[Resenha] O trono vazio

A resenha inclui spoilers até o sétimo livro da série As crônicas saxônicas, O guerreiro pagão.

tronovazioSinopse:

As forças de Wessex e da Mércia se juntaram para combater os dinamarqueses, mas a instabilidade da união e a ameaça dos ataques dos reinos pagãos vizinhos são um perigo para a Britânia, pois Æthelred, o senhor da Mércia, está à beira da morte e não tem herdeiros, o que abre caminho para disputas pelo trono. Uhtred de Bebbanburg, o maior guerreiro da Mércia, sempre apoiou a senhora Æthelflaed para que se tornasse a sucessora do trono, mas será que a nobreza aceitará uma mulher como líder? Mesmo ela sendo a viúva de Æthelred e irmã do rei de Wessex? Enquanto os mércios travam brigas internas e os saxões ocidentais tentam anexar o reino aliado, novos inimigos surgem na fronteira norte. Os saxões precisam desesperadamente de uma liderança forte, mas, em vez disso, lutam por um trono vazio, ameaçando arruinar todos os esforços para unir e fortalecer seu reino.

Fonte: Livraria Cultura

Finalmente, depois de quase dois anos de blog, venho falar de Bernard Cornwell, um dos meus autores preferidos! A ideia inicial era fazer um textão sobre as principais obras do autor, mas muitos blogs já têm resenhas do autor, então por enquanto só vou deixar minha recomendação: comece pela trilogia As crônicas de Artur ou pela série As crônicas saxônicas, esta ainda sem fim previsto. Faça isso rapidinho, depois volte para ler a resenha de hoje.

Pois bem, ao livro. Depois de quase ser morto na luta contra Cnut, Uthred encontra-se debilitado. Mas, Uthred sendo Uthred, ele usa isso a seu favor, levando os inimigos a achar que está mais perto da cova do que realmente está. Não que tudo seja fingimento – ele realmente está mal, e os pensamentos sobre velhice e morte, que vieram se fortalecendo nos últimos dois livros, estão ainda mais presentes agora: o guerreiro analisa sua vida, encontra alguns arrependimentos e se vê atormentado pela autodúvida. A fraqueza física também o leva a cometer erros graves. Uthred geralmente é mais esperto que todo mundo, por isso gosto quando ele falha, principalmente por reconhecer sua própria estupidez e tentar achar uma saída ainda mais brilhante que a armadilha dos inimigos. Neste livro, vemos um Uthred mais maduro e disposto a tomar decisões que jamais tomaria na juventude – arriscando perder a reputação para salvar as pessoas que ama… e para realizar o sonho de Alfredo de criar a Anglaterra.

Mas, antes disso, saxões lutarão contra saxões. Æthelred também está ferido no começo do livro, e sua morte deixa vago o “trono vazio” do título. Uthred acredita que a orgulhosa Mércia não vai aceitar de bom grado Eduardo de Wessex como rei, enquanto na própria Mércia o principal candidato é Eardwulf, irmão da amante de Æthelred, Eadith. Mas Eardwulf não é nobre e, para chegar ao trono, precisaria se casar com a filha do falecido rei e de Æthelflaed. Para complicar, o nobre mais rico de Wessex, Æthelhelm, está na Mércia para apoiar o caso do genro Eduardo – e também para matar o filho bastardo do rei, Æthelstan, o que o põe contra Uthred, que sabe que o menino é filho legítimo do rei. Enquanto isso, Uthred acha a discussão inteira uma bobagem, uma vez que a escolha mais óbvia é tornar Æthelflaed rainha da Mércia. Mas como este é o século X, todo mundo acha que ele está bem louco.

De muitas formas, este é o volume da série mais focado nas mulheres. Colocar Æthelflaed no trono – e mantê-la lá quando os pagãos atacam a Mércia – é o principal drama do livro. Temos uma chance legal de ver Æthelflaed pelos olhos de outras pessoas: de Uthred (filho) e de sua própria filha, que a veem como uma mulher séria e rígida – tão diferente da pessoa que Uthred ama. As pressões políticas deixam a personagem nitidamente mais tensa – pra não falar de algumas ações de Uthred.

O guerreiro também reata laços com a filha, Stiorra, que lhe dá várias surpresas do começo ao fim do livro, provando ser ousada, inteligente e – por que não – impulsiva como o pai. Também conhecemos uma personagem nova, apenas citada no livro anterior: Eadith, amante de Æthelred. Os relatos diziam que era uma mulher ambiciosa, mas Uthred descobre uma personalidade bastante diferente do que esperava. Porém, como estamos falando de Bernard Cornwell, é claro que ela também é linda. E, falando das muitas mulheres absurdamente maravilhosas da série, ficamos sabendo que fim teve Erce, viúva de Cnut – uma revelação que me fez rir muito.

Falando em rir, a idade só deixa Uthred mais hilário. Ele tem várias oportunidades para se irritar com padres, como sempre, e com a hipocrisia de todo mundo que adoraria vê-lo morto. Além disso, o relacionamento com Æthelstan (ou “seu desgraçadozinho”, como Uthred afetuosamente o chama em dado momento) continua um dos meus preferidos. O garoto continua esperto e abusado, mas neste volume o vemos crescer sob a tutela e os conselhos de Uthred, que o está moldando para ser não apenas um guerreiro, mas um rei. Temos vislumbres de que o menino está ficando mais maduro, e estou ansiosa pra ver como ele vai se desenvolver nos próximos livros.

A obra também apresenta outro personagem ótimo: Hywel, rei de Gales. Uthred vai para um vilarejo galês em busca da espada de Cnut, pois acredita que os inimigos fizeram alguma magia com ela que o está impedindo de sarar (adoro como Cornwell leva a religião dos personagens a sério!). Lá, ele conhece o astuto Hywel, que o lembra imediatamente de Alfredo (sdds Alfredo). Desde a morte do rei, no sexto volume, venho sentindo a falta de um aliado/inimigo à altura de Uthred, alguém tão inteligente quanto ele. Estou torcendo para o destino colocar Hywel no caminho dele outra vez, porque adorei as cenas com o personagem.

O trono vazio é um livro que passa muito rápido. Há vários momentos tensos e surpreendentes – especialmente quando o Witan se reúne para escolher o próximo governante da Mércia! – além daqueles foreshadowings que Cornwell tanto adora. Quando Uthred salva um garoto norueguês de ser executado, nos instiga com o fato de que o jovem será extremamente importante no futuro. E aquela antiga profecia sobre Stiorra parece estar se encaminhando para se realizar…

O livro tem menos batalhas que de costume, mas não senti falta delas a essa altura da série. Este volume gira em torno de personagens fortes (só senti falta de alguns guerreiros de Uthred, como meu querido Osferth, que pouco aparece), tem muita intriga política e deixa pistas para os próximos da série. Estou animada para ver como a Anglaterra vai tomar forma nos próximos livros.

 

COMENTÁRIOS COM SPOILERS:

  • Quem leu o prólogo e pensou “Caraca, essa série vai ter mais 25 livros”? Adorei a narração do Uthred filho, especialmente quando ele tenta falar com Æthelflaed e só faz papel de trouxa.
  • Quando Uthred toma o trono da Mércia por 30 segundos só pra tornar Aethelfled rainha.
  • É hilário que as pessoas ainda não aprenderam a suspeitar do Uthred quando ele começa a ser respeitoso com os padres. Sério, gente, quando isso não terminou em alguma zoeira?!
  • O que dizer daquele final de capítulo em que Eadith perfura Uthred com Cuspe de Gelo? Hahaha, quase infartei.
  • Já parou pra pensar que, quando Æthelred estava vivo, Uthred tinha um caso com a mulher dele e que, depois que o cara morreu, ele foi ter um caso com a amante? É por essas e outras que todo mundo odeia ele.
  • Em todo começo de livro eu peço a Tor Cornwell que não mate Finan e Osferth, e mais uma vez eles sobreviveram. Obrigada, Senhor!
  • Só eu achei estranho Osferth devolver o filho de Ingulfrid ao pai? Achei que o plano era deixar o garoto com a mãe!
  • Uthred reclamando de Athelstan salvar um garoto da execução quando ele tinha acabado de fazer a mesmíssima coisa: muito rabugento. Amo.

*

O guerreiro pagão
Autor: Bernard Cornwell
Tradutor: Alves Calado
Editora: Record
Ano desta edição: 2015
336 páginas

 

Citações Tiradas de Uthred preferidas

Ricseg, o abade, deu-me as boas-vindas calorosamente.

– Perturba-me vê-lo sentindo tamanha dor, senhor Uthred – disse ele querendo dizer que teria pulado de alegria se não fosse tão gordo. – Deus o abençoe – acrescentou, fazendo o sinal da cruz com a mão gorda, ao mesmo tempo que rezava secretamente para que seu deus me trucidasse com um relâmpago.

*

O corpo do padre Aldwyn fora levado para a igreja. Finan tinha vestido o cadáver com a batina preta rasgada, mas não havia como esconder a violência da morte do sacerdote.

– O que aconteceu? – perguntara o padre Creoda com um sussurro pasmo.

– Ele se matou por remorso – eu havia respondido.

– Ele…

– Se matou – resmunguei.

*

– Não me diga – eu disse. – Há um santo morto por lá.

– Há, senhor! – Gerbruht parecia pasmo e fez o sinal da cruz. – São Dewi.

– Nunca ouvi falar dele. O que fazia?

– Pregava, senhor.

– Todos eles fazem isso!

– Bom, o povo na parte de trás da multidão não conseguia vê-lo, senhor.

– Por quê? Ele era um anão?

*

– Jure lealdade a mim – instruiu a Cengar.

– Você é um idiota com cérebro de cogumelo, senhor príncipe – falei.

– Jure – disse Æthelstan a Cengar, e o jovem traidor apertou as mãos em volta das do príncipe e jurou lealdade. Ele olhou para Æthelstan enquanto proferia as palavras, e vi lágrimas escorrendo pelo seu rosto.

– Você tem o cérebro de um sapo manco – eu disse a Æthelstan.

*

O destino é uma merda.

8 respostas em “[Resenha] O trono vazio

  1. Ótimo Review, também gostei bastante do livro. Porém uma coisa me incomodou, Quando Uhtred está relembrando o passado, ele se lembra de Ragnar o velho e pensa que Ragnar deveria estar feliz em valhala ao ver ele (Uhtred) matar Kjartan e vingar sua morte. Pô quem matou Kjartan foi Ragnar o jovem, em um dos melhores momentos da serie, meu livro favorito que só não é perfeito pq não tem o padre pyrlig nele. Achei tão estranho…. pensei até que era um erro de tradução, larguei o livro e procurei na net um ebook em inglês e o erro tava lá no original também. Achei bem estranho, os livros do Cornwell são tão bem cuidados, pq será que rolou isso?

    • Oi, Carlos! Que bom que gostou da resenha.
      Eita, não lembrava desse detalhe (faz tempo que li os primeiros livros). Que falha, hein! Às vezes foi um lapso do Cornwell e os revisores não perceberam…
      Obrigada pelo comentário!

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