[Resenha] O colecionador de mundos

capacolecionadorSinopse:

Oficial do Exército britânico, orientalista e etnólogo, além de tradutor para o inglês de clássicos como As mil e uma noites e o Kama Sutra, Richard Francis Burton (1821-90) foi sem dúvida uma das grandes personalidades do século XIX. Desse incrível repertório de aventuras, o premiado escritor búlgaro Ilija Trojanow escolheu três, a partir das quais dá forma a uma brilhante mescla de biografia ficcional e perspicaz estudo psicológico de uma personalidade que, pouco a pouco, revela-se tão fascinante quanto misteriosa. O colecionador de mundos tem por cenários principais a Índia em que Burton atuou como oficial e coletor de informações, a peregrinação sagrada de Meca a Medina, de que ele tomou parte disfarçado de muçulmano, e a expedição ao coração da África que acabaria por conduzir à descoberta da nascente do rio Nilo.

Fonte: Companhia das Letras

 

Quando li que O colecionador de mundos foi “finalista” do Prêmio Alemão do Livro de 2006, fiquei pessoalmente ultrajada. O livro vencedor do prêmio ainda não foi traduzido para o português, mas mesmo assim resolvi que de jeito nenhum é melhor que este romance de Ilia Trojanow. Todo esse pré-julgamento pra mostrar como o livro me encantou; vamos, então, à resenha.

A obra é uma biografia fictícia de uma grande personalidade britânica do século XIX: sir Richard Francis Burton, explorador, orientalista, etnólogo, cônsul, esgrimista, tradutor, cartógrafo… As funções se acumulam, é só entrar na Wiki do cara pra se admirar. Burton fez diversas viagens durante a vida, três das quais Trojanow escolheu retratar em seu livro: o período que Burton viveu na Índia; o hajj, a peregrinação sagrada de Medina até Meca; e a expedição africana em busca da nascente do rio Nilo.

A estrutura do livro é extremamente interessante. Embora metade seja uma narrativa de viagem através do ponto de vista em terceira pessoa de Burton, em cada parte o autor a entremeia com uma história paralela. Durante a primeira parte – Índia – um ex-criado de Burton em busca de emprego relata sua história de vida a um escrivão. Na segunda parte – Oriente Médio –, na forma de diálogos sem qualquer descrição, o xerife de Meca e mais dois oficiais empreendem uma investigação sobre o ocidental que realizou o hajj fantasiado de árabe, tentando desvendar suas verdadeiras intenções (e as de seu país). E na terceira parte – África oriental – o ex-escravo Sidi Mubarak Bombay (outra figura histórica) relata a amigos e familiares a experiência de acompanhar a difícil expedição de Burton por territórios até então nunca visitados por nenhum europeu. Assim, o que poderia ser uma história de bravura e “descobrimento” ocidental se transforma numa exploração de realidades complexas a partir de múltiplos pontos de vista, cheia de indagações sobre moralidade, religião, sociedade e, subjacente a tudo isso, sobre a própria natureza humana.

O ponto de virada da experiência de Burton no exterior começa na Índia, quando, inspirado pelo tédio de sua colocação e o nojo de seus colegas do exército, ele pede a seu criado que encontre um professor que lhe ensine línguas: hindustani, guzerate, sânscrito… Burton absorve rapidamente não só idiomas (dizem que o Burton real sabia 29!) como também as questões filosóficas e religiosas que o mestre lhe propõe. Quando o professor o convida para jantar e lhe pede para se vestir como um nativo, Burton tem uma revelação. Em um momento de euforia, percebe que as experiências e os conhecimentos que adquire se “infiltrando” entre o povo renovam seu entusiasmo e seu interesse pela vida. “Fantasiar-se” vira um hobby e, em pouco tempo, um estilo de vida. Como qualquer bom disfarce, requer mais que roupas – também observação e muito estudo, a que o disciplinado Burton se dedica. Quando faz o hajj, por exemplo, Burton se apresenta como “xeque Abdullah” e, com seu conhecimento profundo sobre o dogma islâmico, impressiona os muçulmanos que encontra pelo caminho.

Burton é um personagem fascinante, ainda mais por permanecer sempre um pouco além do alcance do leitor. O livro se foca inteiramente em suas viagens, e poucas são as menções à vida dele na Inglaterra – o que parece refletir como ela tem pouca importância para o personagem. Suas motivações para se lançar de cabeça em mundos tão afastados de seu país natal às vezes são um mistério até para ele. O que fica claro é que Burton é um homem inteligentíssimo, por vezes colérico, que busca algo indefinido até para si mesmo (mas que, por raros e breves momentos, encontra esse “algo” durante suas viagens).

Burton – o Burton personagem, pelo menos –, apesar de ser fascinado pelos locais aonde vai, geralmente não se impressiona muito com os nativos. A maior identificação que encontra é com o Islã (horrorizando ingleses por todo canto), mas de modo geral ele continua acreditando que a “civilização” pode melhorar enormemente os lugares por onde passa. Ao mesmo tempo, por meio de seus disfarces, consegue ver claramente o próprio povo (que já não tinha em alta conta antes). “De modo algum”, relata bruscamente a outro oficial britânico, “consideram-nos corajosos, inteligentes, magnânimos ou civilizados; veem-nos como patifes.” Até que ponto Burton se diferencia dos patifes é o que fica em aberto, sendo especialmente questionado na última parte do livro.

São muitas as questões sociais e culturais abordadas. A riqueza de detalhes e a amplitude das descrições devem satisfazer os leitores que amam conhecer culturas diferentes. Fiquei impressionada e encantada principalmente pelo tratamento dado à religião. A curiosidade inata de Burton o leva a questionar e querer conhecer as mais diferentes fés, e embora despreze alguns hábitos que considera “superstições”, seu interesse pelo Islã o faz buscar uma elusiva conexão com o divino e rende momentos muito bonitos, o que fez a segunda parte do livro ser minha preferida.

As histórias paralelas que mencionei, além de darem uma visão contrastante do próprio protagonista, também exploram questões maiores que ele, como política, escravidão e a vida dos habitantes dos locais por onde passou. Cada parte é seu próprio “livro” completo, e a primeira, por exemplo, também aborda questões metalinguísticas da própria narrativa, por meio do escrivão que fica encantado com a história que cria a partir dos relatos do ex-criado. Já a terceira parte se foca na hostilidade entre Burton e Speke, o inglês que o acompanha na viagem e com quem, na vida real, Burton teve uma grande rivalidade. Nessa última parte, mais que nas outras, fica claro como a concepção de mundo dos britânicos simplesmente não faz sentido para os nativos. Em um momento ótimo (e bem engraçado, por sinal), Sidi Mubarak Bombay conta como a obsessão de Speke por dar novos nomes aos locais que “descobre” levou os nativos a inventar nomes falsos e obscenos para esses lugares, que foram parar nos livros de Speke. (Não sei se isso é verdade, mas espero que sim.)

Embora não seja um livro que se leia rapidamente – pela sofisticação da estrutura, que obriga uma leitura atenta, e pelas descrições minuciosas – a narrativa é muito envolvente, impulsionada sempre pelo mistério que é o próprio Burton. Só achei irritante o glossário no fim do livro não ter nem a metade dos termos e frases nas diversas línguas que o autor usa ao longo da obra. Alguns termos são deixados sem explicação a princípio e seu significado é revelado depois na narrativa, mas outros ficam sem definição. Não sei se o original era assim também e a editora simplesmente usou o mesmo glossário, mas foi algo que me incomodou.

Ano passado resenhei outro livro da Companhia com uma premissa semelhante – O afinador de piano, em que um inglês do século XIX vai para a Birmânia – e que também o adorei. Minha fascinação com exploradores é antiga (vem lá de Júlio Verne) e talvez se deva à minha admiração por pessoas que se aventuravam no desconhecido, em épocas em que isso era mais possível. Sem dúvida, requeria muita coragem. Mas o mais interessante é ver os personagens expandirem seu universo, abrirem a mente e deixarem o outro se tornar parte de si.

O colecionador de mundos é um livro arrebatador, que aborda questões instigantes e profundas, com uma escrita de elegância invejável e que por vezes atinge uma beleza transcendental. Recomendado para quem estiver a fim de uma bela viagem.

*

O colecionador de mundos
Autor: Ilija Trojanow
Tradutor: Sergio Tellaroli
Editora: Companhia das Letras
Ano de publicação: 2010
416 páginas

 

Citações preferidas

Enojava-o a estupidez pegajosa de uma vida dedicada ao bilhar e ao bridge; negava-se a cumprir suas horas de trabalho afundado numa poltrona tão confortável como bolorenta, o olhar fixo nas unhas das mãos, sob as quais amontoavam-se areia e pó.

*

− Não me agradeça. Agradecimentos são como dinheiro. Quando as pessoas se conhecem melhor, podem oferecer coisas mais valiosas umas às outras.

*

Você devia ter se identificado de imediato, disse-lhe o mestre. Essa luta não é sua! Acha que pode mudar de lado com essa facilidade? O que você fez, fez apenas por vaidade. Ao que Burton sahib respondeu-lhe: Vocês só pensam sempre em categorias grosseiras, amigo e inimigo, nosso e deles, preto e branco. Não conseguem imaginar que possa existir algo intermediário? Quando assumo a identidade de outra pessoa, posso sentir como é ser essa pessoa. Isso é o que você imagina, retrucou o mestre. O disfarce não lhe dá acesso à alma. Não, claro que não. Mas me dá acesso, sim, aos sentimentos, porque eles são determinados pelo modo como os outros reagem a essa pessoa, e isso eu posso sentir. […] Mas o mestre não teve piedade. Você pode se disfarçar quanto quiser, mas jamais saberá o que é ser um de nós. Sempre vai poder despir o disfarce, terá sempre esse último recurso. Nós, porém, somos prisioneiros da nossa pele. Jejuar não é o mesmo que morrer de fome.

*

Conheço a felicidade do caminho, disse-lhe o xeque. O caminho é insubstituível. Apesar de todo cansaço, é ele que faz meu coração bater. Somos cavaleiros entre duas paradas. É nosso destino chegar e partir.

*

Tudo quanto naufragou em sua vida quer voltar à superfície, cada humilhação, cada decepção, cada ferida. Ele se sente como em alto-mar num barco sem direção; precisa debruçar-se sobre as águas para coletar as sobras do naufrágio, cada pedacinho, ainda que envolto em algas ou carcomido pelo sal; segura-o nas mãos por insuportável eternidade, examina-o por todos os lados, apenas para constatar que já não pode reconhecê-lo; mas somente o descarta quando já não pode senti-lo, porque se dissolveu – não em esquecimento, mas em indiferença.

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