e sensível (a confissão de amor de Buttercup, por exemplo, é sentimental até demais, mas linda, também, se você apreciá-la por sua inocência e genuinidade).

A impressão que fica é de ter lido algo muito original e diferente. O mais impressionante é como a obra é moderna: aproxima-se um pouco das releituras de contos de fadas que vêm aparecendo nos últimos anos, tendo um tom de paródia e estando sempre consciente de si mesma (Humperdinck, por exemplo, chama a madrasta de “E.S.” – “Evil Stepmother”). Os diálogos, em particular, merecem destaque: é uma pérola atrás da outra, e a coisa toda tem um ritmo cinematográfico. O que nos traz a…

Livro x Filme

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Para a minha enorme surpresa, o livro é idêntico ao filme. Ok, há alguns cortes, e uma ou outra fala é dita por outro personagem. Mas os diálogos são tirados da obra, palavra por palavra, o que foi uma ótima escolha!

O que se perde: surpreendentemente pouco. As maiores perdas são as partes do livro em que são apresentados o passado de Fezzik e de Inigo (cujo pai aparece, com algumas ótimas falas). Suas histórias são bem mais tristes que no filme, aliás, como apenas uma narrativa que entra na mente dos personagens pode ser. Os pais de Buttercup também merecem uma menção – estão constantemente discutindo e sua aparição, embora breve, é hilária. Além disso, o filme cortou o “zoológico da morte” de Humperdinck, que é bem o que parece: um lugar cheio de animais perigosos que o príncipe gosta de caçar. Inigo e Fezzik passam por ele, numa cena cheia de tensão. Também fiquei triste por terem cortado a participação de Buttercup na fuga final – talvez o melhor momento da personagem!

Porém, de modo geral, acho que livro e filme se complementam muito bem. É uma leitura rápida e muito divertida, que transforma seus leitores em crianças, como o mítico garoto que ouviu de seu pai a história…

Infelizmente, a obra não foi traduzida para o português. Mas, pra quem quer treinar o inglês, recomendo: é uma daquelas histórias que não dá pra parar de ler.

*

The Princess Bride: S. Morgenstern’s Classic Tale of True Love and High Adventure
Autor: William Goldman
Editora: Houghton Mifflin Harcourt
Ano de publicação: 1973
E-book

Citações preferidas

Os pais de Buttercup não tinham exatamente o que você poderia chamar de casamento feliz: eles só sonhavam em se separar.

*

“Toda vez que você dizia ‘Garoto, faça isso’, achava que eu estava respondendo ‘Como quiser’, mas estava ouvindo errado. ‘Eu te amo’, era o que queria dizer, mas você nunca, nunca ouvia.”

*

Ela nunca tivera uma aparência melhor. Entrara no quarto como uma garota impossivelmente bonita. A mulher que emergiu era um tanto mais magra, bem mais sábia, e infinitamente mais triste. Esta entendia a natureza da dor, e sob a glória de suas feições, havia caráter, e um conhecimento seguro do sofrimento.

*

Suas botas eram pretas, e de couro. As calças eram pretas, e a camisa também. Sua máscara era mais preta que um corvo. Mas mais pretos que tudo eram seus olhos faiscantes.

*

A vida não é justa – só é mais justa que é morte.

3 respostas em “[Com Pipoca] The Princess Bride

  1. Oi, Isa!
    Não li o livro e não assisti ao filme e, imaginei uma história dentro da outra. O que se passa dentro de um livro enquanto alguém o lê e o que verdadeiramente acontece na mente de quem está lendo; dois mundos paralelos que se cruzam e interagem, que se molda conforme a presença do leitor e o sentimento pela história.
    Gostei bastante da resenha e não sei se conseguirei esse livro, por ser antigo e não publicado no Brasil. Enfim… Não custa procurar!
    Beijus,

  2. Pingback: [Especial] Curso – Fantasia em Imagem | Sem Serifa

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