[Resenha] A guerra que matou Aquiles

capaaquilesSinopse:

A guerra que matou Aquiles, diferentemente da maioria das obras sobre o tema, não aborda nenhuma das questões tradicionais da Ilíada. Um dos pontos interessantes da obra é a análise a respeito da personalidade de Aquiles – ao mesmo tempo um ídolo e respeitado guerreiro, é um monstro feroz. Caroline Alexander desconstrói a infalibilidade dele, dissertando a respeito de suas críticas à ordem social e da busca pela paz e, ao mesmo tempo, analisando suas falhas humanas e aspectos perturbadores.

Fonte: Livraria Cultura

A maior parte do que se diz sobre Homero – pelo menos, do que já li e ouvi – tende a considerar a Odisseia uma obra inovadora, moderna em muitos aspectos, e a Ilíada sua companheira mais antiga e tradicional, representando o gênero épico presente em muitas culturas e sociedades antigas, e caracterizado por grandes feitos marciais de heróis. A guerra que matou Aquiles despedaça essa visão, nos apresentando a Ilíada como uma obra revolucionária, cuja verdadeira mensagem foi perdida depois de séculos de interpretações distorcidas.

Após uma contextualização da possível ocorrência histórica da Guerra de Troia (datada em aproximadamente 1250 a.C.), a autora explica quem eram os micênicos (gregos da Idade do Bronze) e fala sobre o povo que habitava Troia (localizada no estreito de Dardanelos), com base nas evidências arqueológicas. Fala também da evolução da própria Ilíada – o fato de o texto conter indícios de diferentes épocas, por exemplo, sugere que teve origem na migração dos gregos após o colapso da civilização micênica (por volta de 1200 a.C.), até que fosse consolidado na forma que o conhecemos hoje, em meados do século VIII a.C.

Depois dessa introdução (curta mas bem desenvolvida), começa o livro de fato. Sua estrutura segue a da Ilíada, e a autora vai explorando os cantos um a um, de modo você não precisa ter lido o épico para entender a obra: Caroline apresenta o essencial da história e cita vários trechos, mas não a ponto de criar um mero resumo e cansar quem já conhece a obra. Ela inclusive apresenta o canto XXII (o clímax do poema) inteiro e sem comentários, o que foi inesperado, mas interessante. Uma vez que você acompanha o raciocínio da autora sobre os primeiros 21 cantos, fica implícita a sugestão de que aplique a chave de leitura dela por si só nesse importante canto.

Como o título da obra indica, ela vai falar sobre a guerra – especificamente, “o que a Ilíada diz da guerra”. Segundo Homero, a Guerra de Troia durou 10 anos, mas a ação da Ilíada se concentre em poucas semanas e não conta o fim da guerra nem mostra a queda da cidade. A obra se foca, em vez disso, nas consequências da “cólera” de seu principal herói, Aquiles, que se afasta da guerra devido a uma rixa com o comandante do exército grego.

O livro aborda inúmeros tópicos interessantes, mais do que seria razoável mencionar aqui, então vou falar sobre as duas teses centrais. A primeira é a de que a Ilíada reforça que a guerra é uma tragédia, de modo a ser “transformada em uma evocação sublime e arrebatadora da devastação causada por todas as guerras, em todas as épocas”. Esta tragédia específica, segundo a autora, seria pungente para os gregos da época de Homero, uma vez que eles possivelmente associavam a perda de seu próprio mundo com o abandono de seu território para se envolver em conflitos além-mar. Assim, a guerra de Troia não teria significado apenas a destruição de Troia, mas o próprio declínio do mundo grego. Achei essa hipótese um tanto quanto sem fundamentação, mas é uma ideia interessante.

Além disso, Caroline mostra, por meio de vários trechos descritivos de batalhas, que Homero desloca o foco da importância da glória (comum em outros épicos antigos) para a compaixão pelo ser humano: no momento da morte de um guerreiro, a Ilíada fala quase sempre da vítima, humanizando-a em seus últimos momentos de vida, e não do vencedor. As descrições de mortes não embelezam a matança, mas são cruentas e até patéticas. A morte de todo guerreiro é trágica e cheia de horror, e a compaixão, de fato, leva à constatação de que “os troianos não são mais o inimigo desse épico grego”. Mas, pergunta a autora, se os troianos não são o inimigo, quem é?

Isso me traz à segunda tese central da obra, que se refere ao retrato feito de Aquiles. Fiquei encantada com a argumentação da autora de que esse personagem trágico se aproxima mais de um herói do folclore ou de contos de fada do que do herói épico tradicional, uma ideia inédita para mim. Caroline também evidencia que Aquiles é extremamente subversivo. O fato de seu antagonista na Ilíada ser o rei Agamêmnon é importantíssimo: Aquiles contesta sua autoridade, e, com isso, a “concepção fundamental do serviço militar”. Mais ainda: na famosa cena da embaixada, em que um grupo de guerreiros tenta convencê-lo a voltar para a guerra, Aquiles chega à conclusão assombrosa de que a vida é mais preciosa do que a glória. Para a autora, a Ilíada termina com a aceitação desolada de Aquiles de que perderá a vida numa campanha militar sem sentido – uma conclusão surpreendente, trágica e profunda.

A análise da obra é feita com base numa vasta gama de fontes, tanto primárias como secundárias. Caroline faz várias referências a fenômenos contemporâneos ao período provável de criação do épico, mostrando as inter-relações entre diferentes regiões (especialmente o Oriente Próximo) e suas mitologias. As notas de fim são bastante extensas e dão detalhes e outras explicações, apontando contradições entre mitos (as fontes antigas nem sempre concordavam entre si) e apresentando instigantes trechos do chamado Ciclo Épico: outros poemas sobre a Guerra de Troia,  dos quais restaram apenas resumos e fragmentos (minuto de silêncio). Outro aspecto que me agradou muito foi o fato de Caroline estabelecer pontos de contato entre a Ilíada e conflitos recentes: desde a Primeira e a Segunda Guerra até a Guerra do Vietnã e a do Iraque, ela mostra como a experiência da guerra continua a mesma. Algumas comparações chegaram a me surpreender de tão próximas, e nesse ponto Caroline consegue mostrar a relevância desse poema tão antigo.

Porém, tenho algumas críticas ao livro. Primeiro, senti a falta de uma tomada de posição da autora quanto à chamada “questão homérica”: dúvidas sobre a autoria da Ilíada e da Odisseia (foram compostas por um autor ou muitos? quando a obra foi registrada em sua forma final? qual foi a técnica composicional? etc.), que até hoje não foram respondidas. Ao longo do livro, fui concluindo que Caroline acredita numa composição mista: histórias muito antigas que foram se juntando em um poema de guerra, tomando empréstimos de várias tradições e épocas, mas que foram finalmente moldadas por um único poeta, que tornou a obra bastante autoral. Acho que ela poderia ter apresentado a sua posição quanto a isso mais explicitamente, e no início da obra, por ser algo tão central a qualquer estudo homérico.

Embora tenha achado interessante a inserção do canto XXII na íntegra, senti a falta de uma análise maior dele – em comparação aos outros cantos, a autora mal comenta esse, que é justamente o clímax do poema. Também gostaria que ela tivesse desenvolvido mais as razões de a Ilíada ter sido vista por tanto tempo como um épico tradicional, uma vez que esse estudo pretende justamente provar o contrário.

Por fim, fiquei meio irritada com o posicionamento dela quanto à hipótese de Aquiles e Pátroclo terem sido amantes. (Pule esse parágrafo se discutir a sexualidade de gregos antigos fictícios não é sua ideia de tempo bem gasto. Vá para a resenha de A canção de Aquiles se parece algo relevante aos seus interesses.) Caroline considera que essa noção se estabeleceu devido aos costumes sociais dos séculos que se seguiram a Homero – o que é provavelmente verdade, mas de modo algum impossibilita essa leitura com base no texto. Ela dispensa a ideia com a afirmação categórica e um tanto condescendente de que ambos são “tranquilamente heterossexuais” (!) no épico, baseada em algumas citações indicando relações sexuais (românticas, se você estreitar bem os olhos) com mulheres – e convenientemente ignorando paralelos entre o relacionamento dos dois e outros dois casais na Ilíada (Meleagro e Cléopatra sendo o mais óbvio, mas também há semelhanças entre Aquiles e Andrômaca), pra não mencionar o fato óbvio de que Pátroclo é de longe a pessoa mais importante na vida de Aquiles (inclusive, em certo momento este deseja que Briseida tivesse morrido para que nada daquilo tivesse acontecido). Ao mesmo tempo, grande parte da argumentação da autora depende de a Ilíada ser a composição de um único poeta que deu coerência à obra e inseriu nela detalhes sutis, referências à cultura e à mitologia, autorreferências e paralelismos etc. Então, ou Homero era um gênio que teceu uma trama incrivelmente sofisticada (e nesse caso uma leitura romântica dos personagens é válida) ou tudo que está no livro cai por terra. Cadê seus deuses heteronormativos agora?

Apesar das críticas, foi uma leitura bastante empolgante: o estilo da autora é direto e bem compreensível, suas ideias são originais, sua análise extremamente rica e em geral bem fundamentada, e a tradução ainda está muito boa. É uma leitura bastante rápida para suas quase 400 páginas. Acredito que o livro valha a pena para quem conhece e quer saber mais sobre a Ilíada, e recomendaria tranquilamente como uma boa introdução a Homero para quem nunca leu os dois poemas – com certeza vai deixar o leitor com vontade de se aventurar pelos épicos.

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A guerra que matou Aquiles
Autora: Caroline Alexander
Tradutor: Marcio de Paula S. Hack
Editora: Bertrand
Ano de publicação: 2014
396 páginas

 

Citações preferidas

A consciência articulada de que a autoridade acima talvez seja inferior ao soldado abaixo é o começo de uma perigosa sabedoria.

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Já foi dito dos heróis folclóricos que “tendem a se sobressair como viajantes solitários, como pessoas de lugares muito distantes, ou vindas de lugar nenhum”. O distanciamento de Aquiles em relação ao restante dos aqueus, seu isolamento essencial, é outro atributo do legado de seus pais. Contudo, o mais tocante (e muito útil à perspectiva de Homero) é que o herói desse épico de guerra não é, em sua essência, uma figura militar. Famoso por sua vulnerabilidade e atipicamente definido por sua mortalidade, educado nas artes da cura, uma figura não de homens, mas de feras selvagens das montanhas, Aquiles não pertence à companhia de guerreiros que se encontra em Troia. Ele não cruzou o mar cor de vinho pela causa comum, tampouco foi em busca de glória.

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Poucas passagens em toda a literatura evocam com veracidade tão intensa a complexidade da coragem de um soldado [quanto a fuga de Heitor]. Assim como o de Aquiles, o caráter de Heitor foi desfeito. “Aprendi a ser sempre/ corajoso”, dissera Heitor a Andrômaca, durante o interlúdio dos dois […]. Por fim, ajudado – traiçoeiramente – por Atena, Heitor utiliza uma vez mais essa qualidade adquirida e não natural, e se recompõe.

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Príamo e Aquiles se encontram no ocaso de suas vidas. A extinção de ambos é certa e não haverá recompensa pelo bom comportamento, e ainda assim, diante do destino implacável e de um universo indiferente, insistem mutuamente nos mais elevados ideais de sua humanidade. Como todo cessar-fogo, a trégua que Aquiles promete conceder a Príamo sugere o espectro de uma melancólica oportunidade.

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O fato de que, após o decorrer de séculos, essa mesma Ilíada – cuja mensagem fora tão bem compreendida pelos poetas e historiadores antigos – tenha passado a ser percebida como um épico marcial que glorifica a guerra é apenas uma das grandes ironias da história da literatura. Parte dessa transformação chocante pode seguramente ser atribuída aos principais ambientes em que a Ilíada foi lida – as escolas de elite, cujo currículo baseado nos clássicos era feito para inculcar nos futuros homens da nação o desejo de “morrer bem” pelo rei e pelo país. […] A insistência de Homero em retratar a guerra como uma catástrofe sem sentido, que arruinava tudo de que se aproximava, foi, assim, astutamente driblada.

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6 respostas em “[Resenha] A guerra que matou Aquiles

  1. Só uma correção quanto ao pressuposto de que o livro seja totalmente original em sua tese. Na edição da Companhia das Letras com a Penguin é dito na contra-capa que o grande trunfo da Íliada é justamente falar como as coisas são passageiras e como os impérios ruem e caem sendo esta a grande chave da obra. A diferença entre as obras estaria que desde a antiguidade é considerado que a íliada sempre fosse a obra-prima enquanto Odisséia fosse um esforço não tão bem sucedido gerando comentários de desprezo em torno da obra. Inclusive há um bem famoso que diz que a Odisséia é um esforço de um Homero velho e cansado, amaciado pelos anos e sem tanto vigor literário. Além disso, a sugestão de Aquiles ser uma figura trágica e pouco controlada, também, é bastante evidente na obra. Outra coisa interessante a se notar que o que geralmente se fala é que o “homem moderno” (leia-se burguês) se vê representado nas peripécias e comportamentos ardilosos de Odisseu. Não necessariamente que a obra seja melhor. Tanto é que o que nos dá como o maior devedor das tramas de reviravoltas feitas ao longo da narrativa homérica é Alexandre Dumas. Ou seja, em momento algum, alguém disse que a Odisséia é superior à Odisséia. Aliás, sempre se disse em contrário. A maioria dos especialistas e livros que temos falam à favor da Íliada como o grande trunfo literário de Homero e A Odisséia como o livro preferido pelo homem burguês por representar um ideal de um homem intelectualizado e ardiloso e não um guerreiro feroz e virulento como Aquiles. “Venha cantar, Ó Musa, a fúria de Aquiles o pelida.” Só para lembrar o primeiro verso da obra.

    • Oi, Pedro, obrigada pelo comentário! Não tinha lido essa contra capa – de fato, é a mesma ideia, mas este livro da Alexander talvez a defenda mais extensivamente que obras anteriores. Quanto à questão de Ilíada x Odisseia, não quis menosprezar a primeira de modo algum. Só tinha a impressão de que Ulisses e a Odisseia eram geralmente considerados mais inovadores/modernos que Aquiles e a Ilíada, e este livro foi meu primeiro contato com a tese de que Aquiles também estava quebrando (e quebrando radicalmente) com os modelos do herói épico.

      • Imagine, eu que agradeço a resposta. É bastante difícil encontrar alguém que tenha tanta educação em acolher uma opinião como a minha dada mais como correção do que, efetivamente, uma curiosidade. A maioria das pessoas na internet me xingaria ou excluiria meu comentário: o pessoal de casa mandou dar os parabéns pela educação da senhorita! Enfim, agradecido que tenha lido minha opinião gigantesca. Sou comentador já garantido no site. Andei vasculhando o site aqui e já dei uns pitacos por aí. Posso dizer que o trabalho é acima da média no geral de blogs literários que já pude ler. Não poderia deixar de dar o meu jabá, mas ando publicando em um blog chamado Jamstation. O meu blog principal anda inativo e o endereço é otakuvelhaguarda e há um outro que está meio largado por aí chamado japanhollichyperdimension. De qualquer modo espero podermos trocar muitas figuras ainda com relação à literatura e leituras.

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