[Resenha + Vídeo] Jurassic Park

capajurassiSinopse:

Uma impressionante técnica de recuperação e clonagem de DNA de seres pré-históricos foi descoberta. Finalmente, uma das maiores fantasias da mente humana tornou-se realidade. Agora, criaturas extintas há eras podem ser vistas de perto, para o fascínio e o encantamento do público. Até que algo sai do controle. Em Jurassic Park, escrito em 1990 por Michael Crichton, questões de bioética e a teoria do caos funcionam como pano de fundo para uma trama de aventura e luta pela sobrevivência.

Fonte: Aleph

Atenção! O vídeo contém spoilers sobre todo o livro e os filmes. A resenha abaixo menciona algumas cenas mas não revela nenhum ponto importante da trama.

Como o vídeo ficou enorme, aqui vão os assuntos principais:

00:00 – Cadê o Oscar da Gi?
01:36 – Começo do livro x filme
03:07 – Ciência do livro x filme
04:40 – John Hammond
07:24 – Ian Malcolm
10:28 – Tim e Lex
12:07 – Nedry
13:15 – Dinosaurs gone wild
14:39 – Nossas cenas favoritas do livro
17:17 – Raptors são maravilhosos
18:00 – A grande sacada do livro
18:47 – Violência contra dinossauros
19:38 – Jurassic World: primeiras impressões, verossimilhança, referências, Chris Pratt, e mulheres na franquia.

 

Não sei vocês, mas a música tema de Jurassic Park me lembra da infância. Talvez dinossauros devorando pessoas não devessem ser uma lembrança muito nostálgica, mas o filme de 1993 é um dos meus preferidos. Sempre tive vontade de ler o livro que o inspirou, e essa edição linda da Aleph me deu uma ótima oportunidade. Embora seja difícil não pensar no livro em termos de semelhanças e diferenças com o filme, falarei mais do livro em si aqui, e no vídeo discutimos a relação entre eles.

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OLHA ESSAS PÁGINAS VERMELHAS COMO O SANGUE QUE JORRA DE METADE DOS PERSONAGENS CONTRASTANDO COM O PRETO E BRANCO DOS OSSOS DO DINO SUPOSTAMENTE MORTO. SANTO SIMBOLISMO BATMAN.

A primeira parte do livro é um pouco devagar – Crichton faz uma introdução sobre biogenética e espionagem corporativa no final dos anos 80, deixando tudo bastante verossímil e habilmente nos fazendo acreditar na história. Então passamos para outras cenas: uma doutora que recebe um paciente todo rasgado como se tivesse sido atacado por um animal (moça, você não faz ideia), um ataque de um estranho lagarto em uma praia deserta (o que será que é?!), e a análise do corpo desse animal, que deixa os cientistas confusos – seria uma espécie desconhecida de lagarto? (spoiler: não), até que alguém ousa sugerir que é um dinossauro. Os cientistas riem. Rá, rá, um dinossauro. Até parece.

Então a coisa começa de verdade: somos apresentados ao dr. Alan Grant e sua assistente de 20 poucos anos, a dra. Sattler, que são interrompidos em meio a uma escavação pelo advogado Bob Morris, que quer saber sobre a relação deles com John Hammond – dono da empresa de biogenética InGen, que anda financiando várias pesquisas sobre dinossauros e comprando vários equipamentos caros e mandando-os pra uma ilha particular na Costa Rica. (Em certo momento, Morris pergunta o que Hammond poderia fazer com a informação que pediu a Grant, sobre dieta de hadrossauros bebês. “Alimentar um hadrossauro bebê”, responde Grant. Os dois dão uma gargalhada.)

Grant não sabe de muita coisa, mas logo depois da visita recebe uma ligação do próprio Hammond, convidando-os para um fim de semana de consultoria na sua ilha. Ele não explica no que consiste a ilha, mas Grant e Sattler concordam. (Afinal, quais as chances de ser uma chacina jurássica, não é mesmo?) De fato, eles ficam sem saber em que estão se enfiando até chegarem na ilha em si e depararem com um dinossauro. A essa altura, já estão acompanhados de Nedry (cara de TI que controla tudo e resolveu trair a InGen e fazer espionagem para uma empresa competidora) e o dr. Ian Malcolm (um matemático rockstar especializado na teoria do caos que prevê nada menos do que o colapso total da ilha).

Grant e Sattler ficam bastante encantados com o que está rolando – por um bom tempo, nenhum dos dois parece entender as implicações sinistras do trabalho promovido por Hammond. Malcolm é a única voz dissidente, mesmo depois que o dr. Wu, o geneticista chefe, explica em detalhes por que é absolutamente impossível que os dinossauros se reproduzam. (Gosto desse livro pelo foreshadowing bem na cara do leitor. Se alguém diz que algo não pode acontecer ou que seria bem ruim se acontecesse, você pode ter certeza que é exatamente o que vai rolar.)

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A única coisa mais assustadora que um bando de raptors: suas fotos de 2009

O tour pelo parque não é bem um tour, mas uma investigação que está sendo realizada por Gennaro, um advogado enviado pela InGen para analisar a viabilidade e segurança (rá!) do parque. Outras pessoas na ilha são Ed Regis, relações públicas; Robert Muldoon, guarda especializado na caça de animais selvagens; John Arnold, chefe do centro de controle do parque; e dr. Harding, o veterinário.

E, porque Hammond é um imbecil, convida também os netos para esse fim de semana mágico: Tim, de 11 anos, e Lex, de 7. Tim é um garoto apaixonado por dinossauros, que tem alguns problemas com o pai (que não se interessa por esse hobby) e que encontra no dr. Grant um ótimo interlocutor. Lex existe principalmente para irritar todo mundo e ser um inconveniente.

Naturalmente, as coisas começam a dar errado. Devido à sabotagem de Nedry, cai a energia do parque – incluindo a das cercas eletrificadas que mantinham os animais presos – e assim o sistema, como previu Malcolm, começa aos poucos a entrar em colapso. Como se não bastasse a perda de energia que deixa os animais soltos na ilha, há um probleminha extra: Tim e as crianças veem um navio saindo da ilha em que alguns velocirraptores pegaram carona. Seria um tanto quanto ruim se ele atracasse no continente, então, além de sobreviver, Grant ainda precisa avisar alguém e tentar fazer o navio dar meia-volta.

O livro é narrado em terceira pessoa pelo ponto de vista de todos os personagens, que se separam e se encontram em diferentes momentos do livro. Sem dúvida é um livro majoritariamente masculino: a dra. Sattler, embora tenha alguns bons momentos, é uma personagem secundária; e Lex não chega nem perto de ter a proatividade do irmão, que em mais de um momento salva a si mesmo e a ela.

A situação de todos vai ficando cada vez mais desesperadora, e da metade pra frente é impossível largar o livro. Temos tiranossauro escapando, virando carros e tocando o terror de modo geral (incluindo um “bebê” T-rex, uma gracinha de 2,5 m de altura); dilofossauros envenenando pessoas; procompsógnatos em grupo comendo gente moribunda; e, é claro, toda uma série de eventos sinistros decorrentes da fuga dos raptors (cujo número é bem maior do que o pessoal do parque imaginava). Quem segurou o fôlego no filme vai encontrar todos os melhores momentos do longa e muitos outros, com uma narrativa bem mais explícita e sangrenta, aliás.

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Estudos indicam que o brontossauro amava docinhos

Mas, fora as ótimas cenas de ação e horror, o destaque da obra fica para sua mensagem – apresentada principalmente pela figura de Malcolm, que desde o início vê a arrogância desmedida de Hammond e a falta de preparação de todos no parque para lidar com o que eles criaram tão facilmente. Malcolm argumenta que a ciência chegou a um ponto em que não tem mais disciplina para lidar com as descobertas herdadas do passado, e agora usa e abusa do poder propiciado pelo conhecimento. Isso cria uma situação insustentável, como a desgraça do parque mostra. Nesse sentido, Jurassic Park se aproxima bastante da obra geralmente considerada a primeira ficção científica: Frankenstein. A emoção da descoberta leva à criação de “monstros” – até que os monstros ganham vida fora das paredes do laboratório, ameaçando destruir seu criador. Ao homem, resta se responsabilizar – ou não – por suas ações. Se sobreviver.

Assim, Jurassic Park reúne os melhores aspectos do gênero, apresentando desde cenas que deixam o leitor mordendo as unhas (você não vê as 500 e tantas páginas passando!) até discussões profundas sobre ciência, ética e os limites do poder humano. Questões que continuam tão relevantes – e não resolvidas – tanto hoje como 25 anos atrás. Altamente recomendado!

*

Jurassic Park
Autor: Michael Crichton
Tradutora: Marcia Men
Editora: Aleph
Ano de publicação: 1990
Ano desta edição: 2015
528 páginas

 

Trecho preferido

– Eu vou lhe dizer do que estou falando. A maioria dos tipos de poder requer um sacrifício substancial por seja lá quem os deseje. Há um aprendizado, uma disciplina que se estende por vários anos. Qualquer tipo de poder que se deseje. Presidente da companhia. Faixa preta em caratê. Guru espiritual. Seja lá o que você estiver buscando, precisa dedicar tempo, praticar e se esforçar. Precisa abrir mão de muita coisa para consegui-lo. Ele tem que ser muito importante para você. E uma vez que você o obtenha, ele é o seu poder. Não pode ser dado: ele reside em você. Ele é, literalmente, o resultado da sua disciplina. Agora, o interessante desse processo é que, na época em que alguém adquire a habilidade de matar com as próprias mãos, também amadurece ao ponto em que não vai usar essa habilidade de modo insensato. Assim, esse tipo de poder tem um controle embutido. A disciplina de conseguir o poder te transforma para que você não abuse dele. O poder científico, porém, é como a riqueza herdada: obtido sem disciplina. Você lê o que outros já fizeram e dá o passo seguinte. Você pode fazer tudo muito jovem. Pode fazer progresso bastante rápido. Não há uma disciplina que dure muitas décadas. Não há maestria: os velhos cientistas são ignorados. Não há humildade diante da natureza. Há apenas uma filosofia de “ficar rico rápido”, de “fazer um nome rápido”. Trapaceie, minta, falsifique… Não importa. Nem para você, nem para seus colegas. Ninguém vai criticar você. Ninguém tem padrões. Todos estão tentando fazer o mesmo: fazer algo grande, e rápido. E porque você pode aproveitar do trabalho de outros que vieram antes, consegue realizar algo com rapidez. Você sequer sabe exatamente o que descobriu, mas já fez o relatório, patenteou e vendeu. E quem comprar vai ter ainda menos disciplina do que você. O comprador simplesmente compra o poder, como qualquer produto. Ele sequer concebe que alguma disciplina possa ser necessária.

– Você sabe do que ele está falando? – perguntou Hammond.

Ellie assentiu.

– Eu não tenho ideia – disse Hammond.

– Eu vou simplificar – respondeu Malcolm. – Um mestre de caratê não mata gente com suas próprias mãos. Ele não perde a paciência e mata sua esposa. A pessoa que mata é aquela que não tem disciplina, não tem moderação, e que comprou seu poder como um tipo de oferta especial de sábado. E esse é o tipo de poder que a ciência gera e permite. E é o motivo pelo qual você acha que construir um lugar como este é simples.

– E foi simples – insistiu Hammond.

– Então, por que deu errado?

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6 respostas em “[Resenha + Vídeo] Jurassic Park

  1. Tenho esse livro aqui em inglês para ler, mas ainda não tive coragem (não sei se a linguagem é muito difícil, pelo menos parece). Mas toda hora que lembro da história (ou quando leio resenhas dele, agora que tá na modinha já que Jurassic World saiu nos cinemas) eu fico me coçando para ler!!!

    E adorei a resenha! Dei boas risadas com os comentários entre parentesis, mas ainda não consegui assistir o vídeo, tenho essa chata mania de fazer mil coisas ao mesmo tempo. Por exemplo, nesse exato momento além de ter lido a resenha e estar aqui comentando também estou vendo Arrow. Pois é.

    http://www.ummetroemeiodelivros.com

    • Hahah, sem problemas. O vídeo está cheio de spoilers mesmo, só veja se não se incomodar com isso! Não sei se em inglês é muito difícil, mas vale muito a pena ver o livro, espero q vc consiga uma hora dessas.

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