[Resenha] A máquina diferencial

maquinadiferenciadaSinopse:

Em uma versão alternativa da Inglaterra vitoriana, a ascensão do Partido Radical trouxe mudanças impressionantes. Pelas ruas da capital, cartolas e crinolinas misturam-se a cinétropos, gurneys e cabriolés. O trem metropolitano e o sistema de esgotos revolucionam a rede urbana. Tudo graças às conquistas científicas alcançadas pela Máquina: no auge da Revolução Industrial, os avanços promovidos pela tecnologia a vapor anunciam a era da informática. Com um século de antecedência. Mas Londres também é uma cidade em convulsão. O alvoroço causado pela turba desordeira assusta a população. Além disso, uma conspiração mais sofisticada – porém não menos perigosa – parece ameaçar a segurança e a estabilidade de todo o país.

Fonte: Aleph

Conhecida como A Louca do Steampunk em diversos círculos sociais, estava bem ansiosa para ler esse livro basilar para este gênero literário. Ia pegar emprestado, mas quando vi a nova edição da Aleph quase enfiei meu sapato na vitrine para roubá-lo. Felizmente o Sem Serifa tem parceria com a editora e isso não foi necessário. A vitrine passa bem.

Evidências nº 01, 02, 03 e 04 – A Louca do Steampunk

Evidências nº 01, 02, 03 e 04 – A Louca do Steampunk [Fotos por ABK Estúdio, Relógio Digital e Mitsuo Yamamoto]

O pressuposto do romance, assim como de boa parte de outros livros de literatura especulativa, é um grande “E se…?”. Nesse caso: “E se Lorde Babbage tivesse obtido êxito em sua Máquina Diferencial?”. Na vida real isso não aconteceu por uma interrupção orçamentária, mas um museu londrino reconstruiu a máquina e ela realmente funciona! Ou seja, se algum burocrata do governo britânico não tivesse decidido parar de dar dinheiro para Babbage, a Era Vitoriana teria sido quase tão louca quanto os sonhos de Sterling e Gibson.

O livro começa na Londres de 1855 e é estruturado em iterações, cada uma delas com foco em um personagem. A obra começa numa vibe Titanic, com Sybil Gerard, filha de um líder ludista, observando o horizonte e tendo lembranças de seu tempo de prostituição. É, eu não esperava por essa também. Essa primeira (e menor) parte foi a que mais gostei.

A segunda (e maior) parte acompanha Edward Mallory, um paleontólogo subitamente enriquecido que fala várias asneiras sobre o brontossauro – ou Leviatã Terrestre – que descobriu em uma expedição na América do Norte, na qual ajudou a armar os índios nas complexas lutas que ocorrem nesse continente. Pensando bem, ele fala várias asneiras sobre diversas coisas.

“De modo algum. Simplesmente queria saber toda a verdade da questão.” (MALLORY, Ned)

A terceira segue Laurence Oliphant, um jornalista intensamente envolvido na política, que faz diversos acordos para tentar manter alguma estabilidade após O Grande Fedor e a revolta anarquista que o acompanhou.

O fio condutor é uma caixa com misteriosos cartões perfurados – que são lidos com as Máquinas que predominam em todos as repartições do governo e de empresas. Sybil a rouba do chefe de seu amante, Mallory a recebe de Ada Byron – ninguém menos que a filha do primeiro ministro Lord Byron, conhecida como a Rainha das Máquinas –, e Oliphant investiga seu trajeto.

Cartões perfurados. Imagino os do livro em formato mais próximo a um cartão de visitas aumentado.

Um dos meus medos em obras do gênero é a temática steampunk aparecer como penduricalho na narrativa, mas não foi o caso. As descrições são ricas e precisas e a tecnologia é intrínseca à narrativa, mas o ritmo é moroso e acredito que aqueles acostumados com as aventuras cinematográficas ficarão enfadados. Reconheço o valor da descritividade, especialmente em uma obra fundadora do gênero, mas nesse caso tornou a leitura desnecessariamente lenta.

Outro problema foi que os personagens parecem não importar para a trama. O objetivo dos autores parece ser apresentar um panorama e criar uma ambientação completa: as pessoas envolvidas com a caixa parecem ter sido escolhidas ao acaso e é difícil estabelecer qualquer vínculo emocional com elas.

Os acontecimentos mais emocionantes do livro – que me privo de explicitar para não dar spoilers – começam subitamente e terminam de maneira repentina. Isso me frustrou, porque a ação pareceu meramente enfiada ali para deixar o enredo menos monótono.

Eu ainda não consegui decidir se gostei do livro, porque ele me deixou muito confusa. Depois de ler o posfácio dos autores eu fiquei um pouco injuriada, porque a maneira como a narrativa é construída não é coerente com o que eles se propuseram ao longo dos sete anos nos quais o livro foi escrito.

O posfácio também me trouxe reflexões sobre a tecnologia descrita no livro, que é indubitavelmente mais eficiente do que a que utilizaram para escrever o livro a distância: o envio frequente de disquetes pelo correio.

Este livro, que começa com uma capa maravilhosa e termina com uma exclamação isolada, possui muitas qualidades: uma linguagem cuidadosa, descrições ricas e cuidado histórico. Também gostei do retorno de alguns personagens que pareciam coadjuvantes a princípio e a explicação de pequenos fatos que pareciam sem importância.

Mas seu enredo é jogado (embora isso tenha um propósito) e a leitura fica desinteressante à medida que os acontecimentos se diluem em adjetivos desnecessários e o foco muda subitamente em pontos interessantes. Os autores parecem fazer os personagens e o leitor vagarem por um labirinto metálico e querer que ambos prestem atenção nos detalhes das paredes. Por outro lado, nenhuma “aulinha” é dada ao leitor, o que eu considero positivo. A compreensão do funcionamento dos objetos se dá pelas descrições fragmentadas de seu uso no decorrer da ação.

A edição da Aleph é bem cuidadosa e os extras ajudam bastante. Consultei muitas vezes o mapa no final para entender melhor as divisões da América do Norte, e o guia de personagens é muito útil para aqueles que não têm intimidade com a história britânica. O glossário explicita termos da época e alguns neologismos.

Recomendo para amantes do steampunk que queiram mergulhar de cabeça em uma Revolução Industrial potencializada e conhecer essa importante referência, e também para leitores que possam apreciar tudo isso sem fazer questão de grandes envolvimentos com a leitura. O livro ganhou prêmios literários bem importantes, que reforçam o valor da ideia original na qual é centrado. Só não sei ainda se a execução dessa ideia foi satisfatória para mim. Essa minha posição fica mais clara na seção seguinte – QUE CONTÉM SPOILERS!

Você que ainda não leu o livro, siga os passos a seguir:

  1. Pulem pras Citações;
  2. Leiam o livro;
  3. Voltem aqui e leiam a seção com spoilers;
  4. Fiquem perturbados com o final; e
  5. Venham falar comigo!!!!! Tô louca pra saber outras opiniões!!!
  6. Passem a maldição adiante.

Tampem os olhos de leitores melindrosos incautos que estejam na sala com você e desempoleire aquele seu papagaio curioso do ombro. Lá vai:

Gosto da River.

Gosto da River.

 [SPOILER ALERT]

Eu ainda não sei se os autores são muito sofisticados por deixar a compreensão aberta e sua condução ao clímax da obra ser sutil ou se os acho bem cretinos. Não sei mesmo.

A trama é efetivamente concluída nas suas últimas duas páginas, e de maneira bem frouxa. Um leitor menos atento pode não entender nada. Eu mesma reli as últimas páginas algumas vezes e ainda não tenho certeza se o título Rainha das Máquinas de Ada é literal – e nesse caso a Máquina Diferencial, além de narrar do livro, é a própria Ada, com a possível extensão de alguns outros personagens. O que explicaria a, ao meu ver, incoerente subjetividade em algumas descrições ao longo da obra. Como a Máquina teria acesso aos sentimentos dos personagens? E não vou nem entrar nas complicações que decorreriam de a Ada ser uma máquina.

Ao ler outras resenhas sobre o livro, fiquei com a grande impressão de que muitas pessoas não entendem o que está acontecendo e ficam com vergonha de confessar. Nesse caso, o romance acaba sendo uma grande Roupa do Imperador, que só os inteligentes veriam, então todo mundo acha bem lindo.

Eu gosto muito da ideia de contar a história de como a inteligência artificial da Máquina se torna consciente de si mesma. E gosto que o narrador possa ser a própria Máquina, o que os autores romanceiam um pouco no posfácio e chamam de Narratron. Mas os fatos relatados no livro parecem jogados, e, embora isso faça parte da construção literária que tenta dar a entender que esse é o processamento de informações (portanto o nexo que humanos carecem seria supérfluo), isso me incomodou.

É preciso um grande salto de imaginação pra compreender porque os cartões perfurados conduzem a história, e, dentre muitas outras coisas no romance, a sua importância fica bem aberta a interpretações. Me perturba o fato de a compreensão do romance depender de materiais externos a ele, como o posfácio, entrevistas, esse tópico aqui, conversas de bar com amigos intelectuais e os possíveis comentários simpáticos que os leitores do blog vão deixar. Para mim, a obra é incompleta se o público ao qual ela é destinada não a compreende completamente. Sou apoiadora fervorosa de frases simples que comuniquem, em detrimento de frases rebuscadas confusas – e isso se estende para quaisquer obras.

Se você entendeu de primeira, me explica tudinho. Se você entendeu outra coisa, me conta! Só avisem de spoilers nos comentários para não estragar a leitura dos colegas 😉

[FIM DOS SPOILERS]

A máquina diferencial
Autores: William Gibson e Bruce Sterling
Tradutora: Ludimila Hashimoto
Editora: Aleph
Ano de publicação: 1990
Ano desta edição: 2015
456 páginas
Livro cedido em parceria com a Aleph

Citações favoritas

“A alternativa seria permanecermos parados e permitirmos que o diabo faça o que bem entender no futuro. Eu, por minha parte, preferiria explodir em pedaços a ver a ciência prostituída!”

*

Se o oportunista aparecesse e atirasse nele ali mesmo, seria de alguma forma bem-vindo, pois Mallory acolheria a oportunidade de nunca mais deixar aquele platô de sensibilidade, a oportunidade de nunca mais voltar a ser Edward Mallory, mas apenas uma esplêndida criatura submersa em boceta e rosa-chá.

*

“A sorte está do lado dos corajosos” disse Brian.

“E Deus olha pelos insensatos” murmurou Fraser.

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5 respostas em “[Resenha] A máquina diferencial

  1. Francamente considerando que o livro é o estabelecimento de um gênero e um tipo de “mundo” ao qual foi repetido diversas vezes em jogos eletrônicos, HQs, RPGs, Boardgames e tantos outros locais em que está embebido de cultura nerd eu imaginava isso. Não quero ofender o gênero de nenhuma maneira, mas considerando o quanto os fãs sou loucos em recriar os objetos e a parcela mais hardcore dos fãs prefere cosplays aos jogos eu imaginava que o livro fosse panorâmico e até mesmo que focasse nos aspectos estéticos sendo o foco a estética e o ornamento intrínseco às máquinas retro-futuristas. Tendo dito isto não é de surpreender que seja assim e eu fico até aliviado que eles não tenham tentado emular uma narrativa cinematográfica em um livro. Sou um tanto quanto relutante ao aceitar narrativas livrescas que tentam adotar uma identidade visual cinematográfica. Questão de gosto, mas eu prefiro que as palavras façam o seu papel de fato. (Duplo sentido não intencionado). Ao final de tudo o que parece é que é uma curiosidade literária antes de tudo. Acho que dá pra pegar mais pesado em outros autores mais hardcore. Ou será que li errado a resenha?

    • Essa discussão do steampunk se apoiar muito na estética é bem válida, porque frequentemente as histórias não precisariam de um universo steampunk para acontecer — o que enfraquece um pouco o gênero. Mas fico muito feliz que não seja o caso desse livro, que tem um argumento inicial steampunk bem forte e faz descrições bem detalhadas justamente para apresentar o universo e inaugurar o próprio gênero.
      O que você consideraria autores mais harcore? Porque, para mim, são esses dois os mais hardcore hehe.
      Temos muitos outros livros steampunk com narrativas mais leves e palatáveis para leitores que querem se iniciar no gênero, o que não é ruim de maneira alguma.
      Obrigada por incrementar a discussão!
      Abraços!

  2. Pingback: [Resenha] A liga dos artesãos | Sem Serifa

  3. ALERTA DE SPOILER
    Acho (bom frisar tratar-se de uma opinião) que apesar do grande enfoque na estética que a obra tem, supervalorizada pelas produções steampunk que vieram depois, A Máquina Diferencial não é apenas isso. Tenho uma interpretação de que a sequência final da máquina se reconhecendo, e uma Londres de 1991, como uma predominância do cyberespaço derivada daquela tecnologia, mostram que o “Olho que tudo vê” percebido por Oliphant e Ada Byron, é um princípio de uma inteligência artificial. Que ao meu ver mostra o livro como uma jornada desta consciência em busca de suas origens, uma jornada em busca do autoconhecimento em relação ao período de usa não consciência.

    • Sem dúvida não é apenas o argumento estético! Mas o apego a ele travou um pouco a minha leitura, mas jamais poderia considerar um demérito do livro, justamente por ele ser inaugural no gênero e estruturado para apresentá-lo.
      A tomada de consciência da inteligência artificial é uma sacada MUITO legal, mas acho negativo que o posfácio seja tão necessário à compreensão geral da obra.
      Obrigada por levantar esse argumento!
      Abraços!

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