[Resenha] Os filhos de Anansi

Sinopse:

anansiCharlie Nancy tem uma vida pacata e um emprego entediante em Londres. A pedido da noiva, ele concorda em convidar o pai para seu casamento e fazer disso uma tentativa de reaproximação, já que há vinte anos os dois não se falam. Enquanto isso, no palco de um karaokê na Flórida, o pai de Charlie tem um ataque cardíaco fulminante. A viagem de Charlie até os Estados Unidos para o funeral acaba se tornando a jornada de uma nova vida. Charlie não tinha ideia de que o pai era um deus. Menos ainda de que ele próprio tinha um irmão. Agora sua vida vai ficar mais interessante… e bem mais perigosa.

Fonte: Livraria Cultura

Nunca espero pouco de Gaiman. Gosto bastante de seu estilo narrativo lúdico e do tom natural com o qual ele narra acontecimentos extraordinários. E já digo de cara que Os filhos de Anansi não me decepcionou.

Esse livro mistura uma narrativa contemporânea com histórias míticas de Anansi – e todas as histórias são de Anansi. Esse deus é uma aranha e uma pessoa. E mais relevante que isso para o protagonista da história: é seu pai.

Charles Nancy ou, como seu pai o apelidou e todos o chamam, Fat Charlie, descobre que o pai está morto depois de a noiva insistir para que ele o convide para o casamento. A relação do casal é tranquila, até morna, com uma camada de frustração de ambos os lados. Me chamou muita atenção o fato de Rosie, a noiva, ter escolhido só fazer sexo depois do casamento. Esse é um tema incomum na literatura contemporânea (aparecendo apenas em Crepúsculo, que me lembre), e para mim foi inesperado vê-lo numa literatura “cool”. Gostei que a decisão de Rosie foi tratada com respeito, mesmo que parte do motivo da sua decisão seja sua intragável mãe – que se opõe sem reservas ao casamento.

Toda a vida de Fat Charlie se transforma no instante em que ele segue a sugestão da velha vizinha de seu pai e fala para uma aranha avisar o irmão (de cuja existência ele sequer sabia até o funeral do pai) para passar e dar um “Alô”. E Spider vem. E Spider causa.

O livro segue com grandes fraudes financeiras, karaokê, velhinhas cheias de encanto, assassinato, um cruzeiro para o Caribe, o fim (ou o começo) do mundo, pássaros ameaçadores, estrelas-do-mar, um limão e uma ressaca que poderia ser uma arma do Deus do Velho Testamento – não necessariamente nessa ordem. E tudo isso sem que a narrativa perca o fôlego ou o bom humor. A história toda tem um tom casual, mesmo nas partes mais míticas, e é recheada de frases que me fizeram dar risadinhas, como esta:

Pessoas já tinham dito “Não há mais esperança, vamos todos morrer” com mais entusiasmo”.

Como já disse na resenha de Léxico, adoro premissas que envolvem o poder das palavras. Esse livro nos relembra que as histórias eram passadas oralmente e, assim como feitiços e encantamentos, podiam vir na forma de canção. E esse poder performático da palavra é vigente na linhagem de Anansi, que é retratado nas histórias como aquele que se safa conversando com os inimigos.

O mais importante sobre as canções é que elas são como as histórias: não valem droga nenhuma, a menos que alguém as escute.

Spider usa muito bem esse dom, persuadindo pessoas de coisas impossíveis, como quando vai trabalhar no lugar do irmão e convence a todos – inclusive Rosie – que na verdade é o próprio Fat Charlie. Fat Charlie não gosta nada disso e, depois que pedir “por favor” não funciona, procura um meio de se livrar do irmão.

Gostei muito de como a relação dos irmãos se desenvolve. O contraste entre suas personalidades transforma ambos, deixando Fat Charlie mais confiante e Spider mais empático. Há uma revelação crucial sobre Spider, que, embora eu tenha achado meio previsível, me fez gostar mais de Fat Charlie pela maneira como reagiu a ela.

É muito bonita também a trajetória de aceitação entre Fat Charlie e seu pai, que era considerado uma epítome do constrangimento para o protagonista. Embora o perdão após a morte seja um tema comum na ficção, o autor trata do assunto esbarrando em clichês e os rechaçando – como na bela fala de Fat Charlie para o pai no funeral… no funeral errado.

A edição da Intrínseca é muito bonita. A primeira coisa que fiz quando o livro chegou foi esfregá-lo na cara, pois a capa tem uma textura granulosa e ligeiramente áspera. Também conta com extras, compostos por um capítulo cortado e textos de Gaiman respondendo às perguntas “Como você ousa?” e “De onde você tira suas ideias?”, naquele tom gentil e incentivador que quem leu Faça boa arte já conhece.

Os filhos de Anansi proporciona uma leitura agradável e divertida, mesmo com alguns acontecimentos trágicos e grandiosos. Nos últimos anos estive mais ligada aos quadrinhos de Gaiman, mas este livro despertou a vontade de ler um pouco mais da prosa do autor.

*

Os filhos de Anansi
Autor: Neil Gaiman
Tradutor: Edmundo Barreiros
Editora: Intrínseca
Ano de publicação: 2005
Ano desta edição: 2015
327 páginas

Esse livro foi cedido em parceria com a Intrínseca.

Citações Favoritas

“Vou entrar” disse. “Mas não vou cantar.”

“Você já entrou.”

“Eu sei. Mas não vou cantar.”

“Não faz muito sentido dizer que não vai entrar se já está dentro.”

“Não sei cantar.”

*

O piche encheu sua boca e cobriu seu nariz e rosto.

E foi assim que, na manhã seguinte, a mulher e os filhos encontraram Anansi quando chegaram à plantação de ervilhas perto da velha árvore de fruta-pão: todo preso ao homem de piche, e mortinho.

Eles não ficaram surpresos ao vê-lo assim.

Naqueles dias, era comum ver Anansi daquele jeito o tempo todo.

*

É um mundo pequeno. Não é preciso viver nele muito tempo para aprender isso sozinho. Existe a teoria de que, no mundo inteiro, há apenas quinhentas pessoas de verdade – o elenco, por assim dizer; todas as outras não passam de figurantes. E tem mais: todas se conhecem. E é verdade, ou pelo menos em parte. Na verdade, o mundo é composto de milhares de grupos de quinhentas pessoas, e elas passam a vida se esbarrando, tentando se evitar e se encontrando na mesma improvável casa de chá em Vancouver. É simplesmente inevitável. Não é sequer uma coincidência. É só o modo como as coisas funcionam. Sem se importar com os indivíduos ou a conveniência.

*

“Você não ajuda em nada” reclamou para o limão.

O que foi injusto. Ele era apenas um limão. Não havia nada remotamente especial nele. Ele estava fazendo o melhor que podia.

*

“Ele amava tudo” respondeu a mãe, amargurada. “Amava comida, amava pessoas, amava a filha. Amava cozinhar. Me amava. E qual foi o resultado disso? Só acabou indo mais cedo pro túmulo. Não dá pra sair por aí amando as coisas desse jeito. Já lhe disse isso.”

*

“Mãe. Pode parar de ser tão negativa? Se tem alguma sugestão que possa ajudar, por favor, diga. Se não tiver, nem se dê ao trabalho. Está bem?”

Silêncio.

“Eu poderia mostrar o traseiro para ele.”

*

Alguns chapéus só podem ser usados se você estiver disposto a ser ousado, a incliná-los em determinado ângulo e caminhas com um andar afetado, quase como se estivesse gingando. Eles exigem muito de você.

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