[Resenha] The Lions of Al-Rassan

Esta resenha foi feita com base na edição em inglês da Harper Collins. A tradução de trechos foi feita por mim.

lionsalrassanSinopse:

Os Asharites de Al-Rassan vieram das areias do deserto, mas, ao longo dos séculos, seduzidos pelos prazeres sensuais de sua nova terra, sua piedade severa erodiu. O império Asharite se dividiu em cidades-estados decadentes lideradas por reis mesquinhos. O rei Almalik de Cartada está ascendendo entre eles, auxiliado por seu amigo e conselheiro, o notório Ammar ibn Khairan – poeta, diplomata, soldado – até que uma tarde de verão de brutalidade muda o seu relacionamento para sempre.

Fonte: Kobo

No começo do ano eu li Tigana, o único livro de Guy Gavriel Kay disponível em português por enquanto e possivelmente a obra mais conhecida do autor. Fiquei dividida em relação ao livro, mas resolvi dar uma nova chance ao autor. E não me arrependi: achei The Lions of Al-Rassan incrivelmente melhor.

Como Tigana, este livro também tem um pano de fundo histórico. O cenário inspira-se na Espanha dos mouros, e há três povos envolvidos na história: os Kindath (equivalentes aos judeus), os Asharites (muçulmanos) de Al-Rassan; e os Jaddites (cristãos) de Esperana. Os três povos estão envolvidos numa história complexa de conquistas e reconquistas. O fator histórico é muito bem trabalhado, com detalhes específicos que mostram o conhecimento do autor, como o fato de os Kindath terem que pagar taxas para viver entre os Asharites. Kay também não recua de descrições muito gráficas de violência, tanto na guerra como na ação de pessoas comuns impulsionadas pelo ódio e pelo preconceito religioso.

Os personagens principais vêm desses três povos: Jehane bet Ishak, uma médica Kindath; Rodrigo Belmonte, um capitão Jaddite, e Alvar, um dos seus soldados; e Ammar ibn Khairan, diplomata, poeta e soldado Asharite. O caminho dessas quatro pessoas – e de uma série de personagens secundários de força, como a esposa e os filhos de Rodrigo, os pais de Jehane, entre outros – se entrecruzam em meio a convulsões políticas e guerra iminente.

Todos os personagens são muito bem desenvolvidos. Enquanto Rodrigo e Ammar são ambos homens inteligentes e ótimos soldados e estrategistas, Jehane é uma mulher extremamente competente, lúcida e prática, sem deixar de ser bem-humorada e sem deixar de ser feminina num contexto dominado por homens: para se afirmar em sua profissão, tem que superar barreiras e pré-concepções sexistas; se apaixona e tem uma vida sexual sem que isso a diminua de qualquer forma (o que também ocorre com duas outras mulheres da história, que são mães ainda por cima!); e especificamente sente falta de ter amigas. Alvar, um rapaz da companhia de Rodrigo, é apaixonado por ela mas não é um babaca quanto a isso: respeita Jehane e as decisões dela e nunca se acha no direito de exigir algo dela que não é dado voluntariamente.

O relacionamento de Rodrigo com sua esposa Miranda – outra mulher sensacional – é muito bonito, mas o foco do livro é mais na relação complicada que surge entre Jehane, Ammar e Rodrigo. Enquanto a médica tem sentimentos fortes pelos dois homens, eles, por sua vez, claramente sentem uma atração especial um pelo outro – nunca especificada nem mostrada tão claramente quanto os relacionamentos heterossexuais, mas inegável (o primeiro encontro dos dois é literalmente uma troca de olhares que deixa todo mundo desconfortável). Um deles também é descrito como tendo relacionamentos com homens e mulheres (personagens bissexuais, na minha fantasia? Mais provável do que você imagina!), de modo que fiquei agradavelmente surpresa ao encontrar um mundo não heteronormativo (embora, pelo contexto religioso, haja um tabu esperado contra relacionamentos homossexuais – mesmo assim, o autor lida com o tema muito melhor do que em Tigana).

Por essas e outras, gostei tanto das personagens e dos seus relacionamentos. Só apontaria, como crítica, o fato de todas as mulheres serem incrivelmente lindas: enquanto em alguns casos você poderia justificar isso, não há nenhum motivo para Jehane, por exemplo, ser maravilhosamente bela. Da mesma forma, às vezes achei que Kay exagerava nas habilidades dos homens: Rodrigo, Ammar e outros personagens que aparecem ao longo da história são geniais e aparentemente bons em tudo (no que eu vou chamar de “síndrome Kvothe”, mesmo que anacronisticamente, nesse caso).

A trama é envolvente desde o início, cheia de reviravoltas e pulos temporais para avançar a história. Há um forte elemento político (vários personagens são políticos ou diplomatas ou, como Rodrigo, experientes em se virar no meio deles) e Kay faz um trabalho impressionante mostrando como as diferentes forças (que não incluem apenas os três povos mencionados, como também uma tribo extremista do deserto) mantêm ou quebram o status quo no mundo – em movimentos muitas vezes cíclicos que ecoam nossa própria história. Como em Tigana, esse livro tem uma profundidade que eu raramente vejo em outros autores de fantasia. A questão da paz entre povos está no cerne da história: o fator humano – os relacionamentos entre indivíduos – num mundo dividido por dogmas e preconceitos. A atualidade da discussão é inescapável, e deixa sua marca no leitor.

Só preciso apontar uma estratégia utilizada pelo autor que me deixou um pouco irritada: a de mostrar eventos escondendo algum fator (quem morreu em determinada cena, por exemplo) e aos poucos ir revelando isso em seguida, a partir do ponto de vista de outros personagens, te enganando o tempo inteiro. Da primeira vez que isso aconteceu eu achei genial, mas até o fim do livro se tornou repetitivo.

De todo modo, foi uma leitura incrível: um universo bem desenvolvido, personagens apaixonantes, tramas e batalhas envolventes, momentos surpreendentes e toques de humor em meio à melancolia de coisas perdidas. Recomendo fortemente para fãs de fantasia ou ficção histórica.

*

The Lions of Al-Rassan
Autor: Guy Gavriel Kay
Editora: Harper Collins
Ano de publicação: 1995
E-book

 

Citações preferidas

“Isso”, queixou-se Rodrigo Belmonte de Valledo, “é dolorosamente familiar. Uma mulher me colocando no meu lugar. Tem certeza de que nunca conheceu minha esposa?”

*

Médica da corte e de uma companhia militar, Jehane bet Ishak estava cercada por homens brilhantes e habilidosos. Alvar podia lidar com isso. Ele tinha poucas expectativas. Contanto que fosse capaz de ter um papel, de estar próximo, ele disse a si mesmo que ficaria satisfeito.

*

Você tocava a vida das pessoas, de relance, e essas vidas mudavam para sempre. Às vezes era difícil lidar com isso.

*

“Uma coisa é guerrear pelo seu país, sua família, mesmo que em busca da glória. Outra é acreditar que as pessoas contra quem luta são a personificação do mal e devem ser destruídas por isso.”

*

“Pior é quando o pouco espaço que existe para os homens se moverem entre os mundos desaparece porque os mundos são perdidos para o ódio.”

2 respostas em “[Resenha] The Lions of Al-Rassan

  1. Pingback: [Especial] Livros favoritos de 2016 | Sem Serifa

  2. Pingback: [TAG] Oscar literário 2017 – Parte 1: Indicações | Sem Serifa

O que achou deste post?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s