[Resenha] Tigana

Esta resenha foi feita com base na edição em inglês da Penguin. A tradução de trechos foi feita por mim.

tigana

Sinopse:

Tigana é uma encantadora obra de mito e magia que vai marcar os leitores para sempre. É a história de uma nação oprimida que luta para se libertar depois de cair nas mãos de conquistadores implacáveis. O povo foi tão amaldiçoado pela feitiçaria do Rei Brandin que o próprio nome da sua bela terra não pode ser lembrado ou pronunciado. Mas, anos após a devastação de sua capital, um pequeno grupo de sobreviventes liderado pelo Príncipe Alessan inicia uma cruzada perigosa para destronar os reis despóticos que governam a Península da Palma, numa tentativa de recuperar o nome banido: Tigana.

Fonte: Livraria Cultura

Tigana é uma famosa fantasia standalone de 1991 que estava na minha lista de leituras há muito tempo. A história se passa na Península da Palma, um cenário inspirado na Itália renascentista (e admito que só percebi que a “palma” entrou no lugar da “bota” ao ler o posfácio do autor). A Península é dividida em nove províncias, oito das quais estão sob o jugo de feiticeiros poderosos: quatro nas mãos de Alberico de Barbadior e quatro nas de Brandin de Ygrath. A nona província mantém uma liberdade relativa, já que está pressionada entre esses dois conquistadores.

A dominação estrangeira é o que orienta a trama do livro. Enquanto Alberico conquistou suas quatro províncias como uma alavanca para se tornar, um dia, imperador de Barbadior, Brandin está na Palma por motivos mais pessoais. Vinte anos antes do começo do livro, em uma batalha na província de Tigana, seu amado filho foi morto pelo príncipe Valentin daquela província. Brandin, enlouquecido de luto, não apenas destrói a província, põe abaixo suas cidades e massacra seus habitantes, como também lança uma magia terrível sobre ela: ele apaga o nome Tigana da memória de todos os habitantes da Palma que não sejam de lá, de modo que mesmo se alguém de Tigana pronunciá-lo, as pessoas não conseguem ouvi-lo.

coolmotive

A história nos faz acompanhar dois núcleos. O primeiro é um grupo de nativos de Tigana que há anos trabalha em segredo para derrubar tanto Brandin como Alberico, sabendo que matar apenas um dos feiticeiros significaria a dominação completa do outro sobre a Palma. Nossa introdução a eles é Devin, um músico jovem demais para lembrar-se do nome Tigana, e que só descobre suas origens quando Alessan – príncipe de Tigana, filho de Valentin – lhe conta sobre isso. Alessan é apoiado pelos amigos Baerd e Catriana, e logo junta-se a eles Sandre d’Astibar, um duque cujo sonho de vida era matar Alberico, mas que vê a sabedoria em atacar ambos os tiranos de uma vez. O segundo núcleo é a história de Dianora, nascida em Tigana. Depois da queda da província, a moça consegue se aproximar da corte (melhor dizendo, do harém) de Brandin de Ygrath, planejando matar o tirano. Só que, ao chegar lá, ela se apaixona por ele em vez disso. Vinte anos depois, esse conflito bastante tenso ainda dilacera a personagem por dentro.

O livro é narrado em terceira pessoa, geralmente acompanhando um personagem de cada vez, mas com vários momentos de onisciência. Os pontos de vista principais são Devin e Dianora, mas também Catriana, Alberico e outros. Há bastante introspecção e a prosa é extremamente poética, embora um pouco dramática demais em alguns momentos.

Embora o começo da obra talvez seja um pouco intricado até você entender a situação política da Palma, logo você se situa – e a trama já oferece grandes plot twists depois de cento e poucas páginas. O mundo é muito rico, a religião bem interessante (há uma Tríade composta por duas deusas e um deus), e a política complexa e crível. Há um senso de opressão muito real, ainda mais quando o livro trata das violências cometidas por ambos os tiranos. Gostei muito de como a arte – especialmente a poesia – tem um papel de destaque em denunciar os tiranos e “agitar” as coisas, pois ao longo da (nossa) história isso ocorreu em vários momentos de opressão. Aliás, as inspirações de Kay em épocas e lugares reais em que houve conquista e a supressão da identidade de um povo claramente dão uma profundidade a esse livro que não se encontra em outras fantasias.

Os personagens principais são bem desenvolvidos, mas meu preferido foi o (muito sofredor) Alessan. Ele é um cara nobre e determinado, mas ao mesmo tempo o autor introduz personagens que questionam suas ações e as consequências que elas terão: até que ponto é válido sacrificar vidas alheias para servir às suas próprias metas? (Por outro lado, liberdade é um ideal difícil de questionar, então você provavelmente vai continuar torcendo pelo príncipe.) Baerd é um fofo e Devin tem reações muito convincentes a tudo o que acontece, servindo como a porta de entrada do leitor a esse mundo. Sandre é interessante, porém absurdo em alguns sentidos (falo mais abaixo, na seção com spoilers).

Entre as mulheres, Catriana e Dianora são as mais bem desenvolvidas, embora, admito, eu tenha perdido a paciência com esta última ao longo da obra. Sim, seu dilema é complicado, mas é difícil simpatizar com ela quando você está sendo repetidamente lembrado das coisas terríveis que Brandin fez. (Também fiquei irritada depois que ela toma uma resolução e não segue com ela!) Já outras personagens femininas são bastante rasas: Alais, filha de um dos rebeldes, é o ideal da jovem pura, gentil e inocente; enquanto Alienor, uma das aliadas dos protagonistas, é o contrário: hipersexualizada, ela pratica sadomasoquismo como forma de lidar com o fato de ser oprimida politicamente. Para não mencionar o fato de que há uma cultura matriarcal no mundo de Kay – só que essas mulheres só existem para ser tiradas do poder por um homem, que é escrito como um herói que ajuda os protagonistas. Não vi o sentido em mencionar uma cultura dessas apenas para subvertê-la: não ficamos sabendo quase nada sobre essas mulheres.

Para a minha surpresa, o livro reconhece a existência de sexualidades diversas, embora às vezes de um jeito questionável: os homens são muitas vezes mostrados como predadores que ficam dando em cima de Devin (calma, jovem, nem todo mundo quer seu corpo). Porém, há a menção de duas garotas envolvidas num romance bacana, e existe um personagem abertamente gay que é bem heroico – mas trágico também, sendo despachado do livro rapidamente. Também vale avisar que ele finge ser um homossexual estereotipado (leia-se: efeminado) para enganar o mundo enquanto trama contra Alberico – de fato, o mundo de Tigana é bem machista e homofóbico, de modo geral.

Outro ponto questionável foram os romances: mais de um amor à primeira vista é demais para mim, e o “grande” romance do livro veio como uma enorme surpresa que me deixou apenas confusa. Olha, romance é o tipo de coisa que não funciona como plot twist. Você tem que ter um trabalho em cima disso. Ou eu estava muito desatenta ou nada apontava para o fato dos dois personagens em questão estarem apaixonados.

De qualquer modo, Tigana possui vários elementos interessantes para fãs de fantasia, e acho que vale a pena ler pela construção de mundo, trama e para conhecer um livro tão famoso. Apesar de eu não ter gostado de vários aspectos, foi uma leitura relativamente rápida e muito envolvente, e tem a vantagem de ser um standalone (embora a edição brasileira tenha sido dividida em dois volumes). Apesar das ressalvas, pretendo ler outros livros do autor: estou curiosa para ver como evoluíram depois deste.

 

COMENTÁRIOS COM SPOILERS:

  • O que dizer de Sandre d’Astibar?
SANDREDASTIBAR

MAS NÃO O BASTANTE PRA CORTAR SEUS DEDOS E SALVÁ-LO DAS MASMORRAS, NÃO É MESMO? NÃO, ISSO VOCÊ SÓ FAZ POR UMA GAROTA QUE CONHECE HÁ SEIS MESES. MIGO ASSIM FICA DIFÍCIL TE DEFENDER

  • Acho que a morte do Tomasso me emocionou mais que qualquer outra coisa no livro (eu já estava de saco cheio da Dianora quando ela finalmente morreu). Fala sério, ele nunca nem soube que o pai tinha ido vê-lo na prisão! Chateante isso.
  • Rovigo: decide ajudar Alessan num mundo em que famílias inteiras são assassinadas brutalmente por qualquer coisinha e não pede nem a opinião da esposa. Que legal. Também achei bizarro ele levar a Alais pra guerra. Querer ampliar os horizontes da sua filha e levar uma adolescente que nunca saiu de casa pro meio do campo de batalha são coisas meio diferentes.
  • Que raios Kay estava pensando quando criou o drama da Dianora e do Baerd e decidiu que eles não só jamais iam se encontrar como nem iam ficar sabendo do destino um do outro? Que promessa não cumprida para o leitor. Altamente frustrante.
  • E a resolução da Dianora? Por que diabo ela mudou de ideia quando fez o mergulho atrás do anel? Ainda não entendi.
  • Amei a ambiguidade da última frase. Kay, seu maldito!

*

Tigana: A lâmina na alma (v. 1) e A voz da vingança (v. 2)
Autor: Guy Gavriel Kay
Tradutor: Carlos Daniel S. Vieira e Ana Cristina Rodrigues
Editora: Saída de Emergência
Ano de publicação: 1990
Anos das edições brasileiras: 2013 e 2014
352 e 320 páginas

 

Citações preferidas

“Eu estou aprendendo tantas coisas ultimamente. Nesse mundo onde nos encontramos, precisamos de compaixão mais do que qualquer outra coisa, eu acho, ou estaremos completamente sozinhos.”

*

A dela não era uma vida feita para ser completa. Ela podia ver isso agora claramente, e nessa clareza, nessa compreensão final, Dianora encontrou a fonte da sua calma.

Algumas vidas eram desafortunadas. Algumas pessoas tinham a chance de moldar o seu mundo. Parecia – quem poderia tê-lo previsto? – que ambas as coisas eram verdadeiras para ela.

*

E em algum lugar na sua mente e coração – frutos de um longo inverno de pensamentos, e de ouvir em silêncio enquanto homens mais velhos e sábios falavam – Devin soube que ele não era a primeira nem seria a última pessoa a encontrar em um único homem a forma e as feições definidoras para o amor muito mais difícil de uma abstração ou de um sonho.

*

“Você quer que a liberdade seja fácil, Erlein bar Alein? Acha que ela cai como nozes de árvores no outono?”

Anúncios

2 respostas em “[Resenha] Tigana

  1. Pingback: [Resenha] The Lions of Al-Rassan | Sem Serifa

  2. Pingback: [Especial] Livros favoritos de 2016 | Sem Serifa

O que achou deste post?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s