[Resenha] A lição de anatomia do temível dr. Louison

brasiliana

Sinopse:

Porto Alegre. Dirigíveis gigantescos dominam o céu. Abaixo, o vapor cinzento dos bondes, das fábricas e dos estaleiros ao redor soma-se à fumaça dos charutos, dos cachimbos e das cigarrilhas. Vozes robóticas, barulho de hélices e maquinários misturam-se ao alarido do povo.

De um Zepelin, desembarca Isaías Caminha, um jornalista carioca enviado à cidade para escrever uma matéria sobre o assassino em série Antoine Louison, que há poucos dias assombrava o local com um verdadeiro show de horrores: a exposição dos órgãos de suas vítimas.

A aventura começa depois que o Dr. Louison, finalmente capturado e preso no hospício, desaparece misteriosamente de sua cela de segurança máxima sem deixar vestígios. Nesta busca pelo paradeiro do assassino, Isaías e um grupo de investigadores ainda vão topar com conhecidos do Dr. Louison, pertencentes a uma sociedade secreta de intelectuais, chamada Parthenon Místico, que estão dispostos a tudo para defendê-lo e desmascarar os criminosos.

Fonte: Casa da Palavra.

Vencedor do concurso Fantasy, promovido pela Casa da Palavra, este livro tem uma proposta ousada: criar um universo fantástico ambientado no Brasil, batizado de Brasiliana Steampunk. A corajosa empreitada foi um sucesso, e resultou em um livro diferente de todos que já li.

A lição de anatomia do temível dr. Louison é um romance epistolar ambientado em 1911, em uma Porto Alegre retrofuturista, repleta de serviçais robôs e dirigíveis modernosos. Nesse cenário, acompanhamos a investigação dos crimes cometidos pelo dr. Antoine Frederico Louison, condenado pelo assassinato de vários membros da alta sociedade, os quais ele dissecava e usava de modelo para ilustrações artísticas de anatomia.

Uma vez que o dr. Louison é preso e foge logo no início do livro, comecei a ler acreditando que acompanharia uma busca pelo assassino. Mas o formato da história é –diferente: após apresentar, no início, o criminoso e sua pena, a narrativa retorna a datas anteriores à prisão, para aprofundar as causas e métodos do crime cometido. Eu não esperava isso da trama, mas foi bastante interessante conhecer mais a fundo o “Mefistófeles tupiniquim”.

A escolha e a construção dos personagens da história é minuciosa e muito bem feita. Digo “escolha” porque os personagens de Tavares são, em sua maioria, retirados de clássicos da literatura brasileira. Assim, (re)encontramos em sua obra figuras criadas por Machado de Assis, Álvares de Azevedo, Raul Pompeia, Aluízio de Azevedo, entre outros.

Confesso que não conhecia a maior parte desses personagens – não me orgulho em dizer que engrosso as fileiras dos que pouco leem a literatura nacional – mas é possível entender e se fascinar com todos eles. Em especial com os que me eram familiares: foi muito interessante conhecer o destino que o autor deu a Rita Baiana, Pombinha e Léonie, de O cortiço. Sem falar em Simão Bacamarte, de O alienista, ao qual é dedicada uma das seis partes da obra, e cujas loucuras e manias são nela abordadas de forma ainda mais profunda que em Machado. Pelos poucos personagens que reconheci, é possível perceber o cuidado que o autor teve em respeitar os originais ao encaixá-los em seu universo.

Os personagens originais também chamam bastante a atenção, em especial o dr. Louison e sua amante, Beatriz de Almeida & Souza. Esta é uma escritora elegante e reconhecida, mas que sofre um racismo perceptível desde o início da obra. (Por falar em racismo, abro aqui um parêntese para comentar que achei genial o caminho que o autor achou para transformar o Brasil do século XX em um cenário steampunk: com o fim da escravidão, os senhores de terras começaram a importar robôs para substituir a mão de obra perdida!)

O dr. Louison encanta e intriga o leitor desde a sua primeira descrição:

“Projetava-se ali a imagem que correspondia aos antigos e moribundos ideais de um título de doutor. Sua voz pausada e sua fabulação eloquente, um pouco desencontrada das imagens em projeção, me feriam os ouvidos como apenas a mais perfeita sinfonia era capaz. Era um doutor aquele homem, que resgatava da humanidade decaída o pecado original de sua origem simiesca. Um doutor que conquistava a audiência seguro de sua majestade, falando e gesticulando como um herói mítico, desses que a vida insiste em esfumaçar de nossa imaginação.”

Com esse personagem misterioso e cheio de charme, Tavares cria um Hannibal Lecter brasileiro. Não falo do canibalismo, mas da frieza, da elegância e da inteligência que observamos tanto no personagem americano como no dr. Louison.

Aliás, mistério e charme é o que não falta nessa narrativa. A partir de cartas, diários e gravações, as vozes dos muitos personagens vão formando um quebra-cabeça que o leitor vai montando para desvendar as razões e as consequências dos crimes de Louison. Essa mistura de narradores renova o interesse do leitor a cada parte ou capítulo. Cada um tem estilo e ponto de vista bem marcantes. O único narrador de que não gostei muito foi Isaías Caminha (criado por Lima Barreto em Recordações do escrivão Isaías Caminha), devido à sua linguagem pomposa e até enfadonha. Embora seu detalhismo seja providencial para ambientar o leitor logo na primeira parte, achei a leitura de suas partes um tanto cansativa. Mas os demais narradores são bem mais gostosos de ler, e o conjunto do livro vale muito a pena.

Através desses muitos narradores, Tavares nos apresenta a uma realidade brasileira fantasiosa ─ mas nem tanto. Em seu livro, aborda muitos preconceitos de raça, gênero e sexualidade presentes em nossa sociedade até hoje e que seus protagonistas tentam combater. Assim, nas entrelinhas de uma história intrigante, há uma análise, superficial mas certeira, de nossa sociedade, um atributo que só podemos encontrar em livros produzidos por nossos compatriotas. Isso sem contar as deliciosas brincadeiras com a linguagem, entre rimas e aliterações que divertem o leitor e que raramente encontramos com tanta riqueza em obras traduzidas.

O universo Brasiliana Steampunk já começa a fazer sucesso e a deixar os leitores ansiosos por mais. Foi uma empreitada ousada, mas fico contente que tenha sido feita. Afinal, como coloca o personagem Solfieri: “É claro que tens medo, e este é o início de todo caminho invulgar.”

*

A lição de anatomia do temível dr. Louison
Autor: Enéias Tavares
Editora: Fantasy/Casa da Palavra
Ano de publicação: 2014
304 páginas

Citações favoritas:

A religião do crucificado tem lá o seu valor, senão enquanto verdade, enquanto metáfora. Somos todos como ele, pregados numa estaca e deixados para morrer, entre outras criaturas igualmente flageladas. Queremos água, e nos dão vinho avinagrado. Queremos palavras de boa sorte, e nos furam o bucho com uma lança. Queremos presentes, e nos tiram as roupas, jogando jogos de sorte e azar. Queremos um pai que nos abrace e temos apenas o nosso abandono.

*

Quando abri o primeiro [dos livros], meus olhos começaram a correr pelas linhas, da esquerda para a direita, de cima para baixo, sorvendo as palavras como se fossem pedaços de pão e as letras, gotas de chuva.

*

São tantas as possibilidades para essa narrativa que quase me perco em suas infindas variantes. Como na vida, a concatenação de uma história nem sempre segue uma lógica precisa e predeterminada. Às vezes, como no dia a dia, precisamos, narradores que somos de nosso próprio drama, improvisar.

*

[…] a arte, como a própria natureza, despreza a lógica moralista que promete falsamente aos bons bênçãos e aos maus, punições.

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5 respostas em “[Resenha] A lição de anatomia do temível dr. Louison

  1. Confesso que também faço parte do grupo que não dá tanta atenção para a literatura nacional – ainda mais dos clássicos. Acho que muito disso se deve a experiência um tanto traumatizante que tive com Machado de Assis em conjunto com a minha falta de coragem de encarar certos livros tão discutidos no âmbito escolar. Mas lendo sua resenha, fiquei bem interessada em conferir a proposta inovadora do autor, pois me pareceu que além de ter uma trama bastante completa, esse livro ainda incentiva os seus leitores a buscarem a leitura de outros livros. Gostei mesmo!
    Beijos,
    Isabelle | http://www.mundodoslivros.com/

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