[Resenha] Sandman – Volume 2: Casa de Bonecas

Esta resenha foi feita com base na edição em inglês da Vertigo. Todas as traduções, porém, correspondem à edição da Panini Books, cuja tradução é assinada por Jotapê Martins.

casa-de-bonecas A estreita ligação entre voar e a representação de pássaros explica por que, nos homens, os sonhos de voar costumam ter um sentido francamente sensual; e não nos surpreenderemos ao ouvir dizer que este ou aquele sonhador se sente muito orgulhoso de seus poderes de vôo. A Interpretação dos Sonhos, Sigmund Freud

Rose Walker: Sabe o que Freud disse sobre sonhar que está voando? Significa que você, na verdade, sonha que está tendo uma relação sexual.

Morfeus: É mesmo? Diga-me, então, o que significa quando se sonha com uma relação sexual?

Casa de Bonecas, Neil Gaiman   Após o relativo sucesso de Prelúdios e noturnos, os leitores esperavam que Neil Gaiman retomasse alguns dos temas presentes no volume anterior, como o encontro com Lúcifer ou a geografia do Sonhar. Porém, enquanto o tão aguardado retorno à paisagem infernal não se realizava, o autor inglês preferiu guiar a audiência ao invés de ser guiado por ela.

Se Prelúdios é sobre o próprio Morfeus, Casa de bonecas teria uma protagonista feminina. A esta história, porém, Gaiman agregaria outros temas, que vão desde um caso amoroso de milênios atrás até os sonhos de um menino aprisionado e abusado por seus tutores, desde o percurso de um imortal que esbarra com ninguém menos que William Shakespeare até uma singular e assustadora convenção de assassinos em série. Se Prelúdios e noturnos foi pensado como um moderno conto de terror, Casa de bonecas, cujo título veio de uma peça de Ibsen, valoriza muitos dos temas futuros de Sandman, como paixão, perda, vingança e autoconhecimento. No entanto, se na obra de Ibsen havia uma mulher se libertando de regras tradicionais impostas pela sociedade vitoriana, a protagonista de Gaiman precisa lidar com sua incapacidade de firmar vínculos afetivos.

No prólogo do volume, chamado “Contos na areia”, um velho ancião narra uma antiga história ritual a um jovem de sua tribo, que, após a circuncisão, percorre o caminho da vida adulta. Tal história dentro da história funciona como uma alegoria sobre a origem do deserto, sobre a diferença entre amor e desejo e sobre orgulho divino, nunca justo, nunca gentil. Ao descrever a paixão da rainha africana Nada por Kai´ckul, o misterioso senhor dos sonhos, Gaiman recria antigas histórias míticas que explicavam a realidade dos povos criadores. A rainha, ao saber que seu amante é na verdade um dos Perpétuos, viola seu hímen com uma pedra afiada, esperando que Sonho desista de persegui-la. Sentindo-se ofendido pela insistente fuga da mortal, Morfeus condena-a ao Inferno.

O prólogo termina informando que essa é a versão masculina da história, sendo a versão feminina bem diferente. Se essa história trata do crescimento e aceitação masculina, Casa de bonecas é uma interessante reflexão sobre a condição feminina, tendo por mote as dúvidas, descobertas, temores e anseios de Rose Walker, sua protagonista. Nas palavras de Gaiman, no roteiro do capítulo três, seu objetivo com Casa de bonecas foi discorrer ficcionalmente “sobre mulheres, e sobre a atitude dos homens no que concerne às mulheres; sobre as casas e as paredes que as pessoas constroem ao redor de si mesmas e ao redor dos outros, para proteção ou aprisionamento, ou ambos; e sobre pôr abaixo essas paredes” (Sandman Companion, p. 41).

Capas de Sandman 9-12. Arte de Dave McKean.

Capas de Sandman 9-12. Arte de Dave McKean.

Embora Morfeus seja um personagem importante deste volume, Walker é a protagonista. Neta de Unity Kinkaid, uma das vítimas da doença do sono que foram apresentadas no volume anterior, ela descobre sua origem familiar quando é enviada à Inglaterra. Circundando a história de Rose, este segundo volume inicia e conclui nos reinos do Limiar, casa de Desejo, irmã de Morfeus. Em um rápido diálogo com Desespero, se revela que o fatídico romance entre Sonho e Nada teve a participação das duas irmãs, Desejo pretendendo levar Morfeus a cometer o único crime entre os Perpétuos: o de tirar a vida de um integrante da própria família. Para tanto, engravida Unity, fazendo de Rose neta-sobrinha do próprio Sonho. Para Morfeus, sua função atual é findar com um vórtice onírico que pode destruir os sonhadores, vórtice que acaba se revelando a própria Rose.

Nos sonhos de Rose, somos apresentados a um censo no Sonhar, organizado pelo bibliotecário Lucien. Por meio dele, sabemos que a terra de Morfeus é povoada por 11.062 seres e que quatro desapareceram após o sequestro de seu rei. São eles Brute e Glob, monstros dos sonhos, Coríntio, um pesadelo, e Fidler´s Green, responsável pela construção das paisagens do sonhar. No segundo capítulo, A mudança, são apresentados os curiosos personagens da casa onde Rose está morando, na Flórida: Hal Carter, transformista profissional, Barbie e Ken, um casal desconfortavelmente perfeito, Chantal e Zelda, duas irmãs, ou amantes ou amigas, que se vestem como viúvas negras, e Gilbert, um simpático e misterioso sósia do escritor G. K. Ghesterton que se mostrará um bom amigo e guardião da protagonista. Todos esses personagens retornarão em volumes futuros de Sandman.

Dentro da mente de Jed, o irmão perdido de Rose, Brute e Glob forjaram um mundo imaginário inspirado nas aventuras do Sandman dos anos 1970, aprisionando também o herói e sua esposa, Lytta Hall. Outro fugitivo do Sonhar que encontramos nesse capítulo é o pesadelo Coríntio, que se dirige para uma convenção bastante incomum de homens que se apresentam como fazendo “parte do sonho americano”. Por meio de rica paleta de personagens, Gaiman aprofunda o conflito de Rose ser o atual vórtice onírico. Numa realidade em que usasse seus poderes, sonhadores perderiam sua individualidade na complexa realidade do Sonhar. Em outras palavras, não haveria mais sonhadores em suas diferenças e peculiaridades, apenas um grande sonho no qual todos viveriam a mesma realidade onírica. Enquanto sonha, Rose reflete sobre os sonhos de todos os estranhos moradores da velha casa em que mora. Num capítulo chamado Noite adentro, testemunhamos a variedade de tons que encobre a mente de cada sonhador e o perigo da conexão caótica causada pelos poderes de Rose.

Capas de Sandman 13-16. Arte de Dave McKean.

Capas de Sandman 13-16. Arte de Dave McKean.

Imersa nos sonhos de Chantal, Zelda, Barb, Ken e Hal, Rose percebe a sutileza das paredes psíquicas que separam os sonhos, as ilusões e as mentiras que seus vizinhos vivenciam. O principal anseio dela é destruir toda e qualquer barreira que limite ou afaste essas realidades. Do ponto de vista de Rose, quebrar as barreiras, derrubar as paredes, desativar as limitações é uma necessidade, não uma escolha. Desse modo, Gaiman finaliza o segundo volume de Sandman apresentando uma personagem que compreende a necessidade de destruir os impedimentos que a separam das outras pessoas. Se Prelúdios era uma saga sobre um deus voltando a suas responsabilidades, Casa de bonecas é uma história sobre uma jovem que, após viajar pelos seus próprios medos, recupera a determinação necessária para conhecer a si própria e as pessoas à sua volta.

Casa de bonecas abre com duas epígrafes. Uma verdadeira, outra ficcional. Ou seria uma ficcional e outra verdadeira? Gaiman deixa, propositalmente, a ambiguidade presente na página que inicia sua saga. “Sonhos e visões são infundidos nos homens para seu benefício e instrução”. “Sonhos são estranhos e astutos e eles me assustam”. Indiferente de terem sido ditas por Artemidoro de Daudos ou por Rose Walker, as duas sentenças resumem a trama de Casa de bonecas: sonhos que servem de instrução, sonhos que servem de alerta.

Na configuração das três personagens femininas da trama, Gaiman problematiza diversas das angústias contemporâneas no que concerne a questões de gênero e poder. No conto milenar, Nada é massacrada pela condenação de seu amante, não tendo permissão para escapar de um julgamento divino. Lytta, por sua vez, vive e sonha a fantasia de seu marido, sendo libertada desses sonhos apenas para perceber quão danificada está. Contrariamente, Rose Walker simboliza a possibilidade de uma nova caracterização feminina, centrada e autoconsciente de suas necessidades. Seu destino é a mudança. Como também é o nosso, ao notarmos que também vivemos, ironicamente ou não, numa irreal/surreal casa de bonecas.

*

Sandman – Volume 2: Casa de Bonecas
Sequência de Prelúdios e noturnos
Tradutora: Ana Ban
Editora: Panini
Ano de publicação: 2010
614 páginas  

Citações favoritas:

(A primeira detalha o reino de Desejo, que vive no único lugar que lhe seria confortável. A segunda é sobre a “vida de sonhos” de Lyta Hall. A terceira, uma assustadora versão da história de Chapeuzinho Vermelho. A quarta, sobre os sonhos de Rose Walker e sobre as paredes que criamos ao nosso redor.)

Há apenas uma coisa a ser vista nos domínios crepusculares de desejo. Chama-se Limiar, a fortaleza de Desejo. Desejo sempre viveu no limite. O Limiar é maior que se pode imaginar. É uma estátua do(da) próprio(a) Desejo. (Desejo nunca se satisfez com apenas um sexo. Ou com apenas uma de qualquer coisa que fosse, exceto talvez o próprio limiar.) O Limiar é um retrato completo e detalhado de desejo, erguido a partir do anseio de desejo por ter carne e osso, sangue e pele. E, como toda verdadeira cidadela, desde os primórdios do tempo, o limiar é habitado. Dado o temperamento de Desejo, no entanto, apenas um único lugar da catedral de seu corpo pareceu apropriado para lhe servir de lar. Desejo vive no coração.

*

Lyta mora numa casa linda com seu marido, seus dois lacaios e milhares e milhares de telas. Ela tem todos os vestidos possíveis e um marido que tem um trabalho muito importante. Hector é o Sandman. Com seus dois assistentes, Bruto e Glob, ele concede a todas as crianças do mundo Sonhos Maravilhosos. Morando na casa de seus sonhos, com um marido que é um sonho e… Lyta perde a linha de pensamento e começa a escovar seu cabelo de maneira distraída. É isto que ela quer? Era isto que ela queria? Lyta sempre quis estar com Hector. Mesmo quando eram crianças, quando ela era uma menina rica e forte e ele ainda um herói-pirralho… mas ela deve ter querido mais do que isso. Não deve? Só que os sonhos de Hector vieram em primeiro lugar. Sempre foi assim. Por que ela fez aquilo? Tornar-se uma cópia barata de sua mãe desaparecida?

*

Hmm. Você conhece a história da Chapeuzinho Vermelho? Eu vou lhe contar uma das versões originais. Foi dito a uma garotinha que levasse pão e leite para sua avó. Quando ela caminhava pela floresta, um lobo se aproximou e lhe indagou aonde ia. “À casa da vovó!” O lobo se apressou em chegar antes ao local. Ele matou a vovó, derramou seu sangue numa garrafa e fatiou-lhe a carne sobre um prato. Então vestiu sua camisola e esperou na cama. Toc, toc! “Entre minha querida!” “Eu trouxe um pouco de leite e pão pra senhora, vovó!” “Sirva-se, minha querida. Tem carne e vinho na despensa!” A garotinha comeu o que lhe foi oferecido. E, ao fazer isso, um gatinho disse: “Vadia! Comer a carne e beber o sangue da própria avó!” Então o lobo ordenou: “Dispa-se e venha se deitar na cama comigo!” “Onde eu deixo minha saia?” “Jogue no fogo. Você não vai mais precisar dela!” A cada peça de vestuário, saiote, corpete e mia, a jovem repetia a mesma pergunta, e o lobo respondia: “Jogue no fogo. Você não vai precisar mais!”. Quando deitou na cama, a menina disse: “Vovó, como a senhora está peluda”. “É pra me manter quentinha, querida!” “Oh, vovó! Que unhas mais compridas a senhora tem!” “São pra me coçar melhor, querida!” “Oh, vovó. Que dentes enormes a senhora tem!” E ele devorou a garota.

*

Rose sonha. Ela sabe que está sonhando. Nunca teve um sonho assim antes. Tudo parece tão real, tão vívido, mais verdadeiro e vigoroso do que o mundo desperto. Sua noção de identidade nunca esteve tão segura. Ela pode sentir seu corpo que dorme na cama logo abaixo. Não faz parte dela, do seu eu essencial, a verdadeira Rose. Hesitante, ela amplia suas percepções… Ela pode senti-los. Chantal sonhando intricados loops autorreferentes na tentativa de não revelar nada de si para si mesma. Zelda ainda travando antigas batalhas, a garotinha perdida na mulher cujo coração ela partilha. A rica vida onírica de Bárbara, mais válida e verdadeira do que qualquer coisa que sente quando desperta. O suculento mundo de dinheiro, sexo e poder de Ken. A infindável busca de Hal por identidade e amor. Todos procurando um lugar ao qual pertencer. Todos buscando um canto se sentir seguros. E ela vê como é tudo tão simples. Vê como são finas e frágeis as paredes que os separam. Vê como seria simples esmigalhá-las. Ela estende sua mente e dá um pequeno cutucão. E as paredes… As paredes vêm abaixo.

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2 respostas em “[Resenha] Sandman – Volume 2: Casa de Bonecas

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